Quando se fala em exportação de feijão, muita gente reage com desconfiança. A associação é quase automática: “se exportar mais, vai faltar aqui e o preço vai subir”. Essa lógica parece intuitiva, mas não se sustenta quando olhamos de perto como funciona a produção de feijão no Brasil.
Na prática, ampliar as exportações é uma das formas mais eficientes de proteger o consumidor brasileiro, garantir oferta estável e manter o feijão acessível no prato feito do dia a dia.
O problema histórico do feijão no Brasil
O feijão sempre conviveu com ciclos extremos. Em um ano, o preço sobe, o produtor se anima e amplia o plantio. No ano seguinte, o excesso derruba os preços, gera prejuízo e muitos abandonam a cultura. Logo depois vem a escassez, seguida de novas altas no supermercado. Essa montanha-russa prejudica todo mundo, principalmente quem depende do Feijão como base da alimentação.
Como a exportação ajuda a equilibrar o mercado
A abertura de mercados internacionais cria uma alternativa concreta para o produtor. Quando há excesso de feijão no Brasil, o excedente pode ser exportado para países como Índia, China, África e Oriente Médio. Isso evita que os preços despenquem, mantém o produtor no campo e garante que ele plante novamente na safra seguinte.
Para o consumidor, o efeito é direto: menos risco de faltar feijão e menos explosões repentinas de preço.
Exportamos o que quase não consumimos
Outro ponto essencial é entender quais feijões o Brasil exporta. A maior parte das exportações envolve feijão-mungo, feijão-caupi (fradinho) e gergelim, produtos pouco presentes no prato do brasileiro, mas muito valorizados no mercado internacional.
Já o feijão-carioca, que responde por cerca de 70 por cento do consumo nacional, praticamente não tem demanda externa. Ou seja, exportar não compete com o feijão que vai para a mesa do brasileiro. Pelo contrário, a renda obtida com as exportações permite que o produtor invista mais tecnologia, produtividade e qualidade no feijão consumido internamente.
Mais tecnologia, menor custo e melhor feijão
Para exportar, o produtor precisa atender a padrões rigorosos de qualidade, rastreabilidade e controle de resíduos. Esse avanço técnico eleva o nível de toda a produção nacional. O feijão que fica no Brasil também se beneficia, chegando ao consumidor com mais qualidade e segurança.
Além disso, práticas como agricultura regenerativa e o uso de biológicos ajudam a reduzir a dependência de fertilizantes importados, cotados em dólar, e melhoram a fertilidade do solo ao longo do tempo. Isso reduz o custo unitário e traz mais estabilidade aos preços.
O que isso significa para quem compra Feijão
No curto prazo, podem ocorrer ajustes pontuais, especialmente em variedades como o feijão-preto, que também tem demanda externa. Mas, no médio e longo prazo, a exportação fortalece a segurança alimentar do país.
Um setor de feijão forte, rentável e tecnificado é a melhor garantia de que o produto não vai faltar na prateleira e continuará acessível à população.
Costumo dizer que o melhor programa de segurança alimentar é um produtor rural com lucro. Quando o campo é forte, o prato feito com arroz e feijão está protegido.
*Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional
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