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Dívidas, calote e falta de crédito travam produtores em Mato Grosso


As dificuldades no campo crescem a cada dia. Produzir hoje é mais do que os cuidados com a terra, a escolha de boas cultivares, manejo e uso de tecnologia. Em Mato Grosso, produtores de soja e milho, além das margens cada vez mais achatadas devido ao alto custo de produção e baixos preços, enfrentam problemas com dívidas, calote e falta de crédito, impedindo a realização de novos investimentos.

No município de Cláudia, região norte de Mato Grosso, o produtor Antônio Lamperti teve que parar por duas vezes a colheita do milho nos 1.070 hectares cultivados nesta segunda safra 2024/25 devido a alta umidade. Até o momento ele conseguiu colher cerca de 30% da extensão.

O produtor comenta ao Patrulheiro Agro desta semana que as paradas nos trabalhos têm como intuito esperar a umidade estar no percentual certo para a colheita do cereal e assim poder levar para o armazém.

“A gente fica apreensivo, porque tem conta para pagar. Precisa agilizar para ter uma noção, pois o preço não ajuda. Precisamos da produção. Se tiver produção aproxima as contas, senão vamos ficar devendo de novo. Temos contas velhas para quitar com essa safra. Não é só a safra dela”.

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De acordo com seo Antônio, nos últimos três anos a propriedade vem “passando muito aperto”. A decisão, inclusive, de trabalhar em família é para evitar custos maiores, uma vez que os custos têm aumentado a cada ciclo e os contratos hoje não estão compensando.

“Se você for analisar hoje, soja nós não plantaríamos, porque o custo dela não compensa o risco que têm. Saímos da pecuária, porque ela não estava agradável, estava melhor no setor do grão e levamos essa rasteira, pois não tem uma garantia de preço. A desvalorização foi muito grande para você mudar da pecuária para uma lavoura. Demora de três a cinco anos para recuperar os custos e investimentos. Por isso o agricultor está endividado”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

O produtor afirma que está “difícil de trabalhar” diante financiamentos com juros altos e não há uma taxa de juros “boa” hoje.

“No meu caso, nesses últimos dois anos, eu estou conseguindo pouco recurso de instituições bancárias, pois fazem levantamento da vida do produtor e a gente não anda em boa situação. Por isso, a coisa não está rodando bem do médio para o pequeno, porque não tem recurso para trabalhar. Ele depende de instituições bancárias, financiamento do governo que ultimamente não nos ajuda em nada”, pontua “seo” Antônio.

Áreas de pastagem se transformam em lavouras

Conforme o presidente do Sindicato Rural de Cláudia, Sérgio Ferreira, nos últimos dois anos muitas áreas de pastagens no município foram transformadas em lavouras. Ele comenta à reportagem do Canal Rural Mato Grosso, alguns, inclusive, arrendaram a área.

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“Calcário não é barato, frete mais caro ainda. Então é um investimento muito alto e maquinário [também]. Quem investiu nessas áreas não está tendo lucro”, frisa.

Agricultor no município, Ivan Max Hoffman pontua que “hoje temos que vender uma quantidade maior de soja e milho para pagar a mesma parcela que na época em que não a quantidade era bem menos. Não é fácil. É um ano desafiador. O produtor não está tendo liquidez. Está trabalhando na linha entre o prejuízo e o lucro. Só pagando a conta. Infelizmente pagando para trabalhar”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Ruram Mato Grosso

Há quase três anos uma unidade de armazéns gerais, alegando uma severa crise de liquidez financeira, não realizou o pagamento de parte dos produtores do município de Cláudia que venderam toda a produção de soja e milho da safra 2022/23, reduzindo ainda mais a margem de rentabilidade dentro da porteira.

“Não abriu nem falência e nem concordata. Eu mesmo perdi 100% da safra de soja e 55% da safra de milho, porque estava lá para pagar as contas”, conta seo Antônio.

Na época, a perda do produtor com a situação foi de 50 mil sacas de soja e 44 mil sacas de milho. A dívida contraída por ele na safra em questão chegou a R$ 8,230 milhões.

“Estou devendo R$ 5,5 milhões, porque tinha um caixa de quase R$ 3,2 milhões. E estamos aí penando. Falta bastante para pagar. As contas não se alcançam. O agricultor é um herói louco. Sempre acredita na próxima [safra], mas nunca chega”, diz seo Antônio emocionado.

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Conforme o Sindicato Rural de Cláudia, na época pouco mais de 50 agricultores, na maioria pequenos e médios, acabaram sendo vítimas e a dívida pode ultrapassar os R$ 400 milhões.

“A gente pensa até em arrendar, porque como é que se faz? Você não tem segurança, sabe produzir. Quem ganha dinheiro sempre é o atravessador. Só leva tombo, como a gente sempre vem levando. É difícil. O contrato funciona assim: para nós, quando não cumprimos, pagamos whashout. Quando eles não cumprem, eles não pagam nada e simplesmente abandona”, desabafa “seo” Antônio.

Também vítima, o presidente do Sindicato Rural perdeu pouco mais de 30 mil sacas de milho e aproximadamente quatro mil sacas de soja. Ele tem quase R$ 1,3 milhão para receber do armazém.

“O problema são os pequenos e médios que tinham financiamentos de bancos e estavam começando a andar. Pegaram um ano de colheita boa e aí aconteceu isso. Deu para baixo as coisas. O município vinha em uma margem boa, crescendo, se desenvolvendo e acontece um negócio desses. Aí parou tudo. Está na justiça, mas pelo o que estamos vendo não tem muita esperança. O produtor, a maioria, vai acabar perdendo 60%, 70%”.

Nota:

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Na época, a CAAJ Armazéns Gerais divulgou uma nota à imprensa dizendo que: “Em razão de maus negócios, juros abusivos e oscilação do mercado, a empresa e seu proprietário, produtor rural, entraram em severa crise de liquidez financeira, que inviabiliza por hora a continuidade das atividades comerciais”. De lá para cá o caso ainda segue na justiça.

+Confira todos os episódios da série Patrulheiro Agro


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