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Custos elevados e crédito restrito desafiam produtores rurais em MT


O aumento dos custos de produção, a queda nos preços dos grãos e as dificuldades de acesso ao crédito têm pressionado a atividade rural em Mato Grosso. Em Gaúcha do Norte, produtores e revendas de insumos enfrentam um cenário de maior risco financeiro, marcado pelo endividamento acumulado e pela necessidade de controlar despesas para preservar a rentabilidade da safra.

O desafio vai além de produzir bem. Mesmo com uma boa colheita, a receita pode não ser suficiente para cobrir os compromissos financeiros assumidos ao longo dos ciclos anteriores. A preocupação envolve também a capacidade de pagamento dos agricultores e os efeitos que uma redução da renda no campo pode provocar sobre a economia dos municípios.

O empresário e produtor rural Dayan Della Justina Vieira, que cultivou 1,5 mil hectares de soja nesta temporada, afirma que os custos estão entre os mais altos dos últimos anos. Ele antecipou o plantio em 15 dias e agora concentra a atenção no estabelecimento da lavoura, etapa em que as condições para o desenvolvimento da cultura são determinantes.

“É mais uma safra desafiadora, com os custos muito altos, os insumos subiram demais”, relata ao Patrulheiro Agro. Segundo ele, o intervalo entre a compra dos insumos e a venda futura dos grãos aumenta a exposição financeira do produtor, que precisa manter os compromissos em dia antes de receber pela produção.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Crédito mais restrito muda as negociações

A dificuldade de financiamento não atinge apenas quem está dentro da porteira. As revendas de insumos também enfrentam maior exposição ao risco, porque parte das operações envolve a concessão de crédito aos agricultores, com pagamento previsto para depois da colheita.

Além de produtor, Dayan é sócio de uma revenda de insumos em Gaúcha do Norte, atividade que exerce há 14 anos. Ele observa que as empresas do setor estão revendo suas estratégias para reduzir a exposição financeira, em um cenário no qual os débitos acumulados pelos clientes dificultam novas negociações.

“Hoje eu vejo que o desafio muito grande é o crédito, o produtor tem um crédito mais restrito”, avalia. Na prática, a revenda pode assumir o compromisso de pagar o fornecedor mesmo quando o agricultor não consegue honrar a dívida no prazo previsto.

A mudança também altera os critérios comerciais. Conforme Dayan, ampliar o faturamento sem avaliar a capacidade de pagamento dos clientes pode aumentar o risco da operação. Por isso, as empresas têm priorizado negociações mais seguras e reduzido a concessão de crédito para evitar que os débitos de safras anteriores comprometam os negócios atuais.

O produtor defende que o controle dos gastos seja acompanhado de uma gestão mais eficiente dos recursos disponíveis. Com o aumento dos investimentos por hectare, a elevação da produtividade não garante, necessariamente, maior lucro, especialmente quando os preços de venda não acompanham a evolução das despesas.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Dívidas acumuladas reduzem a margem para novos investimentos

O presidente do Sindicato Rural de Gaúcha do Norte, Valdomiro Schulz, relaciona o endividamento à perda de receita provocada pela queda nos preços de diferentes culturas. De acordo com ele, produtos como soja, milho, gergelim, sorgo e milheto já tiveram cotações mais elevadas, mas a redução dos valores recebidos pelos agricultores dificultou o pagamento das prestações e de outras obrigações financeiras.

“Esses preços caíram muito e devido esses a preços caírem o endividamento aumentou porque não se teve mais um lucro suficiente para pagar essas prestações, essas dívidas”, afirma à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.

Para manter a produção, parte dos agricultores recorre a negociações com empresas fornecedoras, incluindo operações de troca por grãos. Nesse modelo, o produtor recebe insumos, como fertilizantes, defensivos e sementes, e se compromete a pagar com a produção colhida posteriormente.

A alternativa permite viabilizar o plantio, mas mantém o compromisso financeiro vinculado à colheita futura. Quando os preços caem ou a receita fica abaixo do esperado, a capacidade de quitar as dívidas diminui, dificultando o planejamento das safras seguintes.

O produtor rural Adalberto Grando também percebe mudanças na relação entre agricultores e revendas. Ele compara o cenário atual com o de dez anos atrás, quando, segundo ele, as empresas tinham maior disponibilidade de recursos para oferecer pacotes de insumos aos clientes.

“Há dez anos atrás uma revenda fazia questão de fazer um pacote, atender seu cliente através do pacote porque ela tinha recurso, ela tinha apoio, e nós estávamos falando de um custo de R$ 2 mil por hectare”, recorda.

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Na avaliação de Grando, o aumento das despesas comprometeu a capacidade de atendimento das empresas. Ele relata que grandes grupos do setor encerraram atividades e cita casos de recuperação judicial entre revendas, indicando que as dificuldades financeiras não se limitam aos produtores rurais.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Custo da soja supera R$ 8,2 mil por hectare

Os números do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) dimensionam a pressão sobre o orçamento agrícola. O custo total da soja para a safra 2026/27 supera R$ 8,2 mil por hectare, alta de quase 7% em relação ao ciclo anterior.

Entre os componentes que mais avançaram estão as operações mecanizadas, com aumento de 23,85%, e os defensivos agrícolas, que ficaram 10,10% mais caros. Na direção contrária, o custo das sementes recuou 21,96%.

A elevação das despesas amplia a necessidade de planejamento, sobretudo para agricultores que já carregam dívidas de temporadas anteriores. O controle dos investimentos por hectare e a escolha das condições de compra dos insumos passam a ter peso maior na busca por rentabilidade.

Para Dayan, a gestão precisa considerar não apenas o volume de recursos aplicado na lavoura, mas também o retorno financeiro esperado. A estratégia envolve buscar eficiência no uso dos insumos e evitar gastos que não se convertam em ganhos econômicos.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Menor renda no campo pode afetar as cidades

A pressão financeira sobre o agronegócio também preocupa gestores municipais. Em cidades onde a atividade rural tem participação importante na economia, uma redução da renda dos produtores pode diminuir a circulação de dinheiro no comércio e nos serviços, além de afetar a arrecadação pública.

O prefeito de Gaúcha do Norte, Ari do Prado, relata ao Canal Rural Mato Grosso que acompanha o cenário tanto como gestor quanto como produtor rural. Ele afirma que uma colheita satisfatória não significa, necessariamente, que o agricultor conseguirá quitar todas as despesas assumidas durante o ciclo.

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“Hoje você faz uma colheita, colhe bem, mas você não consegue cumprir os seus compromissos, você pagou o custo da lavoura, acabou o dinheiro do produtor”, pontua.

Na avaliação do prefeito, a situação pode se refletir nas contas do município. Embora a arrecadação ainda se mantenha, ele teme uma redução das receitas no próximo ano, diante das dificuldades enfrentadas pelo setor e da alta dos custos de bens e serviços utilizados pela própria administração pública.

A preocupação envolve o peso que o agronegócio exerce sobre a atividade econômica local. Quando os produtores têm menos recursos disponíveis depois de pagar os custos da safra, o efeito pode alcançar outros segmentos que dependem do consumo e dos investimentos gerados no campo.

Grando defende que medidas voltadas ao setor considerem essa relação entre a produção rural e o desenvolvimento das cidades. Para ele, o fortalecimento da atividade pode ampliar a geração de empregos e a circulação de riqueza, com reflexos sobre a economia como um todo. “O governo precisa levar o agro a sério, investir em tudo que vai beneficiar a própria sociedade. A gente vai gerar mais emprego, vai gerar mais riqueza, vai gerar mais condições da cidade se desenvolver”.

+Confira todos os episódios da série Patrulheiro Agro

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