A precariedade da MT-140 expõe produtores e caminhoneiros a perdas que chegam a dezenas de milhares de reais em um único dia de chuva, afetando o escoamento de milho, soja, algodão e outras culturas na região. O trecho considerado mais crítico acumula tombamentos, atolamentos e interrupções frequentes.
O impasse sobre a responsabilidade pela manutenção agrava o problema, enquanto municípios, consórcios e governo estadual discutem recursos e autorizações. A falta de infraestrutura encarece o frete, reduz competitividade e ameaça o andamento da safra que se aproxima.
Em meio ao barro e à instabilidade da estrada, cargas inteiras têm sido perdidas. O agricultor Lucas Pasqualotto relata que um caminhão carregado dentro da propriedade tombou ao tentar vencer o trecho. “É uma estrada totalmente abandonada. Esse milho foi carregado em nossa propriedade. Tinha 900 sacos de milho”. Quando questionado se era possível aproveitar o produto, ele responde: “Não, esse milho foi totalmente perdido por conta das chuvas. O prejuízo estimado é de cerca de R$ 50 mil, R$ 60 mil. Qualquer cultura que carrega aqui corre esse risco”.
A família Pasqualotto possui uma área de quatro mil hectares na região. O produtor Osvaldo Pasqualotto afirma que o cenário se repete chuva após chuva. “Por incrível que pareça é a terceira chuva que dá. Praticamente de seis meses para cá já aconteceu isso. É caminhão atolado, é caminhão tombado, é produto que se perde, prejuízo atrás de prejuízo e vai passando os anos e ninguém mexe nessa estrada”, diz ao Patrulheiro Agro desta semana.
Para ele, a sensação é de desamparo: “Vemos nas cidades tantas pessoas precisando, passando fome, passando dificuldade e a gente vai pegar esse produto que colhemos com amor, plantou com carinho e vai levar na cidade e acaba se perdendo no caminho por ter estradas ruins. A gente só quer trabalhar, só quer tirar os produtos entregar na cidade e a gente não consegue fazer isso”.
Os produtores frisam que a cada dia mais enfrentam custos crescentes para manter a logística funcionando. Alberto Chiapinotto, que está na região há quatro décadas, afirma que uma chuva mais intensa é suficiente para bloquear o caminho. “Até outro dia era chuva de cinco milímetros, agora deu uma chuva de 50 milímetros. Nós não temos mais estrada e estamos aqui há 40 anos nesse espaço de tempo e não se tem ninguém fazendo uma conclusão de melhoria”.
Ele lembra ainda que a precariedade afeta até o acesso escolar: “O que mais judia para nós é as crianças sem ter a possibilidade de ir para a escola”, frisa ao programa do Canal Rural Mato Grosso. A Agrícola Irmãos Chiapinotto semeia 2.050 hectares de soja e milho no município de Juscimeira.
O custo do frete também dispara diante da situação. Alberto comenta que chega a pagar em frete “50% a mais do valor de mercado”. A competitividade regional cai junto: “Essa logística deixa uma margem de 12% no valor do grão a menos do que em outras regiões”.
Segundo os produtores, a área cultivada na região no entorno da MT-140 é de aproximadamente de 200 mil hectares e envolve cerca de 50 agricultores.
Ezequiel Victor, gerente agrícola da Girassol Agrícola, relata que as equipes da empresa chegam a mobilizar máquinas para garantir a passagem. “Todos os caminhoneiros sofrem muito para tirar a safra e nós temos que estar ajudando, tem que estar desengatando trator para poder puxar, pá carregadeira para tapar buraco, então recém começa as chuvas e já começa os problemas”. A Girassol Agrícola cultiva 8,2 mil hectares de lavoura e aproximadamente 7,5 mil hectares de eucalipto na região.
Para quem transporta, o desgaste é diário, a ponto de motoristas terem que aguardar horas para prosseguir. É o caso de Dionísio da Silva Campos. “Já era para eu estar carregando. Todo ano é essa labuta aí”.
Ele pontua à reportagem do Canal Rural Mato Grosso que o buraco que bloqueia o trecho poderia ter sido reparado antes do período chuvoso. “Poderia ter tampado bem antes da chuva, mas infelizmente os órgãos públicos não fizeram nada”. O prejuízo atinge até o lucro da viagem: “Lucro fica totalmente aqui”.
O caminhoneiro Daniel Luiz também enfrentou o atoleiro registrado na reportagem. “Pneu, mola, tudo vai judiando com a estrada ruim. É a primeira vez que entro aqui, já não venho mais, é a última também”, diz.
Um dos trechos considerados mais críticos da MT-140, com pouco mais de 15 quilômetros, está oficialmente sob responsabilidade do município de Santo Antônio de Leverger. Porém, “nunca recebeu uma manutenção necessária”, como relatam aqueles que dependem da rodovia estadual. Conforme produtores e autoridades locais, Juscimeira — que está mais próximo — tenta assumir a gestão para viabilizar obras no local.
“Na MT-140 quatro quilômetros é do município de Juscimeira. Juscimeira fez o seu dever de casa, primeiro ano de mandato já arrumando todas MTs, todas as estradas vicinais, e arrumando todos os quatro quilômetros da MT-140. Gostaria de ter arrumado mais, gostaria de ter entrado e ter alcançado até o município de Jaciara, mas não tenho permissão”, afirma o prefeito Alexandre Russi ao Canal Rural Mato Grosso.
O prefeito reforça que a distância inviabiliza o atendimento por Santo Antônio de Leverger. “Fica mais próximo de Juscimeira a 60 quilômetros e a 150 quilômetros de Santo Antônio de Leverger, e Santo Antônio de Leverger não consegue dar esse atendimento”.
O prefeito explica que uma lei necessária para formalizar a transferência do trecho está parada desde 2024 na Assembleia Legislativa. “Recursos temos, maquinários temos, força de vontade não nos falta, mas precisamos do documento falando: ‘pode entrar que é Juscimeira’. E a gente entra para essa região”, afirma. Ele cita ainda que foi firmado um convênio de R$ 12,8 milhões com o governo do estado, por meio do Cidesasul, para manutenção de MTs e um novo acordo está em andamento para ampliar a atuação nas estradas de Dom Aquino, Campo Verde e Poxoréu.
A Aprosoja Mato Grosso também acompanha a situação. “Mal começaram as primeiras chuvas e já estamos com um cenário lamentável aqui. São vários anos com esse mesmo problema aqui neste local, justamente por causa dessa redivisão municipal”, relata o delegado da entidade Rogério Berwanger.
Em nota, a Sinfra-MT informou que firmou convênio com o Cidesasul, consórcio intermunicipal presidido pelo prefeito de Juscimeira, para manutenção de trechos não pavimentados das MTs 140, 373, 040, 469, 460 e 454 no município. Não há, por enquanto, projetos de pavimentação.
No meio de tantos entraves, a cobrança permanece por soluções definitivas. Como resume Osvaldo Pasqualotto: “E tem que ser um trabalho bem feito, tem que ser levantada, cascalhada”.
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