O manejo fitossanitário da lavoura de soja é determinante para a boa produtividade e qualidade dos grãos produzidos. No entanto, além de eficiência no controle das doenças, o posicionamento de fungicidas dele levar em consideração o manejo da resistência das doenças a esses defensivos.
Como principais estratégias de manejo da resistência de fungos a fungicidas, destacam-se a rotação de princípios ativos e mecanismos de ação de fungicidas, bem como a associação de fungicidas sítio específicos a multissítios, aumentando o espectro de controle. O uso frequente de defensivos de mesmo princípio ativo e/ou mecanismos de ação é uma das principais práticas para selecionar indivíduos resistentes, contribuindo para o progresso da evolução dos casos de resistência (figura 1).
Além das estratégias supracitadas, uma estratégia adotada para reduzir a pressão de seleção de fungos resistentes é reduzir a exposição desses patógenos aos fungicidas, mediante redução do número de aplicações. Conforme destacado pelo Comitê de Ação a Resistência a Fungicida (FRAC-BR), restringir o número de tratamentos aplicados reduz o número total de aplicações e, portanto, desacelera a seleção de organismos resistentes. Ela pode, inclusive, favorecer o declínio de cepas resistentes que possuem menor capacidade de se multiplicar quando o fungicida não é aplicado.
No entanto, visando otimizar o manejo da resistência, não basta apenas reduzir o número de aplicações, é crucial atentar para o momento das aplicações. Reduzir o número de aplicações nem sempre retarda proporcionalmente o surgimento da resistência, e interromper o uso do fungicida enquanto o patógeno ainda se multiplica pode permitir que populações mais sensíveis voltem a predominar (FRAC-BR), reduzindo temporariamente a frequência da resistência na população.
Quando os tratamentos são realizados de forma consecutiva, eles tendem a coincidir com os estágios de maior atividade da doença, período em que o patógeno se multiplica rapidamente. Nessa fase, a população fúngica é numerosa e geneticamente diversa, o que eleva a probabilidade da presença de indivíduos naturalmente menos sensíveis ao fungicida.
A aplicação repetida do produto nesse contexto elimina preferencialmente os indivíduos sensíveis e favorece a sobrevivência e multiplicação dos resistentes, intensificando a pressão de seleção. Assim, mesmo com a redução no número total de aplicações, a resistência pode se desenvolver em ritmo semelhante.
Vale destacar que estudos demonstram haver uma relação entre número de aplicações de fungicidas e a produtividade da soja. Conforme observado por Tura (2023), ainda que varie em função da cultivar e condições ambientais, para cada aplicação entre uma e quatro e dois décimos de aplicações (figura 2), tem-se um incremento médio de produtividade de 599,8 kg ha-1. O modelo desenvolvido por Tura (2023) demonstra que a partir de 4,2 aplicações, em situações normais (não limitantes), não ocorreu incremento de produtividade em função do aumento do número de pulverizações de fungicidas.
Logo, reduzir o número de aplicações de fungicidas, pode em algumas situações, limitar a produtividade da cultura, além disso, é consenso que o manejo da resistência das doenças aos fungicidas depende não só do posicionamento dos fungicidas quanto a época e quantidade de aplicações, mas também, do manejo inteligente considerando o ciclo da doença, da cultura e a rotação de princípios ativos e mecanismos de ação.
FRAC-BR. Resistência a fungicidas definições e conceitos. Comitê de Ação a Resistência a Fungicidas: Frac-Brasil, s. d. Disponível em: < https://www.frac-br.org/definicoes-e-conceitos >, acesso em: 28/01/2026.
TURA, E. F. EXPLICANDO A CONTRIBUIÇÃO DO NÚMERO DE APLICAÇÕES DE FUNGICIDAS FOLIARES NA PRODUTIVIDADE DE LAVOURAS DE SOJA. Universidade Federal de Santa Maria, Dissertação de Mestrado, 2023. Disponível em: < https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/30300/DIS_PPGEA_2023_TURA_ENRICO.pdf?sequence=1&isAllowed=y >, acesso em: 28/01/2026.
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