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No Dia do Produtor Rural, a história dos pioneiros que transformaram Sorriso na capital do agro


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Sorriso chegou aos 40 anos como um dos principais polos de produção agrícola do Brasil, mas a dimensão alcançada pelo município não existia quando as primeiras famílias começaram a chegar à região. A paisagem que hoje reúne lavouras, armazéns, indústrias e sistemas de irrigação foi construída aos poucos, em meio a dificuldades que iam muito além do trabalho dentro da porteira.

São aproximadamente 580 mil hectares cultivados com soja e outros 470 mil hectares destinados ao milho segunda safra. O município também avançou na irrigação, com mais de 50 mil hectares, além da produção de feijão e algodão. A estrutura atual é resultado de décadas de investimentos, tecnologia e aumento de produtividade.

Para Diogo Damiani, presidente do Sindicato Rural de Sorriso, o desenvolvimento foi construído por produtores que chegaram principalmente de outros estados e apostaram no potencial da região. “Todo esse desenvolvimento de Sorriso, o que Sorriso é hoje vem das pessoas que acreditaram na época, na década de 70, 80, na década de 90 que vieram de outros estados e entraram aqui em Mato Grosso, principalmente na região de Sorriso, e desenvolveram toda essa região”.

O campo também passou a sustentar uma cadeia econômica que se espalhou pelo município. Agricultura, comércio, indústria e serviços cresceram conectados à produção rural, enquanto novos investimentos passaram a apontar para armazenagem, irrigação e industrialização. Ao mesmo tempo, a logística continua entre os principais desafios para uma região que amplia a produção.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Uma cidade construída em meio à falta de estrutura

A história dos pioneiros passa por famílias como Gemi, Capellari, Berdim, Pozzobon, Poleto e Schivinski, citadas por Leonir Fernandes Perin Vitale entre as que chegaram à região e participaram dos primeiros anos de construção do município.

A realidade encontrada era distante da estrutura disponível atualmente. “Chegamos aqui e nós tínhamos energia duas horas por dia. Quando tinha de manhã não tinha de tarde, quando tinha de tarde não tinha à noite e água não tinha. Tinha que fazer poço”, lembra Vitale em entrevista ao Canal Rural Mato Grosso. Gerador e poço estavam entre as primeiras necessidades para quem pretendia permanecer e trabalhar.

A dificuldade também aparecia no abastecimento. Segundo ele, quando algum caminhão conseguia chegar de Santa Catarina com alimentos, era preciso aproveitar a oportunidade para garantir estoque. “Para conseguir as coisas aqui era um parto, quando conseguia vir um caminhão lá de Santa Catarina com frango, tu tinha que comprar o máximo o que podia para estocar”, conta.

Vitale destaca ainda o papel das mulheres nos primeiros anos da colonização. Com atendimento médico e outros serviços ainda precários, as famílias precisavam construir uma rotina em condições adversas. “O que nos ajudou muito aqui foram as nossas esposas. Médico, tudo o que nós tínhamos aqui era tudo precário, foram as mulheres que nos mantiveram aqui, se elas fossem embora nós tínhamos que ir junto”.

A expansão da produção e da infraestrutura mudou esse cenário ao longo das décadas. Hoje, Sorriso tem uma economia fortemente ligada ao agronegócio e busca ampliar a agregação de valor aos produtos que saem das lavouras.

O prefeito Alei Fernandes afirma ao Canal Rural Mato Grosso que a agricultura é a base da economia municipal e que comércio e indústria também se desenvolveram em torno dela. “A nossa característica é agro, então a fonte primária é agricultura. O comércio também é muito ligado ao agro, às indústrias que fornecem para o agro, e o comércio local se desenvolve em cima dessa riqueza que o agronegócio traz para a nossa região”.

Para o município, os próximos passos passam justamente pela verticalização da produção, com investimentos em armazenagem, irrigação e industrialização. A intenção é transformar parte da produção agrícola em produtos de maior valor agregado e ampliar a receita gerada dentro da própria região.

A logística, porém, continua sendo um ponto de atenção. Fernandes cita os avanços na BR-163 e a chegada das ferrovias, além das discussões sobre novas alternativas de transporte. “O grande desafio nosso hoje é a logística por mais que tenha avançado muito, com a duplicação da BR-163 em fase aí já do meio para o fim, as ferrovias começando a chegar discutindo já hidrovia logo aí perto”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Da estrada de chão às grandes lavouras

Entre as famílias que fazem parte dessa trajetória do município estão Ilo e Nelci Pozzobon. Ele nasceu em Horizontina, no Rio Grande do Sul, e ela é catarinense. Os dois chegaram a Sorriso em julho de 1980, acompanhados dos dois filhos, quando o município ainda tinha pouca gente e uma estrutura bastante limitada.

A primeira área comprada por Ilo tinha 500 hectares. O início foi marcado pela abertura de áreas, muito trabalho e, principalmente, dificuldades de acesso. “Minha primeira compra foram 500 hectares, muita raiz, muito trabalho, muitas dificuldades. A maior foram estradas, atoleiros, muito atoleiros. As condições financeiras eram limitadas, fomos fazendo gradativamente conforme as condições nos deixavam”.

A comunicação com outras cidades também exigia viagens longas. Para resolver questões que hoje podem ser feitas em poucos minutos, era preciso seguir até Cuiabá, capital de Mato Grosso, por estradas de chão, enfrentando períodos de chuva e atoleiros. “Era muito ruim, enfrentava muitos atoleiros, muitos dias de viagem, quando a gente saia se perdia, não tinha comunicação, então só sabia que a gente ia e ficava no aguardo da volta, não se sabia o dia”, recorda à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.

Nelci viveu as mesmas limitações dentro de casa. Sem uma residência pronta, a família começou em um espaço improvisado junto ao galpão onde as máquinas eram guardadas. “Foi difícil, fui morar em um puxado em um galpão onde guardava as máquinas porque nem casa não tinha”, conta.

O frio e o vento também faziam parte da rotina. “Quando era vento frio tinha que ficar tudo em um lugar só porque tinha que se proteger, e assim a gente foi levando”, relata Nelci, que afirma nunca ter pensado em retornar. “Eu acho que se a gente planeja vir em um lugar para conquistar alguma coisa tem que sofrer também, né? Não adianta e eu faria tudo de novo”.

Quase meio século depois da chegada, a história dos Pozzobon se mistura à trajetória de Sorriso. O que começou com uma propriedade de 500 hectares, estradas difíceis e poucos recursos passou a fazer parte de uma região que hoje está entre as maiores produtoras agrícolas do país.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

O nome que virou símbolo da cidade

A origem do nome Sorriso também carrega diferentes versões entre os pioneiros. A mais conhecida relaciona a escolha à esperança e ao otimismo de quem chegou à região nos anos 1970 acreditando que seria possível construir ali um novo futuro.

Entre descendentes de italianos que participaram da colonização, porém, existe outra explicação. A hipótese é de que o nome tenha surgido em referência ao arroz, cultura que ocupava espaço importante nos primeiros anos da ocupação, como explica Leonir Fernandes Perin Vitale.

Independentemente da versão, o nome permaneceu e acabou incorporado à identidade do município. Para Ilo Pozzobon, a escolha também representa o sentimento de quem participou da construção da cidade desde os primeiros anos. “Saiu o nome de Sorriso e deixaram esse nome para a cidade e a gente se orgulha muito com isso porque é um sinal de alegria, aqui não tem gente triste…”.

A história desses produtores ajuda a explicar como uma cidade ainda jovem conseguiu se transformar em uma referência do agronegócio. O crescimento de Sorriso não aconteceu apenas pela expansão das áreas cultivadas, mas pela combinação entre famílias dispostas a permanecer, investimentos, tecnologia e sucessivas melhorias na infraestrutura.

No Dia do Produtor Rural, a trajetória dos pioneiros também mostra que a força agrícola de Mato Grosso foi construída antes das grandes estruturas que hoje sustentam o setor. Em Sorriso, quem chegou quando faltavam estradas, energia, água e comunicação deixou como legado uma região que continua ampliando sua produção e buscando novos caminhos para agregar valor ao que nasce no campo.


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