O déficit hídrico é um dos principais fatores limitantes da produtividade da soja. De modo geral, a cultura necessita de aproximadamente 800 mm de água ao longo do ciclo para alcançar boas produtividades. Entretanto, mais do que o volume total acumulado, a distribuição da disponibilidade hídrica ao longo do ciclo exerce influência direta sobre o crescimento, o desenvolvimento e o rendimento da cultura (Neumaier et al., 2020).
Ao longo do ciclo, a soja apresenta diferentes demandas térmicas, hídricas, luminosas e nutricionais, e a disponibilidade desses recursos em cada fase pode determinar, em maior ou menor grau, o potencial produtivo da lavoura. Segundo Neumaier et al. (2020), os impactos do déficit hídrico sobre a produtividade dependem da intensidade e duração do estresse, do período de ocorrência e da sensibilidade da cultivar.
A restrição hídrica pode resultar em perdas expressivas de produtividade quando ocorre em fases críticas do desenvolvimento. Em determinadas condições, perdas superiores a 45% podem estar associadas à ocorrência de déficit hídrico em períodos sensíveis da cultura (Gava et al., 2015). Embora o consumo de água pela soja varie conforme o estádio fenológico (tabela 1), a cultivar e as condições ambientais, o período reprodutivo, especialmente entre a floração e o enchimento de grãos (R1-R6), é considerado o mais crítico em relação à disponibilidade hídrica.
A demanda hídrica da soja também varia em função do acúmulo de matéria seca, do desenvolvimento dos grãos, do metabolismo da planta e das características da cultivar. Os períodos de emergência e desenvolvimento reprodutivo apresentam elevada sensibilidade à restrição hídrica. Durante essas fases, a deficiência de água pode comprometer processos fisiológicos importantes, reduzindo o crescimento das plantas, o estabelecimento e a manutenção dos componentes do rendimento e, consequentemente, a produtividade final da cultura.
Para uma germinação adequada, a semente de soja necessita absorver aproximadamente 50% de seu peso em água (Neumaier et al., 2020). Dessa forma, a disponibilidade hídrica exerce papel fundamental desde o estabelecimento inicial da cultura até a manutenção do potencial produtivo da lavoura. Nesse contexto, a adoção de estratégias integradas de manejo é importante para reduzir os impactos do déficit hídrico, especialmente em regiões mais suscetíveis às adversidades climáticas e em áreas com predominância de solos arenosos ou compactados.
Além do adequado posicionamento da cultivar e da definição da época de semeadura, considerando as recomendações técnicas e as orientações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), práticas relacionadas ao manejo do solo e estabelecimento da cultura também podem contribuir para aumentar a tolerância da cultura a períodos de estiagem. Entre essas estratégias, destaca-se o uso de hastes sulcadoras ou escarificadoras na semeadura, que, quando adequadamente posicionadas, podem favorecer o crescimento e a distribuição das raízes no perfil do solo.
As raízes são responsáveis pela absorção de água e nutrientes presentes na solução do solo. Assim, um sistema radicular vigoroso, bem distribuído e capaz de explorar diferentes camadas do perfil do solo possibilita maior acesso aos recursos disponíveis, especialmente à água armazenada em profundidade. Esse maior volume de solo explorado pode contribuir para melhorar o aproveitamento da água pelas plantas e aumentar sua capacidade de suportar períodos de restrição hídrica, contribuindo para a manutenção do crescimento e do potencial produtivo da soja em condições de estiagem.
Em solos argilosos com elevado grau de compactação, o uso de hastes escarificadoras acopladas às semeadoras-adubadoras pode favorecer o desenvolvimento radicular da soja. Resultados de campo indicam que a utilização da haste a 15 cm de profundidade proporciona maior crescimento das raízes em comparação à profundidade de 7 cm. Esse manejo mecânico da compactação busca ampliar a exploração do perfil do solo pelas raízes, favorecendo o acesso à água em camadas mais profundas e contribuindo para reduzir os efeitos do déficit hídrico, especialmente em períodos de seca (Foloni et al., 2026).
Nesse contexto, fica evidente a importância da disponibilidade de água para a soja, bem como os impactos que a restrição hídrica pode exercer sobre o crescimento, o desenvolvimento e a produtividade da cultura. A adoção de estratégias integradas de manejo pode contribuir para reduzir esses impactos e aumentar a resiliência das plantas em condições de estresse hídrico. Além das alternativas já mencionadas, a utilização de cultivares com maior tolerância à seca, o uso de bioinsumos, a rotação de culturas e a adoção de práticas que favoreçam a qualidade e a estrutura do solo podem contribuir para o melhor desenvolvimento da soja e para o aproveitamento mais eficiente da água disponível no perfil do solo.
FOLONI, J. S. S. et al. TÓPICOS AGRONÔMICOS SOBRE ENFRENTAMENTO DA SECA NA SOJA. Embrapa Soja, Documentos, n. 486, 2026. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1187158/1/DOC-486.pdf >, acesso em: 10/09/2026.
GAVA, R. et al. ESTRESSE HÍDRICO EM DIFERENTES FASES DA CULTURA DA SOJA. Revista brasileira de Agricultura Irrigada, 2015. Disponível em: < https://www.inovagri.org.br/revista/index.php/rbai/article/view/368/pdf_248 >, acesso em: 10/09/2026.
MONDINI, M. L.; VIEIRA, C. P.; CAMBRAIA, L. A. ÉPOCA DE SEMEADURA: UM IMPORTANTE FATOR QUE AFETA A PRODUTIVIDADE DA CULTURA DA SOJA. Embrapa. Documentos, n. 34, 2001. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/229672/1/DOC34.pdf?utm_source=chatgpt.com >, acesso em: 10/09/2026.
NEUMAIER, N. et al. ECOFISIOLOGIA DA SOJA. Embrapa Soja, Sistemas de Produção, n. 17, Tecnologias de produção de soja, cap. 2, 2020. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1123928/1/SP-17-2020-online-1.pdf >, acesso em: 10/09/2026.
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