Na minha avaliação, o debate de domingo (18) na Band foi lamentável. Lula e Flávio Bolsonaro trocaram acusações e provocações, enquanto a discussão sobre o futuro do país perdeu espaço.
Não vejo vencedor numa noite como essa. Cada campanha encontrará uma resposta para comemorar e um vídeo para espalhar. O brasileiro, porém, precisava sair dali com mais condições de escolher seu presidente.
Há quem diga que discutir propostas ficou ultrapassado. Que, na era da internet, vence quem agride melhor e produz o ataque mais compartilhado. Considero essa uma leitura incompleta do eleitor.
A agressão e a traição despertam curiosidade. Mas quem quer um agressor ou um traidor ao seu lado? Aquilo que prende nossa atenção nem sempre conquista nossa confiança.
Existe um limite humano nessa relação. A dignidade, o respeito e a reação diante da humilhação fazem parte da nossa convivência muito antes das redes sociais.
O eleitor percebe o tom de voz, a impaciência e a maneira como alguém reage ao ser contrariado. Essa sensibilidade independe de renda ou escolaridade.
Quando uma discussão ultrapassa esse limite, quem assiste pode deixar de comparar propostas e passar a julgar comportamentos. Quem está humilhando? Quem parece acuado? Quem está abusando da força?
Nesse momento, o ataque pode produzir um efeito contrário ao pretendido: despertar solidariedade por quem parece agredido ou mais fraco. Uma resposta celebrada pela militância pode causar rejeição em quem ainda não decidiu seu voto.
É nesse momento que penso. Ele pode terminar o debate disposto a defender alguém que considerou injustiçado, mesmo sem estar convencido de suas propostas. Ou pode sair ainda mais desapontado e continuar sem vontade de votar.
Vejo aí uma questão de comportamento social: a escolha também passa pelo sentimento de justiça e pela identificação com o outro. Isso não permite prever uma reação igual de todos, mas impede tratar o eleitor como alguém movido apenas pelo prazer da briga.
No primeiro turno, cerca de 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas. Essa ausência tem diferentes causas; não pode ser atribuída toda à decepção política. Ainda assim, deveria levar os candidatos a refletir sobre como aproximar essas pessoas da eleição.
Cobrar explicações, confrontar contradições e exigir responsabilidade faz parte de um debate. A provocação pessoal acaba consumindo o tempo que deveria servir também para esclarecer como cada um pretende governar.
Quem enfrenta dívidas, supermercado caro e espera por atendimento médico precisa entender o que será feito e como a promessa será paga.
Minha cobrança vale para os dois. Quem pede a confiança do país precisa mostrar equilíbrio diante de uma pergunta incômoda.
O debate de domingo deixou o brasileiro com mais motivos para lamentar do que elementos para decidir. É por isso que, na minha avaliação, o Brasil perdeu.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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