O Agosto Lilás sempre me faz refletir sobre a responsabilidade que todos nós temos no enfrentamento à violência contra a mulher. Ao longo da minha trajetória como delegada e especialista em Enfrentamento à Violência contra Mulheres e Vulneráveis, acompanhei de perto histórias marcadas pelo medo, pela dor e pela violência, mas também testemunhei inúmeras vidas reconstruídas quando o acolhimento, a informação e a atuação integrada da rede de proteção chegaram no momento certo.
Foi com esse sentimento que participei da abertura da campanha Agosto Lilás no município de Indiavaí. Mais do que uma palestra, encontrei uma gestão comprometida com as pessoas, uma equipe preparada e uma assistência social que compreende que proteger mulheres é preservar famílias e fortalecer toda a comunidade. A transformação acontece justamente onde a vida das pessoas acontece: nos municípios. É ali que políticas públicas deixam de ser apenas projetos e passam a fazer diferença na vida de quem precisa.
Costumo dizer que combater a violência não significa apenas agir quando o crime já aconteceu. Nossa maior missão é prevenir. Isso exige investimento em informação, fortalecimento da rede de atendimento, acolhimento humanizado às vítimas, responsabilização dos agressores e um trabalho permanente de conscientização. Quando esses pilares caminham juntos, conseguimos romper ciclos de violência que, muitas vezes, atravessam gerações.
Outro ponto que considero indispensável é ampliar o diálogo com os homens. Durante muito tempo, direcionamos nossas campanhas apenas às mulheres, orientando-as a identificar sinais de relacionamentos abusivos e buscar ajuda. Essa orientação continua sendo fundamental, mas ela, sozinha, não basta. Precisamos conversar também com os homens, ajudá-los a reconhecer comportamentos violentos, desconstruir padrões culturais que naturalizam o abuso e estimular uma convivência baseada no respeito e na igualdade.
O enfrentamento ao feminicídio e às demais formas de violência contra a mulher depende de uma mudança coletiva de comportamento. Os homens não podem ser vistos apenas como parte do problema; precisam ser chamados a fazer parte da solução. Quando compreendem seus direitos, deveres e responsabilidades, tornam-se aliados na construção de uma sociedade mais justa e segura para todos.
O Agosto Lilás nos convida a refletir, mas esse compromisso não pode durar apenas um mês. A proteção das mulheres deve ser uma prioridade permanente do poder público e da sociedade. Cada denúncia acolhida, cada vida protegida, cada criança que cresce em um ambiente livre de violência representa uma vitória que pertence a todos nós.
Seguirei acreditando que informação salva vidas, que a prevenção é o caminho mais eficaz e que nenhuma mulher deve enfrentar a violência sozinha. Enquanto houver uma mulher precisando de proteção, nossa missão continuará sendo promover justiça, acolhimento e esperança.
Jannira Laranjeira é Delegada de Polícia | Especialista em Enfrentamento à Violência contra Mulheres e Vulneráveis
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