O chamado “exército de Janones” foi uma grande mobilização digital que reuniu cerca de dez milhões de pessoas em um canal do WhatsApp, organizado pelo deputado federal André Janones (Avante-MG). Durante o segundo turno das eleições presidenciais, esse grupo ganhou a adesão voluntária de vários artistas e intelectuais.
O objetivo principal era espalhar informações em massa — muitas delas falsas — para rebater a propaganda do candidato opositor, Flávio Bolsonaro. “Bolsonaro vai reduzir o valor das aposentadorias dos velhinhos” foi uma das fake news identificadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na época.
Diante disso, fica a pergunta: como podemos entender o envolvimento de cientistas, professores de universidades federais e artistas consagrados na distribuição deliberada de notícias falsas? Isso não seria o oposto do que esperamos de um intelectual? Infelizmente, a ciência mostra que não.
O mito do intelectual neutro
Para entender esse fenômeno, precisamos quebrar a imagem romântica que temos dos intelectuais. Muitas vezes, eles são vistos como pessoas iluminadas que pensam apenas no bem comum, acima das brigas políticas do dia a dia. Lembro-me de um estudante universitário que, ao saber que seu professor defendia um candidato, disparou: “Se ele apoia, é porque sabe o que é melhor para todos”.
Mas o sociobiólogo Richard Alexander desconstrói totalmente essa ideia. Para ele, a classe intelectual — o que inclui acadêmicos, filósofos e criadores de ideologias — não produz conhecimento por puro altruísmo. Na verdade, eles frequentemente criam ferramentas de manipulação social e justificativas morais que servem aos interesses de seus próprios grupos políticos.
Para que um grupo político ou uma nação dispute com seus rivais, ele precisa de mitos, regras morais rígidas e ideologias que unam seus membros internamente. Os intelectuais são os arquitetos desses sistemas.
Ideologias como armas
Alexander argumenta que as ideologias criadas por intelectuais funcionam como “armas abstratas”. Assim como um exército desenvolve tecnologia militar física, os grupos políticos usam seus pensadores para criar narrativas morais. Essas histórias servem para justificar ataques, defesas ou a exploração do lado adversário.
O papel do intelectual, muitas vezes, é disfarçar o interesse do seu próprio grupo sob o manto do “bem universal” ou da “verdade absoluta”. Isso torna a manipulação muito mais aceitável e eficaz. Longe de estarem isentos das pressões da sobrevivência e da disputa, eles são operadores-chave para que seus grupos vençam a guerra pelo poder.
O perigo para a democracia
Em um artigo anterior, analisei o livro O que os Americanos Sabem Sobre Política e Por Que Isso Importa, de Michael Delli Carpini e Scott Keeter. Os autores mostram que a informação factual — o fato, sem distorções — é um requisito obrigatório para a democracia funcionar. Quando o conhecimento é distribuído de forma desigual, a igualdade política morre.
Conhecer os fatos não é um luxo. É o instrumento que permite ao cidadão entender seus próprios direitos, votar consciente e não ser passado para trás. Pessoas desinformadas tornam-se alvos fáceis de manipulação.
Delli Carpini e Keeter apontam que as parcelas mais pobres e vulneráveis da população são justamente as que têm menos recursos para verificar informações. Provavelmente, foi essa a fatia do povo mais atingida pelo “exército de Janones” e, consequentemente, a mais prejudicada na hora de defender seus próprios interesses.
Como bem alertou Alexander, o papel dosintelectuais frequentemente envolve mascarar o interesse do seu grupo sob o manto da “verdade”. E você aí, achando que eles estavam acima dessas disputas, não é?
André L. Ribeiro-Lacerda, psicólogo social, professor da UFMT, campus Várzea Grande.
A semeadura da soja em Mato Grosso alcançou 89,05% da área prevista para a safra…
As cotações do milho voltaram a subir no mercado brasileiro, favorecidas pela valorização do dólar…
Começa nesta terça-feira (3) o Censo Experimental do 12º Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola, etapa…
Estudantes devem se inscrever pelo Portal Único de Acesso; resultado da chamada única será divulgado…
A Associação dos Criadores de Suínos de Mato Grosso (Acrismat) busca a renovação, até 2032,…
Os preços do feijão-preto encerraram outubro em alta pelo terceiro mês consecutivo, atingindo o maior…