Os biocombustíveis podem ganhar espaço como uma das principais ferramentas para agregar valor à produção agropecuária brasileira diante do avanço da transição energética mundial. A avaliação é de André Lavor, CEO da Binatural, produtora brasileira de biodiesel, durante participação na Semana do Clima de Nova York.
Em entrevista ao Canal Rural, Lavor afirmou que as discussões internacionais mostram uma mudança na forma como a transição energética é encarada. Segundo ele, o debate deixou de estar concentrado exclusivamente na redução das emissões e passou a envolver também competitividade, desenvolvimento econômico, inclusão social e segurança energética.
“A transição energética não é só uma pauta ambiental. Logicamente, a pauta ambiental é extremamente relevante, mas, para que ela aconteça, precisa ser competitiva, gerar desenvolvimento econômico, trazer inclusão social, ser justa e, agora mais do que nunca, trazer segurança energética para o país”, afirmou.
O executivo participou de diferentes agendas durante a Semana do Clima, incluindo encontros relacionados às Nações Unidas. Segundo Lavor, as discussões reforçaram o potencial brasileiro para ocupar espaço de destaque na transição energética por meio dos biocombustíveis.
Para o CEO da Binatural, o Brasil parte de uma posição diferente de muitos países por já utilizar etanol e biodiesel em larga escala.
“Não se fala mais em biocombustíveis apenas como pauta ambiental. É uma pauta energética. E a gente tem no Brasil uma grande oportunidade, porque já entrega isso em escala há muitos anos através dos biocombustíveis, seja pelo etanol, seja pelo biodiesel”, destacou.
Na avaliação de Lavor, além da descarbonização, a cadeia do biodiesel contribui para movimentar a economia e agregar valor às matérias-primas produzidas pelo agronegócio, como a soja, além do aproveitamento de resíduos e gorduras.
Durante a passagem por Nova York, o executivo também participou de discussões internacionais sobre a expansão dos combustíveis sustentáveis. Segundo ele, um dos pontos abordados foi o compromisso de ampliar o uso dessas fontes energéticas até 2035.
Entre as oportunidades apontadas pelo executivo está a possibilidade de ampliar o processamento da soja dentro do Brasil, em vez de comercializar uma parcela significativa da produção na forma de grão.
Lavor avalia que o aumento da demanda por biodiesel pode estimular a industrialização da oleaginosa e gerar outros produtos importantes para diferentes cadeias do agronegócio.
“A agenda dos biocombustíveis é uma agenda de agregação de valor para o agronegócio. Na soja, por exemplo, ainda exportamos cerca de dois terços do que colhemos in natura e temos uma grande oportunidade de continuar incentivando maiores percentuais de biodiesel”, afirmou.
Segundo ele, o processamento de uma quantidade maior de soja permitiria ampliar simultaneamente a produção de óleo, utilizado na fabricação do biodiesel, e de farelo, matéria-prima fundamental para a alimentação animal.
“Podemos fazer mais extração da soja, tendo maior oferta de farelo, que é base da proteína animal, e maior oferta de óleo para produzir biodiesel, gerando energia”, acrescentou.
Para Lavor, essa integração coloca o Brasil diante de uma oportunidade de associar duas cadeias nas quais o país já possui forte presença: produção agropecuária e energia renovável.
“É uma agenda de energia, uma agenda de agroenergia, especialmente para o Brasil, porque conseguimos complementar a agenda do agronegócio com uma agenda de energia”, disse.
Na avaliação do executivo, o avanço dos biocombustíveis pode, portanto, ampliar a demanda por matérias-primas agrícolas, estimular a industrialização doméstica e criar novas fontes de receita ao longo da cadeia produtiva, ao mesmo tempo em que contribui para os compromissos de redução das emissões.
*Filipe Alvarez é professor e executivo de sustentabilidade, governança e gestão de riscos, e está acompanhando a Semana do Clima de Nova York 2026 para o Canal Rural
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