O agronegócio brasileiro enfrenta um ciclo de margens mais apertadas após os resultados excepcionais registrados entre 2020 e 2022. A combinação de juros elevados, crédito restrito, custos de produção e endividamento mantém a pressão sobre os produtores, embora a recente melhora nos preços da soja e do milho indique uma possível recuperação. Para Anderson Galvão, fundador e CEO da Céleres Consultoria, o pior momento pode ter passado, mas a rentabilidade dependerá de decisões estratégicas nas próximas safras.
A fase de margens elevadas criou expectativas que não correspondem ao comportamento histórico da atividade, segundo o consultor. A partir de 2023, o setor voltou a enfrentar condições mais próximas das habituais, com ganhos menores e necessidade constante de buscar eficiência. “Estamos num fundo de um poço que está longo. Três, quatro anos”, avalia.
Nesse cenário, a variação cambial está entre os principais fatores de atenção. Uma valorização do real pode reduzir as receitas em moeda nacional obtidas com as exportações, enquanto os custos dos insumos nem sempre recuam na mesma proporção. Galvão alerta que fertilizantes, combustíveis e despesas com pessoal têm dinâmicas distintas e que a redução dos custos pode demorar a chegar ao produtor.
“Depois que você aumentou o custo, tirar, voltar para trás é muito difícil”, lembra o consultor em entrevista ao programa Direto ao Ponto, ao citar um ensinamento de seu antigo professor de macroeconomia. Por isso, a recomendação é acompanhar as oportunidades de comercialização e avaliar estratégias para proteger as margens das safras de 2026 e 2027.
A pressão financeira também pode levar produtores a reduzir investimentos em tecnologia, especialmente na compra de fertilizantes e defensivos. Para Galvão, porém, cortar esses recursos sem avaliar os impactos agronômicos pode comprometer o potencial produtivo das lavouras.
“Existe uma tentação muito grande de reduzir gastos cortando tecnologia. Só que isso é um verdadeiro tiro no pé, porque você corta a tecnologia, você corta potencial produtivo”, afirma.
O milho aparece como uma das principais oportunidades para ampliar a rentabilidade, especialmente em regiões que cultivam duas safras por ano. A evolução do manejo, da genética e das tecnologias disponíveis transformou a cultura, que antes tinha papel secundário em muitas propriedades, em uma fonte relevante de receita.
Na avaliação do CEO da Céleres, a diferença entre lavouras de alta e baixa produtividade não está necessariamente na quantidade de insumos utilizados, mas na gestão das operações. “A diferença de 150 para 250 é gestão. É uma equipe bem treinada, é o plantio na data certa, é o plantio na velocidade certa, é o ajuste fino da operação”, explica ao programa do Canal Rural Mato Grosso, ao comparar áreas que produzem 150 e 250 sacas de milho por hectare.
O sorgo também começa a ganhar espaço nesse sistema produtivo, impulsionado pela mudança na dinâmica de mercado e pela adoção de práticas de manejo mais adequadas. De acordo com Galvão, levantamentos preliminares do primeiro ano do projeto Grupo Tático para Aumento da Produtividade (GETAP) da cultura, desenvolvido pela consultoria, já identificaram áreas de sequeiro com potencial de 130 a 150 sacas por hectare.
Além das mudanças nas lavouras, a expansão do etanol de cereais deve abrir novas oportunidades para o agronegócio brasileiro nos próximos anos, pontua o especialista. A produção pode utilizar milho, sorgo e trigo, ampliando a demanda por grãos e gerando coprodutos destinados a outras cadeias, como a pecuária de corte e a leiteira.
Galvão avalia que esse movimento deve continuar nos próximos cinco a dez anos, com possibilidades de aplicação dos biocombustíveis em outros segmentos industriais, incluindo o transporte aéreo e marítimo.
O avanço, porém, ocorre em um ambiente internacional mais incerto. Como o Brasil não consome internamente todo o volume que produz de commodities agrícolas, as exportações são fundamentais para o escoamento da produção. Conflitos, mudanças nas relações políticas e dificuldades no transporte marítimo podem afetar o acesso aos principais mercados compradores, especialmente na Ásia.
Para o consultor, o país precisa considerar a geopolítica nas decisões do setor, desde a importação de insumos até a venda de produtos agrícolas. Nesse contexto, ele vê espaço para o Brasil ampliar sua relevância internacional por meio do abastecimento de alimentos. “Nós não somos uma potência militar. Nós não somos uma potência econômica, mas nós somos uma potência agroalimentar”, conclui.
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