Não foi preciso esperar uma semana para que as promessas eleitorais de Lula começassem a esbarrar na realidade. O governo já admite a necessidade de encontrar espaço no Orçamento de 2027 para financiar os benefícios anunciados durante a campanha. São pelo menos R$ 20 bilhões em despesas que precisam ser acomodadas. A propaganda terminou; a conta chegou.
O exemplo mais evidente é o chamado Pix MEI. Lula prometeu repasses de até R$ 5 mil para que microempreendedores individuais pudessem investir em seus negócios. A proposta prevê R$ 5 bilhões ao longo de quatro anos, mas o próprio Ministério do Empreendedorismo informou nesta semana que o programa ainda está em estruturação, sem inscrições abertas e sem liberação de recursos. A execução está prevista apenas para 2027.
Ou seja, o dinheiro anunciado na campanha não está disponível. O empreendedor que acreditou na promessa terá de esperar, enquanto o governo define as regras e procura espaço no orçamento. E, quando os pagamentos começarem, será preciso verificar quantos trabalhadores serão realmente contemplados e em que condições.
A situação não é diferente quando se fala em ampliar programas sociais. Reajustes do Bolsa Família e expansão de iniciativas educacionais também exigem recursos que não estavam integralmente previstos no orçamento original. Agora, a equipe econômica precisa encontrar dinheiro, rever prioridades e negociar a acomodação dessas despesas.
É justamente esse o problema de uma política que transforma benefícios em argumento eleitoral antes de apresentar, com clareza, como serão financiados. Na campanha, o governo distribui promessas; depois da eleição, distribui explicações.
E há razões para desconfiar. No mandato que se encerra, Lula deixou compromissos importantes pelo caminho. A criação de um Ministério da Segurança Pública separado da Justiça, por exemplo, foi prometida em 2022 e não se concretizou. A regulamentação do trabalho por aplicativos também permaneceu pendente e reapareceu no programa eleitoral de 2026. Promessas antigas voltam a ser apresentadas como novidades, enquanto outras continuam esperando uma solução.
Não é razoável acreditar que, desta vez, bastará anunciar novos benefícios para que todos se materializem. O histórico recente recomenda cautela. E a necessidade de remanejar bilhões de reais poucos dias depois da eleição reforça a impressão de que o governo prometeu mais do que consegue entregar no prazo e na dimensão anunciados.
A experiência brasileira ensina que promessas sem financiamento definido costumam terminar em adiamentos, restrições ou mudanças de formato. É esse o risco concreto que já se apresenta: os anúncios foram feitos para produzir impacto eleitoral, mas sua execução ficou para um futuro que depende de decisões ainda não tomadas.
A previsão, portanto, não é difícil: muitas dessas promessas não serão entregues como foram anunciadas, no tempo esperado e para todos aqueles que imaginaram ter direito a elas. Algumas poderão sair do papel, outras serão reduzidas ou adiadas. O que dificilmente se repetirá na mesma proporção é a generosidade dos discursos de campanha.
Lula venceu a eleição. Agora, precisa demonstrar que consegue transformar promessas em resultados. Mas, diante das pendências do mandato anterior e das dificuldades orçamentárias que já aparecem, o brasileiro tem motivos de sobra para não confundir anúncio com entrega.
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*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.*
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