O algodão brasileiro mudou de posição no mercado internacional nas últimas décadas. De uma fibra que enfrentava desconfiança por sua qualidade, o país passou a disputar espaço entre os grandes fornecedores mundiais. Agora, o desafio é sustentar essa presença diante de compradores cada vez mais atentos à qualidade, à sustentabilidade e à origem do produto.
A pressão não recai sobre um único segmento. Sementeiras, empresas de tecnologia, pesquisadores, produtores e entidades representativas precisam trabalhar de forma coordenada para antecipar critérios que podem se transformar em novas exigências comerciais.
A certificação já é uma das principais respostas da cadeia. Cerca de 97% do algodão brasileiro possui algum tipo de certificação, como o Algodão Brasileiro Responsável (ABR) e o Better Cotton. Quando considerado apenas o produto destinado à exportação, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) informa que a totalidade da fibra é certificada.
Mais do que atender a uma exigência já existente, o setor tenta se preparar para o que poderá ser cobrado nos próximos anos. A indústria investe em tecnologias que buscam aumentar a eficiência e reduzir o uso de produtos, enquanto a pesquisa trabalha com soluções que podem levar quase uma década para chegar ao campo.
“O nosso desafio é comunicar e mostrar que a agricultura brasileira é a agricultura mais sustentável do mundo hoje em dia”, afirma Fernando Prudente, diretor de Negócios do Algodão da Bayer.
A preocupação também envolve o risco de critérios ambientais serem utilizados como barreiras comerciais. Nesse cenário, demonstrar com dados e certificações como a produção é realizada passa a ter peso semelhante ao desenvolvimento da própria fibra.
A evolução que levou o algodão brasileiro a essa posição começou antes da discussão atual sobre certificação. A melhoria da fibra foi acompanhada por investimentos em genética, tecnologia e processos produtivos, em um movimento que modificou a percepção dos compradores internacionais.
O avanço pode ser percebido no próprio material genético utilizado nas lavouras. O desenvolvimento de novas variedades passou a combinar qualidade de fibra com características agronômicas, como produtividade e adaptação às necessidades do produtor.
“Tudo nasce aqui na genética, na semente como fonte dessas características de pluma que o mercado tanto exige”, observa Jeferson Andrade, diretor comercial da Polato Sementes.
O que há alguns anos era considerado um produto diferenciado passou a fazer parte do padrão de qualidade disponível ao produtor. A evolução, portanto, não ocorre apenas para acompanhar o mercado atual, mas para elevar continuamente o nível da fibra brasileira.
Essa trajetória também ajuda a explicar a mudança na relação do país com os compradores externos. Paulo Sérgio Aguiar, vice-presidente da Abrapa, lembra que Mato Grosso chegou a enviar as primeiras cargas ao exterior mesmo com prejuízo, como forma de apresentar o produto e conquistar confiança.
“Quando nós começamos lá no passado, a gente teve que ter um pouquinho de coragem”, relata ao Canal Rural Mato Grosso. A estratégia foi parte de um processo mais amplo para romper com a imagem que o algodão brasileiro carregava no exterior.
Na década de 1980, a percepção internacional era de uma fibra de baixa qualidade. A partir dos anos 1990, a produção começou a avançar e o setor passou a buscar novos mercados, incorporando posteriormente critérios relacionados às práticas sociais e ambientais.
A próxima etapa dessa evolução depende de uma corrida que acontece antes de a tecnologia chegar efetivamente às lavouras. O desenvolvimento de uma nova solução pode levar de oito a dez anos, o que obriga as empresas a projetar hoje quais serão os problemas enfrentados pelo produtor e quais critérios serão exigidos pelos compradores no futuro.
“Essa perspectiva é muito importante. As tecnologias que a gente começa a desenvolver agora, elas de fato vão chegar no mercado depois de oito, dez anos”, explica Leandro Bessa, diretor de portfólio de proteção de cultivos da Syngenta.
No algodão, entre os obstáculos estão a pressão de pragas, o surgimento de resistências e a necessidade de manter a produtividade. Uma tecnologia eficiente no campo, porém, também precisa se enquadrar nos padrões regulatórios e de sustentabilidade dos mercados atendidos pelo Brasil.
É nesse ponto que a busca por produtividade deixa de ser uma questão isolada da propriedade rural. A solução desenvolvida para o produtor precisa também contribuir para que toda a cadeia consiga cumprir critérios exigidos por compradores e programas de certificação.
A indústria, por sua vez, procura reduzir a quantidade de produto necessária para determinadas aplicações e desenvolver soluções mais eficientes. A contribuição passa pelo aumento da eficiência dos insumos, mas também pela capacidade de atender a uma produção que precisa ser cada vez mais competitiva e sustentável.
Bessa ressalta que o desenvolvimento precisa considerar simultaneamente os desafios do campo e as exigências dos mercados. Encontrar tecnologias que reúnam eficiência, resultado agronômico e adequação aos padrões regulatórios tornou-se uma tarefa cada vez mais complexa.
A certificação ganhou importância justamente nesse processo de abertura e manutenção de mercados. No caso do algodão brasileiro exportado, o produto passa por programas que verificam práticas adotadas no campo antes de chegar aos compradores internacionais.
O ABR, iniciativa coordenada pela Abrapa, reúne critérios relacionados a aspectos socioambientais. O programa possui mais de 150 itens de verificação, conforme Fernando Prudente, diretor de Negócios do Algodão da Bayer, abrangendo desde questões ambientais até trabalhistas.
A entidade, pontua o vice-presidente Paulo Sérgio Aguiar, também pretende ampliar a participação de outros setores na administração do programa. A proposta é reunir representantes de tradings, indústria, órgãos governamentais e organizações não governamentais em um comitê de gestão.
A ideia é acompanhar de forma mais ampla as normas existentes e as mudanças que possam surgir, evitando que a cadeia seja surpreendida por novos critérios de acesso aos mercados.
Para Aguiar, esse movimento é uma continuidade do processo iniciado quando o setor precisou provar que a fibra brasileira poderia competir internacionalmente. Depois de conquistar compradores, a sustentabilidade passou a integrar essa estratégia de competitividade.
O desafio agora é preservar essa posição. Novas exigências devem continuar surgindo, e nem todas necessariamente estarão relacionadas apenas à qualidade do produto. “Algumas disfarçadas de sustentabilidade, mas a gente sabe que são questões comerciais”, pondera Fernando Prudente.
Por isso, a estratégia do setor combina diferentes frentes: melhorar a genética, desenvolver tecnologias, manter a certificação e comunicar ao mercado os avanços já alcançados. A preocupação deixou de ser apenas vender a fibra brasileira e passou a envolver a capacidade de demonstrar, continuamente, como ela é produzida e quais padrões consegue atender.
A experiência das últimas décadas mostra que conquistar um mercado pode exigir tempo e investimento. Manter esse espaço, diante de exigências que continuam mudando, exige que a cadeia esteja preparada antes que elas se tornem uma barreira efetiva ao produto brasileiro.
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