A colheita do milho segunda safra alcançou 99,10% da área cultivada em Mato Grosso, mas o avanço para o fim dos trabalhos não eliminou um dos principais gargalos da produção: a falta de espaço para receber o cereal. Em municípios como Campos de Júlio e Sapezal, no oeste do estado, a capacidade de armazenagem não acompanhou o crescimento da produtividade.
O problema ganhou força nesta temporada com as chuvas mais tardias. A umidade elevada retardou a perda de água dos grãos no campo e manteve parte das lavouras em condições inadequadas para a entrada das máquinas, enquanto estruturas de recebimento ainda ocupadas com soja reduziram a capacidade disponível para o milho.
Em Campos de Júlio, cerca de 109 mil hectares foram destinados ao cereal. O presidente do Sindicato Rural, Rodrigo Cassol, relata que o excesso de umidade prolongou a colheita e já resultou em casos de grãos avariados. “O milho teve um atraso na colheita devido à umidade não baixar, por causa das chuvas, e também teve caso de avariado”, relata ao projeto Mais Milho.
A combinação de atraso no campo e falta de espaço nos armazéns tornou mais lento o fluxo da produção. Na avaliação de Cassol, o problema revela uma deficiência que não foi resolvida com o crescimento da produção agrícola: os investimentos em capacidade de recebimento não avançaram na mesma proporção.
A questão não está restrita a Campos de Júlio. Em Sapezal, o aumento da produtividade das lavouras também vem pressionando a estrutura disponível para receber os grãos. Para o presidente do Sindicato Rural do município, Diego José Dal’Maso, a situação tende a se agravar se a infraestrutura não acompanhar o ritmo de expansão do campo.
“Sapezal não é diferente de outras realidades. Nós realmente não temos armazéns, estrutura física para suportar toda a produção que temos”, pontua. Segundo ele, o produtor tem conseguido elevar a produtividade em ciclos cada vez mais curtos, tanto no milho quanto na soja.
O efeito aparece durante a colheita, quando grandes volumes precisam ser retirados das propriedades em um intervalo relativamente curto. Sem espaço disponível, o produtor fica mais dependente da velocidade de recebimento das unidades comerciais e do transporte para liberar a produção.
Dal’Maso também chama atenção para o custo de implantação de estruturas próprias. O investimento elevado faz com que alguns produtores desistam de construir armazéns por não enxergarem retorno suficiente para justificar a aplicação dos recursos.
Para mudar esse cenário, ele defende condições de financiamento mais atrativas. “Se realmente o governo federal tivesse sensibilidade, sabendo da importância que o agro tem para a economia do país, houvesse um juro muito baixo, juro subsidiado atrativo, eu tenho certeza que iria estimular muito o investimento do produtor rural em armazenamento”, diz à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
Enquanto a falta de armazenagem limita a saída do milho das propriedades, as condições climáticas aumentaram o período de exposição do cereal no campo. Em Sapezal, a elevada umidade relativa do ar dificultou a secagem natural e fez com que parte dos produtores prolongasse a colheita.
De acordo com Dal’Maso, houve períodos em que a umidade relativa do ar chegou próxima de 100% até meados de julho. O resultado foi uma diferença grande entre as propriedades: algumas já haviam encerrado a colheita, enquanto outras ainda tinham de 20% a 30% da área para retirar.
O atraso também trouxe reflexos sobre a qualidade. Os relatos na região incluem grãos avariados associados a doenças na espiga, além de ocorrências de fermentação e brotamento. As condições de umidade favoreceram esses problemas, mas o manejo adotado nas lavouras também pode influenciar nos resultados.
Apesar dos problemas de qualidade, os relatos do Sindicato Rural de Sapezal apontam para boas médias de produtividade na região. Dal’Maso destaca que a safra apresentou bons resultados de produção, mesmo com o atraso da colheita provocado pela umidade.
O desafio de Mato Grosso, portanto, não se resume a aumentar o número de estruturas de armazenagem. O crescimento da produção exige também maior capacidade de secagem, recebimento e transporte, evitando que o produtor fique sem alternativa justamente no momento de maior concentração da colheita.
Dal’Maso defende que novas opções de escoamento sejam consideradas junto com a expansão da capacidade estática. Para ele, além de ampliar a capacidade de armazenagem, é necessário investir em alternativas de escoamento para acelerar a retirada dos grãos das regiões produtoras durante a safra.
“A gente só vai conseguir suprir isso se houver realmente grandes investimentos em infraestrutura no futuro, não só em capacidade estática, mas em escoamento, outras opções para que você tenha uma velocidade de escoamento maior durante a safra também”, avalia.
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O post Milho sem espaço: chuva atrasa colheita e falta de armazéns aperta reta final em Mato Grosso apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.
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