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Entre chuva e custos, produtor de MT define ritmo do plantio da soja


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

O plantio da soja 2026/27 começou em Mato Grosso, mas o avanço das máquinas ainda é pontual. Mais do que a abertura da janela de semeadura, o produtor está atento às condições necessárias para garantir o estabelecimento da lavoura, em um cenário de custos elevados, margens apertadas e preocupação com a evolução do clima nos próximos meses.

A possibilidade de um El Niño de alta intensidade coloca a distribuição das chuvas no centro das decisões. A preocupação não se limita ao início da safra de soja. A regularidade das precipitações ao longo do ciclo e os reflexos sobre a janela de plantio do milho segunda safra também entram no planejamento.

Em diferentes regiões do estado, as plantadeiras começam a trabalhar principalmente em áreas irrigadas ou em propriedades que receberam volumes de chuva suficientes para assegurar a umidade do solo. Nas demais áreas, a decisão tem sido esperar novas precipitações antes de colocar a semente no chão.

O cenário de custos elevados reforça a cautela. Em Sorriso, o presidente do Sindicato Rural, Diogo Damiani, aponta os fertilizantes, as taxas de juros e o acesso ao crédito entre os principais desafios para a nova temporada. Para ele, o produtor precisa equilibrar o momento de iniciar a semeadura com a necessidade de preservar o investimento feito na lavoura.

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“Os desafios nossos são os custos elevados, principalmente nessa safra, principalmente fertilizantes, adubo fosfatado, que subiu muito o preço, tem a questão do custeio agrícola, taxa de juros que estão bastante elevadas, e o acesso também ao crédito”, afirma ao Canal Rural Mato Grosso.

O clima acrescenta outra variável à decisão. Sorriso deve cultivar cerca de 580 mil hectares de soja nesta temporada e, segundo Damiani, os acumulados de chuva no município variam de 10 a 120 milímetros. Algumas áreas já receberam volume suficiente para iniciar o plantio de sequeiro, mas a maior parte das máquinas ainda está concentrada nos pivôs.

“Tem alguns produtores que já estão com mais de 120 milímetros acumulados que largaram na área de sequeiro, mas são bem poucos. A maioria nas áreas de pivôs”, relata.

A cautela também está relacionada às previsões para o El Niño. Embora o fenômeno seja apontado como um possível fator de risco para a distribuição das chuvas, ainda há incertezas sobre o comportamento do clima em cada região. Por isso, o escalonamento da semeadura aparece como uma das estratégias para reduzir a exposição.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Umidade do solo pesa na decisão

Em Nova Mutum, a Fazenda Bom Princípio começou o plantio pelos 150 hectares de área irrigada. A propriedade recebeu 20 milímetros de chuva e, posteriormente, outros 12 milímetros. Para avançar sobre as áreas de sequeiro, a equipe aguarda uma nova precipitação.

A fazenda deve cultivar 1.230 hectares de soja nesta safra. O gerente de produção Bruno Miguel Pancini Nunes conta à reportagem que a expectativa pelo início do plantio aumenta nesta época do ano, mas a prioridade é garantir uma semeadura de qualidade.

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“Fica ansioso para chegar logo, plantar e, acima de tudo, fazer um plantio bem feito, com qualidade”, frisa. Na safra passada, a propriedade começou na mesma data, mas as condições eram diferentes. “Até agora estamos com 32 milímetros na área de sequeiro e o ano passado não tinha nada”.

A quantidade de chuva registrada, porém, não é o único parâmetro utilizado para definir a entrada das máquinas. A capacidade do solo de conservar a umidade e a presença de palhada também interferem na decisão.

O agrônomo Cledson Guimarães Dias Pereira, da Cowboy Consultoria, explica que uma área com boa cobertura pode apresentar condição de plantio mesmo após uma chuva menor. Já em locais com pouca palhada, a recomendação pode ser esperar uma nova precipitação.

“Tem áreas que a gente tem uma boa palhada. Se chover 40 milímetros, você já pode dar o start. Mas numa área com baixa palhada, choveu 30 milímetros, calma. Espera uma próxima chuva, deixa essa umidade pelo menos dobrar para plantar e reduzir o risco de perder o plantio”, orienta.

A avaliação é especialmente importante diante do custo da implantação da lavoura. Sementes de qualidade e tratamento industrial representam parte relevante do investimento, e um eventual replantio amplia o prejuízo.

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“Qualquer replantio não fica bom, a semente já foi paga, o TSI está ali, ali tem 7, 8 sacas de investimento de custo. Você não pode errar nisso, principalmente com as nossas margens cada vez mais apertadas”, ressalta Cledson.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Projeção aponta redução na produção

O Imea projeta uma área de 13,05 milhões de hectares de soja em Mato Grosso na safra 2026/27. A produtividade estimada é de 62,44 sacas por hectare, queda de 5,43% em relação à temporada anterior.

Com a redução esperada no rendimento, a produção estadual deve alcançar 48,88 milhões de toneladas, recuo de 5,19%. O desempenho dependerá, entre outros fatores, da regularidade das chuvas durante o ciclo.

Para o superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Cleiton Gauer, o produtor acompanha especialmente o comportamento das precipitações neste começo de temporada. O fim do vazio sanitário permite a retomada do plantio, mas a condição climática é determinante para o estabelecimento das lavouras.

“O produtor já começa a acelerar e preparar o plantio da próxima safra de soja aqui no estado de Mato Grosso, de olho principalmente nessa janela inicial de chuvas, de olho em como vai ser o início desse estabelecimento, a continuidade dessas chuvas que é importante para esse começo para o desenvolvimento da safra”, salienta.

A preocupação com o clima, entretanto, se estende para além da soja. Uma eventual alteração na distribuição das chuvas pode comprometer o planejamento da segunda safra, especialmente se o El Niño permanecer atuando por um período prolongado.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Milho entra no planejamento da soja

A definição do ritmo de plantio da soja também está ligada ao calendário que vem depois. Quanto maior o atraso ou a necessidade de replantio, menor tende a ser a margem para encaixar o milho segunda safra dentro de uma janela considerada adequada.

Gauer afirma que o produtor já considera essa variável ao organizar a semeadura. “O produtor também não está só olhando para a safra de soja, mas também preparando essa antecipação para tentar organizar melhor a janela possível do milho segunda safra em Mato Grosso”.

A possibilidade de um El Niño de alta intensidade aumenta a preocupação justamente porque seus efeitos podem alterar os volumes e a distribuição das chuvas em diferentes períodos da temporada.

“Com as perspectivas de um El Niño de alta intensidade, volumes de chuvas e janelas prejudicadas para algumas regiões aqui no estado”, destaca o superintendente.


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