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‘O agro, de tão grande, se torna invisível’, diz presidente da ABMRA


Ricardo Nicodemos, presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro, durante o Radar Rural

O agronegócio brasileiro passou as últimas décadas investindo em tecnologia, ciência, produtividade e sustentabilidade. Mas, na avaliação de Ricardo Nicodemos, presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), deixou de lado uma frente que hoje se tornou estratégica: a comunicação.

“O agro nunca se comunicou, ele nunca construiu um projeto de comunicação”, afirmou durante o novo episódio do Radar Rural, videocast do Canal Rural. O programa foi ao ar na última sexta-feira (11), primeiro no Youtube. Assista:

Para o especialista, isso criou uma situação curiosa. O setor fala bastante, mas, em grande parte, conversa com ele mesmo. “O agro se comunica muito bem, mas para ele mesmo”, resumiu.

A consequência é uma distância entre o que acontece no campo e o que chega à população urbana. E, nesse espaço, segundo Nicodemos, surgem mitos, estereótipos e informações distorcidas.

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O problema de viver em uma bolha

Nicodemos avalia que parte do setor ainda enxerga sua relação com a sociedade a partir de uma lógica de confronto. Quando surge uma crítica, uma informação considerada falsa ou uma declaração contra o agro, a reação costuma aparecer em forma de resposta ou carta de repúdio.

O problema, segundo ele, é que reputação não se constrói apenas quando existe uma crise.

“O agro tem que sair da posição reativa para efetivamente uma comunicação efetiva”, disse.

A estratégia deveria ser permanente: mostrar o que o setor faz, como produz, quais tecnologias utiliza e também quais são as histórias de quem está no campo.

“Quando eu crio essa conexão, quando eu tenho a opinião pública ao meu lado, fica muito mais difícil de um mito, de uma informação irreal pegar”, afirmou.

Para ele, a lógica é simples: quanto mais a sociedade conhecer o setor, menor será o espaço para que outras pessoas contem essa história por ele.

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O agro pode ser invisível justamente por estar em todo lugar

Um dos principais insights apresentados no programa foi justamente o paradoxo da presença do agro no cotidiano.

“O agro, de tão grande, ele se torna invisível”, afirmou Nicodemos.

O setor está presente na alimentação, na economia, na cultura e em diferentes hábitos da população, mas essa relação nem sempre é percebida. O especialista citou, por exemplo, a força da música sertaneja no país como uma manifestação cultural ligada às origens do campo que hoje faz parte da vida urbana.

O mesmo ocorre com os alimentos. Durante a pesquisa sobre a percepção do agro, entrevistados foram questionados sobre produtos consumidos diariamente e sobre a forma como são produzidos. Segundo Nicodemos, houve casos de pessoas que não sabiam sequer como o tomate é cultivado.

Para ele, esse desconhecimento é um problema de comunicação.

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“Se você não conta, não mostra para o brasileiro, alguém vai contar da forma que ele acha mais conveniente.”

As histórias do campo ainda são pouco contadas

Outro ponto destacado no Radar Rural foi a dificuldade do próprio produtor em falar sobre suas conquistas.

Nicodemos considera que o agro acumulou histórias de superação nas últimas décadas, mas muitas delas permanecem restritas ao ambiente rural. O setor avançou em produtividade e tecnologia, mas não transformou esses resultados em histórias capazes de aproximar quem está fora da porteira.

“Nos últimos 50 anos, o agro coleciona diariamente histórias de superação, de conquistas”, afirmou.

Ele lembrou que o Brasil passou de um país que precisava importar alimentos para uma das principais potências agropecuárias do mundo. Essa transformação, porém, não é necessariamente conhecida pela população.

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O desafio, portanto, não seria criar uma narrativa artificial para defender o setor, mas mostrar a realidade de quem produz.

“Eu não posso me comunicar só quando alguém faz algum tipo de declaração irreal, cria-se mitos e outras coisas mais.”

Do Jeca Tatu ao produtor conectado

A imagem do produtor rural também foi discutida no programa. Para Nicodemos, personagens históricos ajudaram a consolidar uma representação do homem do campo associada ao atraso e à falta de conhecimento.

Esse estereótipo, segundo ele, ainda aparece em situações cotidianas e não corresponde ao perfil do produtor atual.

O campo exige cada vez mais conhecimento, gestão, tecnologia e capacidade de tomar decisões diante de riscos climáticos e de mercado. Ainda assim, essa realidade nem sempre chega à população urbana.

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Na visão do especialista, mudar essa percepção depende de uma comunicação que mostre o produtor como ele realmente é, e não apenas como uma figura associada às dificuldades do campo.

“O produtor é um herói”, afirmou.

Jovens são o principal desafio

Se o agro precisa construir uma relação mais próxima com a sociedade, a atenção aos jovens é estratégica. Nicodemos destacou que parte do público mais resistente ao setor está concentrada nessa faixa etária e que esse grupo tem forte presença nas redes sociais.

Isso cria um desafio adicional: opiniões e informações podem ganhar escala rapidamente no ambiente digital.

Para o especialista, o caminho não é tentar impedir a circulação de críticas, mas construir uma relação suficientemente forte com a sociedade para que informações falsas ou distorcidas tenham menos espaço.

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Nesse processo, ele defende que o setor não abandone os meios tradicionais em favor exclusivamente das redes sociais.

O papel da mídia especializada

Nicodemos também destacou a importância de combinar diferentes canais de comunicação. Segundo ele, veículos especializados continuam tendo papel relevante na construção de marcas e, principalmente, na tarefa de mostrar para o público como funciona a produção rural.

A comunicação, na avaliação dele, precisa reunir televisão, rádio, revistas, mídia especializada e plataformas digitais.

“O digital, na verdade, é terra de ninguém. Você posta o que você quiser, dá a opinião que você quiser, fala o que você acha que é e não o que é de verdade”, afirmou.

Para o especialista, os veículos tradicionais ajudam a dar contexto e credibilidade às histórias que precisam chegar à população.

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Mais do que responder às críticas, portanto, a tarefa do agro seria ocupar o espaço da comunicação antes que ele seja preenchido por outros.

“Precisamos trabalhar em conjunto”, disse Nicodemos. “Se nós unirmos todos esses tijolinhos, conseguiremos construir uma grande ponte” entre o campo e a cidade.

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agro.mt

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