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A trajetória da família Kröling na consolidação da soja e do milho em Mato Grosso


Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

O milho, que hoje representa a principal fonte de renda da família Kröling, ocupava um espaço muito diferente na agricultura de Mato Grosso quando os produtores começaram a cultivar a cultura. A consolidação da segunda safra, a evolução da estrutura produtiva e a chegada da industrialização mudaram a relação com o cereal e também o perfil da propriedade em Diamantino.

Atualmente, são 1,8 mil hectares de soja e 1,6 mil hectares de milho, além da pecuária, incorporada ao sistema produtivo há cerca de dez anos. A integração começou em áreas marginais e mistas, com braquiária e posterior entrada do gado. O manejo contribuiu para melhorar o solo e elevar a produtividade da soja.

“A gente começou com a pecuária naquelas áreas marginais, área mista, plantando braquiária para melhorar o solo, aí pôs o gado em cima, e todo ano a gente tem melhorado a média da soja. Vem melhorando o solo e aí vem produzindo soja todo ano melhor”, explica Altemar ao Especial Mais Milho.

A produção é conduzida por Altemar e mais três irmãos, que dividiram as responsabilidades entre financeiro, pecuária, transporte e operação agrícola. A gestão compartilhada também passou a contar com a tecnologia, permitindo que decisões sejam tomadas mesmo quando os irmãos estão em locais diferentes.

O planejamento das safras considera principalmente o comportamento do clima, além da escolha dos materiais e da adubação. Em um cenário de margens mais apertadas, a estratégia é antecipar as decisões, mas manter espaço para ajustes durante o ciclo.

“É claro que você não consegue acertar tudo. Mas a gente começa, primeira coisa o clima, materiais, adubação. Fazemos um planejamento antecipado. É claro que planejamento nunca você consegue executar e fazer ele dar certo em 100%. Mas sempre fazemos um planejamento para tentar errar menos”, frisa Altemar.

Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Uma trajetória marcada pelo retorno a Mato Grosso

A relação da família com Mato Grosso começou ainda nos anos 1950. O avô de Altemar deixou o Espírito Santo durante a Segunda Guerra Mundial e foi para Sertanópolis, no Norte do Paraná, onde cultivou café. As geadas da década de 1950 destruíram os cafezais e fizeram a família buscar uma região de clima mais quente.

Foi nesse contexto que surgiu a primeira passagem por Diamantino. A propriedade foi comprada em 1954, mas a família só se mudou para o município em 1958. O período foi marcado por dificuldades de acesso e pela falta de estrutura para os filhos estudarem. “Na década de 50 era muito difícil o acesso, recurso. Aí, as crianças tinham que estudar e não tinha meio aqui. Aqui era um interiorzão mesmo”, lembra Altemar.

Em 1962, a família decidiu voltar ao Paraná e se estabeleceu em Corbélia, no Oeste do estado, próximo a Cascavel. Foi ali que os Kröling tiveram contato com o cultivo mecanizado de soja e milho. Anos depois, quando a mecanização começou a avançar em Mato Grosso, a família retomou o caminho para Diamantino.

“Quando começou a mecanização aqui na região de Mato Grosso, nos anos 70, aqui em Diamantino, a família começou retornar aos poucos, porque daí já tinha recurso. Já tinham empresas, já tinha uma estrutura, Diamantino já tinha uma estrutura”, conta.

Altemar tinha oito anos quando chegou novamente a Diamantino, em 1978. A produção começou com arroz, que ocupou um ciclo. Depois veio uma pequena atividade pecuária e, entre 1982 e 1983, a soja entrou gradualmente no sistema. “E aí não deixamos mais de plantar soja”, resume ao programa que integra o projeto Mais Milho.

A primeira safra da oleaginosa, contudo, foi produzida em condições muito diferentes das atuais. Sem silo e sem estrutura para armazenagem, a soja era seca e ensacada antes de ser comercializada para compradores de São Paulo. “A primeira safra de soja foi secada no secadorzinho e ensacada porque não tinha silo, não tinha estrutura nenhuma para soja. Então, vendia a soja lá no estado de São Paulo, os caminhões vinham, cortava o barbante do saco e aí do saco ia para o caminhão para levar granel”.

Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

A fertilidade precisou ser construída

A transformação das áreas ocorreu junto com a construção da fertilidade do solo. Quando a família chegou a Diamantino, praticamente não havia região agrícola aberta. A abertura do Cerrado e a preparação das áreas acompanharam o avanço da produção.

A presença de calcário em Nobres foi um dos fatores que facilitaram esse processo. “A nossa sorte é que estamos numa região que já tinha calcário. Nobres já existia, já tinha as calcalhadeiras. Então tudo ajudou nessa transformação, porque esse solo aqui é muito pobre. Nós tivemos que construir ele inteiro para ter essa produção que nós temos hoje”, afirma Altemar.

A experiência adquirida no Paraná com a mecanização também foi importante para a nova etapa em Mato Grosso. A família encontrou uma região que começava a receber empresas, máquinas e estrutura para sustentar a expansão da agricultura.

A mudança, entretanto, não ocorreu apenas dentro da propriedade. O desenvolvimento da agricultura em Diamantino acompanhou a transformação de todo o Cerrado mato-grossense, com áreas sendo abertas, corrigidas e incorporadas ao sistema produtivo.

Essa trajetória ajuda a dimensionar a distância entre a primeira safra de soja da família e os atuais 1,8 mil hectares cultivados. O que começou com sacas transportadas manualmente para o caminhão evoluiu para uma operação mecanizada e integrada a diferentes atividades.

Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Ferrugem asiática abre caminho para a segunda safra

A história do milho começou a partir de uma mudança no calendário da soja, de acordo com o produtor. A ocorrência da ferrugem asiática levou os produtores a anteciparem o plantio da oleaginosa, que antes começava em meados de outubro e passou a ser semeada em setembro.

A mudança abriu uma janela para o cultivo do cereal. “Chovia em setembro e teve alguém que começou a plantar e foi dando certo, a gente foi antecipando o plantio e aí vimos aquela janela: ‘Opa, se eu plantar o milho em fevereiro, eu vou conseguir fazer uma safra de milho, uma segunda safra’”, relata Altemar.

Os primeiros testes foram feitos aos poucos. Conforme os resultados apareceram, a segunda safra ganhou espaço e passou a fazer parte da produção da região. Para Altemar, a origem da cultura no calendário mato-grossense mostra como uma dificuldade pode abrir espaço para uma nova oportunidade. “Às vezes, através de um problema, surgem oportunidades”.

O avanço do milho também recuperou uma história familiar. Quando o pai de Altemar deixou o Paraná, em 1978, vendeu uma pequena suinocultura, atividade que era sua paixão. A falta do cereal em Mato Grosso foi uma das frustrações com a mudança.

“Era uma frustração dele vir para o Mato Grosso e ele falava: ‘O Mato Grosso não produz milho. Como que eu vou criar meus porcos?’. Ele sempre pensava nisso”, lembra Altemar ao Canal Rural Mato Grosso. Conforme o Cerrado passou a ser dominado pela agricultura e o milho ganhou espaço, a família entrou no cultivo, entre 2011 e 2012.

A produção do cereal permitiu que o pai retomasse aos poucos a suinocultura, mesmo sem grande escala. “Ele realizou o sonho dele em criar suíno no Mato Grosso”, conta. O pai do produtor morreu em 2020, mas chegou a acompanhar a expansão do milho no estado. “Ele sempre foi apaixonado pela suinocultura. Ele veio a falecer em 2020 e chegou a ver essa produção extraordinária que o Mato Grosso tem hoje de milho”.

Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Milho muda a composição da renda

A propriedade atualmente reúne soja, milho e pecuária. São 1,8 mil hectares de soja e 1,6 mil hectares de milho todos os anos, além do gado, atividade incorporada há cerca de uma década.

Entre as três atividades, o gado é apontado por Altemar como aquele que atualmente apresenta a melhor resposta econômica. A integração, que começou como uma forma de aproveitar áreas com menor potencial, tornou-se parte permanente do sistema produtivo.

Na composição da renda, porém, o milho assumiu o protagonismo. “O milho, ele hoje, dá para se dizer já que é nossa renda principal da fazenda. A soja, ela tem pagado a conta, pagado os investimentos e o milho nos anos em que temos uma boa produtividade, conseguimos acertar as vendas, é o que tem deixado uma margem para o produtor”, explica.

O cereal também passou a ser considerado indispensável dentro do planejamento da propriedade. A industrialização regional, especialmente com o avanço das usinas de etanol, ampliou a demanda e aproximou o processamento das áreas produtoras.

“Hoje, eu não consigo ver o milho fora do nosso sistema aqui. Cada vez mais a industrialização está chegando, a usina de etanol, o milho cada vez mais sendo processado aqui na nossa região. Então é uma coisa consolidada. Todo mundo hoje faz o seu planejamento em cima da safra do milho”, afirma Altemar.

A mudança surpreende até a própria família. Quando o milho começou a ser introduzido na propriedade, em 2011 e 2012, não havia expectativa de que o cereal chegasse à atual importância. “Não só ele duvidaria disso [o pai], mas nós também. Quando a gente começou a introduzir a cultura do milho aí no ano de 2011, 2012, a gente duvidaria se alguém falasse que o milho seria a cultura principal do Mato Grosso um dia”.

Para Altemar, houve uma mudança de patamar. “E eu acho que a gente virou a chave. Hoje em Mato Grosso, a cultura principal é o milho”.

Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Clima interfere no resultado da safra

A importância do milho também aumenta o peso das decisões tomadas a cada ciclo. Na safra atual, a expectativa era repetir o desempenho do ano anterior, considerado muito bom em produtividade. A distribuição das chuvas, entretanto, mudou o resultado.

“Choveu a quantia que tinha que chover, mas mais dividido. Por exemplo, nós tivemos um início do cultivo do milho com muita chuva”, pontua Altemar.

O excesso de precipitação no começo do ciclo trouxe perdas de parte das aplicações. Mais tarde, depois do florescimento, o problema foi a falta de chuva para o enchimento dos grãos. “Você faz uma aplicação, te dá uma chuva de 80 a 100 milímetros e você perde boa parte da aplicação. E aí, no final do plantio do milho, a hora que precisava de chuva para ele, pós-florescimento, para encher o grão, faltaram umas duas chuvas”.

O resultado deve ficar abaixo da expectativa inicial. “Vai ser um ano que vai produzir bem abaixo do que a gente estimava, mas são anos totalmente diferentes um do outro. Cada ano tem a sua história”, avalia.

No ciclo anterior, a propriedade alcançou produtividade entre 154 e 156 sacas por hectare. Nesta safra, até o momento da entrevista, o máximo colhido era de 132 sacas por hectare. Ainda havia talhões a serem colhidos e com potencial de apresentar resultados melhores.

A propriedade trabalha com um nível intermediário de tecnologia e evita investimentos muito elevados. A decisão está relacionada à gestão do negócio e à necessidade de avaliar o cenário de cada safra antes de definir onde colocar recursos.

Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

A tecnologia a favor da gestão

A administração da fazenda é compartilhada entre Altemar e mais três irmãos. As responsabilidades são diferentes, mas as decisões permanecem conectadas. A tecnologia passou a ser uma ferramenta importante para manter os quatro irmãos alinhados mesmo quando não conseguem estar juntos na propriedade.

“Hoje a tecnologia nos acrescenta muita coisa. Por exemplo, a gente tem um grupo, então qualquer assunto a gente joga lá dentro. Às vezes, não dá tempo de sentar os quatro. Põe lá no grupo e dali a pouco um responde, o outro responde”, conta Altemar ao Canal Rural Mato Grosso.

A comunicação permite que os irmãos trabalhem de onde estiverem e mantenham a operação em andamento. “A gente acaba trabalhando de onde está. Às vezes está na fila para descarregar e eu estou aqui e a gente vai se desenrolando. Dá seu jeito”.

O modelo de gestão acompanha a própria diversificação da propriedade. Soja, milho e pecuária têm necessidades diferentes, e a divisão das responsabilidades permite que cada área seja acompanhada mais de perto sem perder a visão conjunta do negócio.

Entidades acompanham evolução da agricultura

A trajetória de Altemar também se conecta à organização dos produtores. Ele atua há duas décadas na Aprosoja Mato Grosso e é presidente do Sindicato Rural de Diamantino. Para ele, a atuação das entidades foi importante para acompanhar e impulsionar a transformação do setor.

“As instituições, tanto Sindicato Rural, a nossa Federação e a Aprosoja Mato Grosso contribuíram demais nessas últimas duas décadas. A Aprosoja, eu com 20 anos na entidade, foi fundamental para entendermos o processo, para termos forças”, afirma.

O produtor acompanhou o crescimento da Aprosoja Mato Grosso desde os primeiros anos. “Nós começamos a Aprosoja Mato Grosso com 500, 600 associados e hoje estamos encostando em 10 mil. Você vê que as entidades se fortaleceram nesse período. E hoje a gente tem força junto para levar certas reivindicações e tem um poder de negociação em vários setores”.

A logística é um dos exemplos citados por Altemar. Durante parte da trajetória da família, o transporte da produção estava entre os principais entraves para o avanço da agricultura. A mobilização dos produtores e das entidades ajudou a colocar essas demandas em negociação.

“A gente sofria muito com logística, as entidades foram para cima, hoje vemos que o Mato Grosso cresceu demais, evoluiu. Temos logística. Então tudo foram as entidades que correram atrás. O produtor levava as demandas, as entidades corriam atrás e hoje estamos colhendo o resultado”, avalia.

A agricultura que a família encontrou em Diamantino, portanto, passou por transformações profundas desde a primeira propriedade adquirida em 1954. A soja deixou de ser ensacada e transportada para São Paulo, o solo foi construído, a mecanização avançou, o milho ganhou espaço com a segunda safra e a industrialização criou novas possibilidades para o cereal.

Depois de quase cinco décadas convivendo com a atividade, Altemar considera que as dificuldades também foram responsáveis pelo amadurecimento da agricultura. “As dificuldades fazem a gente prosperar e nos deixa mais forte, né? Olha que são quase cinco décadas convivendo na agricultura. Quanta dificuldade passamos. Então isso nos torna mais fortes. Quem chega aqui hoje não sabe o que era isso daqui há 30, 40 anos atrás”.

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