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Safra americana mostra contrastes entre falta de chuva e alto potencial produtivo


A safra de soja e milho nos Estados Unidos apresenta cenários distintos entre as principais regiões produtoras. Enquanto áreas do Sul enfrentam falta de chuva e redução no potencial das lavouras, outras localidades apresentam boas condições e perspectivas de produtividade elevada.

A constatação ocorreu durante a 5ª temporada do projeto América Clima e Mercado, realizada pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), que percorreu 13 estados americanos para acompanhar as condições das lavouras e os fatores que podem influenciar a produção.

No Texas, Oklahoma e Kansas, a restrição hídrica chama atenção. Segundo o agrônomo Paulo Zorzanello, que trabalha em uma fazenda na região, a última chuva significativa ocorreu em 4 de julho. Desde então, foram registrados apenas volumes pontuais, de 16 a 20 milímetros, com até 8 milímetros na semana anterior à visita.

O impacto aparece no desenvolvimento da soja. Apesar de visualmente a lavoura apresentar bom aspecto à distância, o porte das plantas está reduzido e os grãos em formação são pequenos. “O porte está reduzido e se você olhar a soja, a granação é muito pequenininha, os grãos de soja”, observa Zorzanello.

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A diferença também aparece dentro das vagens. Há estruturas com grãos menores e casos de aborto de grãos, reduzindo o potencial produtivo. Na propriedade, a média da soja, que chegou a 55 sacas por hectare no ano anterior, tem expectativa de ficar entre 30 e 35 sacas nesta temporada. No milho, conforme o agrônomo, a produtividade esperada é de aproximadamente 150 sacas por hectare, diante das 210 sacas registradas anteriormente.

Foto: Aprosoja Mato Grosso/Reprodução

Falta de chuva reduz potencial das lavouras

O cenário encontrado no Sul dos Estados Unidos também foi acompanhado de perto pelos produtores brasileiros. Ao longo do trajeto, a percepção é de que diversas áreas apresentam algum nível de perda de potencial, ainda que muitas lavouras não aparentem visualmente uma condição tão severa.

Além da água, os custos pesam sobre o produtor americano. O diesel aparece entre os principais gastos, especialmente diante do número de operações realizadas nas propriedades. Fertilizantes e combustível também são apontados entre os itens que pressionam o custo de produção.

“Um dos maiores custos dele aqui é o óleo diesel por conta dos vários cultivos, várias operações que precisam ser feitas na lavoura”, afirmam Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja Mato Grosso e Aprosoja Brasil. Ele também cita as reclamações relacionadas aos custos de fertilizantes e combustível.

A avaliação feita durante a viagem indica ainda diferenças importantes entre as regiões. Em Nebraska, cerca de 40 mil hectares de milho e soja foram afetados por ventos, com pivôs derrubados e lavouras acamadas. Em Iowa, especialmente na parte oeste, foram observados problemas que reduziram o potencial produtivo de soja e milho.

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Já no leste de Iowa, as condições melhoram, enquanto no Centro-Sul de Illinois foram encontradas lavouras de soja em boas condições, principalmente em estágio vegetativo. A variação reforça o contraste entre as áreas produtoras e dificulta uma leitura única sobre o desempenho da safra.

Condições melhores também aparecem no campo

Em Carrol, de acordo com a missão realizada pela Aprosoja Mato Grosso, uma das áreas visitadas apresentou uma das melhores lavouras de soja encontradas durante o percurso. A região recebeu mais chuva e, ao lado da soja, uma lavoura de milho também chamou atenção pelas condições apresentadas.

Mesmo assim, o agrônomo Ivam Franceschet identificou sinais de estresse hídrico na área, como falhas na população de plantas, formação de “chupeta” e rachaduras no solo, indicativos de um período anterior de baixa disponibilidade de água.

A área, por outro lado, apresenta solo com alto teor de matéria orgânica e boa fertilidade. A população observada ficou em torno de 88 mil plantas viáveis, enquanto a sanidade foliar do milho foi considerada muito boa. Para Franceschet, apesar de algumas espigas apresentarem redução, a lavoura mantém bom potencial produtivo.

Em Indiana, o cenário encontrado foi ainda diferente, pontua a entidade. Uma lavoura de soja já estava em plena colheita, com o monitor indicando produtividade de 80 bushels por acre, equivalente a aproximadamente 89 sacas por hectare. A área apresentava boa limpeza e poucas plantas daninhas.

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Foto: Aprosoja Mato Grosso/Reprodução

Produção americana entra no radar do mercado

As condições observadas nas diferentes regiões também alimentam o debate sobre as estimativas para a produção dos Estados Unidos. Parte dos produtores visitados pela missão da Aprosoja Mato Grosso aponta perdas em relação ao ciclo anterior, enquanto áreas com maior disponibilidade de água apresentam potencial produtivo elevado.

Outro contraste aparece nas regiões irrigadas do oeste de Nebraska e em estados com maior potencial produtivo. Em áreas que receberam mais umidade, houve também relatos de excesso de chuva durante o plantio, situação que afetou a qualidade de algumas lavouras.

Para Lucas Costa Beber, a percepção encontrada no campo é de uma redução de produtividade em diferentes regiões. “Desde o Texas, subindo todo lugar que a gente para o produtor fala de pelo menos de 10% menos que o ano passado, e não parecem estar tão feias as lavouras”, relata.

O presidente da entidade também chama atenção para a influência dos números oficiais sobre as expectativas do mercado. Segundo ele, produtores americanos questionam algumas estimativas de produção e estoques divulgadas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Safras americana e brasileira influenciam oferta global

Enquanto as condições americanas são acompanhadas pelos produtores brasileiros, as expectativas para a próxima safra no Brasil também entram nas projeções para o mercado. A possibilidade de influência do El Niño sobre a produção brasileira é apontada como um dos fatores considerados pelos produtores dos Estados Unidos.

A leitura feita durante a viagem é de que uma eventual redução da produção americana pode alterar as perspectivas de oferta. O desempenho efetivo das lavouras, portanto, passa a ser observado além das estimativas divulgadas ao longo da temporada.

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“Eu não vejo possibilidade de pioras nesse cenário, já que os números ainda estão inflados da produção brasileira”, afirma Beber em entrevista ao Patrulheiro Agro. Na avaliação apresentada durante a visita, também é preciso considerar não apenas a quantidade de grãos, mas o peso que será obtido na colheita americana.

O acompanhamento das condições nos Estados Unidos ocorre em um momento em que produtores brasileiros também monitoram os efeitos do clima sobre a próxima safra. A combinação entre produção americana, desempenho brasileiro e estoques disponíveis será determinante para o equilíbrio da oferta e para a formação dos preços no mercado internacional.

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