Inovação permite produzir blastosporos de fungos entomopatogênicos em fermentação líquida, com maior tolerância à dessecação e estabilidade para armazenamento
A Embrapa obteve, em agosto de 2026, a concessão de uma patente de invenção pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) para uma tecnologia voltada à produção, estabilização e uso de blastosporos fúngicos no controle biológico de insetos-praga. A patente BR 112016006613-8, intitulada “Métodos para produção, estabilização e uso de blastosporos fúngicos”, tem como titulares a Embrapa e o Agricultural Research Service, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA/ARS). Entre os inventores está o pesquisador Gabriel Mascarin, da Embrapa. A patente foi expedida em 25 de agosto de 2026 e tem prazo de validade de 20 anos, contado a partir de 11 de setembro de 2015.
De acordo com o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Gabriel Mascarin, a tecnologia trata de um dos desafios para transformar fungos entomopatogênicos em produtos de controle biológico: produzir grandes quantidades de células fúngicas, mantê-las viáveis depois da secagem e garantir estabilidade durante o armazenamento. O método desenvolvido utiliza fermentação líquida para produzir blastosporos de Beauveria bassiana e Cordyceps javanica, fungos capazes de infectar e matar diferentes espécies de insetos-praga.
Os blastosporos são células vegetativas semelhantes a leveduras produzidas pelos fungos em determinadas condições de cultivo líquido. Diferentemente dos conídios, tradicionalmente empregados em muitos bioinseticidas fúngicos, essas estruturas apresentam dificuldades de tolerância à dessecação. A invenção busca justamente superar essa limitação, criando condições de cultivo capazes de gerar blastosporos mais resistentes à secagem e com maior estabilidade durante o armazenamento.
Segundo Mascarin, a produção convencional de conídios de fungos entomopatogênicos em substrato sólido pode exigir semanas de cultivo, além de envolver maior demanda de mão de obra e risco de contaminação. A fermentação líquida, por sua vez, permite reduzir o tempo de produção, facilitar a recuperação do produto e possibilitar maior controle das condições nutricionais e ambientais durante o processo.
A tecnologia patenteada combina condições específicas de cultivo, entre elas elevada aeração, pressão osmótica superior a 0,5 MPa – unidade de medida de pressão osmótica e concentrações adequadas de fontes de carbono e nitrogênio. Em uma das formas de realização descritas, o meio contém pelo menos 6% de uma fonte de carbono, como glicose, e pelo menos 1,5% de uma fonte de nitrogênio, que pode ser farelo de semente de algodão ou caseína hidrolisada.
“Os resultados apresentados na patente indicam que a combinação desses fatores permite obter rapidamente altas concentrações de blastosporos. Em culturas de B. bassiana, por exemplo, condições de elevada aeração, concentração de nitrogênio superior a 15 gramas por litro, carbono igual ou superior a 60 gramas por litro e pressão osmótica acima de 0,5 MPa proporcionaram produção elevada em períodos mais curtos que os observados em processos anteriores”, destaca o pesquisador. “E além disso, com a patente de blastosporos, se torna mais fácil de ser licenciada em território nacional pelas empresas interessadas”.
Um dos principais avanços da tecnologia está na capacidade de produzir blastosporos que sobrevivem ao processo de desidratação. Nos experimentos, a secagem dos blastosporos até umidade inferior a 4% permitiu avaliar sua capacidade de germinação após a reidratação. Alguns isolados de B. bassiana, como ESALQ1432 e ESALQ447, apresentaram viabilidade, após secagem e reidratação, de 71% a 79% quando produzidos utilizando farelo de algodão como fonte de nitrogênio.
A patente também descreve diferentes estratégias de secagem, incluindo secagem em corrente de ar, secagem a vácuo, leito fluidizado e secagem por atomização, esta última conhecida como spray-drying. O processo pode utilizar carreadores ou estabilizantes destinados a melhorar a fluidez, a ressuspensão, a tolerância à dessecação e a estabilidade durante o armazenamento.
A formulação pode ainda ser acondicionada em embalagens herméticas, com absorvedores de umidade e oxigênio. Em determinadas condições, mais de 60% dos blastosporos permaneceram viáveis após reidratação depois de períodos superiores a seis meses de armazenamento à temperatura ambiente de 28 °C.
Outro resultado importante está relacionado à pressão osmótica do meio de cultivo. Os experimentos mostraram que o aumento dessa pressão promoveu maior produção de blastosporos. Além disso, as células produzidas sob pressão osmótica elevada apresentaram morfologia diferente: são menores, esféricas e distintas dos blastosporos alongados obtidos em condições convencionais. Segundo a patente, essa forma esteve associada a maior virulência contra as pragas-alvo.
A combinação das condições de cultivo, portanto, não está relacionada apenas ao aumento da quantidade de células produzidas. A estratégia também busca obter estruturas com características que favoreçam sua sobrevivência durante a formulação e sua capacidade de infectar os insetos.
A eficácia biológica da tecnologia foi avaliada contra a mosca-branca. Em bioensaios realizados com ninfas de segundo estádio do inseto, os blastosporos de B. bassiana apresentaram maior virulência que os conídios aéreos. De acordo com os resultados descritos na patente, foi necessária uma concentração de blastosporos quatro vezes menor para provocar a morte de 50% das ninfas em comparação com os conídios aéreos.
A tecnologia pode ser empregada para o controle de uma ampla variedade de artrópodes de importância agrícola, incluindo moscas-brancas, pulgões, tripes, lagartas, besouros, cigarrinhas, cupins, ácaros e outras pragas. A patente descreve aplicações tanto na parte aérea das plantas quanto no solo e em substratos de cultivo.
A obtenção de formulações fúngicas com maior estabilidade é considerada uma etapa importante para viabilizar a produção e o uso de agentes de controle biológico em escala comercial. A patente descreve formulações que podem manter a viabilidade ou a eficácia inseticida por períodos que variam de semanas a até dois anos, dependendo das condições de armazenamento e da composição utilizada.
O desenvolvimento também abre possibilidades para o aproveitamento de fontes de nutrientes de menor custo. O documento destaca o uso de subprodutos agrícolas e alimentares, como farelos de algodão e soja, como fontes de nitrogênio para a fermentação, em substituição a componentes mais refinados e de maior custo.
A patente representa, assim, um avanço na transformação de fungos entomopatogênicos em insumos biológicos com características mais adequadas à produção, formulação, armazenamento e aplicação. A tecnologia combina conhecimentos de microbiologia, fermentação e formulação para superar limitações que historicamente dificultaram o aproveitamento comercial de blastosporos de Beauveria e Cordyceps.
Com a concessão pelo INPI, a invenção passa a ter proteção formal no território nacional, consolidando uma tecnologia desenvolvida em parceria entre a Embrapa e o USDA/ARS e que tem como um de seus inventores, o pesquisador Gabriel Mascarin.
Fonte: Embrapa
Autor:Cristina Tordin (MTb 28499/SP) Embrapa Meio Ambiente
Site: Embrapa
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