O aumento dos custos de produção e a dificuldade de comercialização do milho deixam produtores de Mato Grosso mais cautelosos para a safra 2026/27. O custeio da soja deve chegar a R$ 4.321,32 por hectare, com alta de 3,35% em relação à temporada anterior, enquanto parte dos insumos para o próximo plantio ainda não foi comprada.
A pressão sobre as margens começa antes mesmo da implantação da nova lavoura. Fertilizantes e corretivos tiveram reajuste de 5,74%, enquanto as operações mecanizadas avançaram 22,74%, principalmente devido ao aumento no custo do diesel, conforme o projeto de Custo de Produção Agropecuária de Mato Grosso (CPA-MT), realizado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e Senar-MT.
O cenário é agravado por uma segunda safra de milho marcada por problemas climáticos e preços pouco remuneradores. Em Diamantino, o produtor Altemar Kroling alcançou entre 154 e 156 sacas por hectare no ciclo passado. Até agora, porém, a maior produtividade obtida nesta temporada foi de 132 sacas.
O excesso de chuva no início do cultivo prejudicou aplicações, enquanto a falta de precipitações no período de enchimento dos grãos reduziu o potencial produtivo. “No início e no final do cultivo do milho nós tivemos problemas. Vai ser um ano que vai produzir assim bem abaixo do que a gente estimava”, avalia Kroling ao Patrulheiro Agro.
A distribuição irregular das chuvas também deixou marcas diferentes nas regiões produtoras. Em algumas áreas, a falta de precipitações comprometeu a produtividade. Em outras, o excesso de umidade passou a dificultar a retirada dos grãos do campo.
No município de Primavera do Leste, Fábio Busanello, vice-presidente do Sindicato Rural, relata que houve um período de estiagem entre abril e maio. As chuvas chegaram apenas no fim de junho e em julho, quando já não eram capazes de recuperar completamente o potencial produtivo das lavouras.
A colheita ainda está atrasada na região e há relatos de grãos ardidos em algumas áreas. Ao mesmo tempo, lavouras que receberam chuva suficiente apresentam produtividade considerada boa.
O excesso de chuva também tem dificultado o avanço da colheita em outras regiões. Para Altemar Kroling, os volumes mais elevados atrasam a redução da umidade do milho e aumentam o risco de perdas. “Esse ano deu chuvas maiores de 80, 100 milímetros, acaba atrapalhando a colheita. O milho demora em baixar a umidade”, explica.
A situação preocupa porque parte da produção precisa cumprir contratos e ser direcionada para estruturas de armazenagem. No caso do silo bolsa, o milho precisa estar com umidade inferior a 14%.
A família Bueno já concluiu a colheita dos 1.180 hectares cultivados com milho em Ipiranga do Norte. O armazém da propriedade, construído há cerca de cinco anos, tem capacidade para aproximadamente 125 mil sacas.
Mesmo com a estrutura, o agricultor Auri Antônio Ferreira Bueno destaca que os preços atuais reduzem o retorno da atividade. “A gente produz, mas retorno é pouco. O preço está muito baixo, então fica difícil para nós”, afirma.
A dificuldade de comercialização do milho ocorre justamente quando o produtor precisa se preparar para a próxima safra. O problema é que os custos continuam elevados e a receita obtida com a produção nem sempre é suficiente para cobrir as despesas.
Para Eder Ferreira Bueno, presidente do Sindicato Rural de Ipiranga do Norte, o principal desafio está em conseguir fechar a conta. “O produtor não está tendo rentabilidade, o custo está alto, na próxima safra o custo também está alto”, resume à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
A situação também limita a capacidade de investimento em armazenagem. Auri Ferreira Bueno afirma que a construção de novos silos seria necessária, mas os juros dificultam a expansão da estrutura. “Tem que fazer mais silos, mas do jeito que está hoje não tem condição de construir mais não. Hoje o juro está muito alto”, diz.
Para Eder, o problema não está apenas na dificuldade de vender o grão. “O pior de tudo é você colher, você ter o grão e não poder vender porque o custo está alto e os insumos estão todos altos. Então não fecha a conta hoje”.
A comercialização do milho e o ritmo mais lento da colheita também interferem no planejamento da próxima temporada. O atraso reduz o tempo disponível para a preparação das áreas e aumenta a preocupação com a compra dos insumos.
O presidente da Aprosoja Brasil e Aprosoja Mato Grosso, Lucas Costa Beber, estima que entre 30% e 40% do volume de fertilizantes destinado ao próximo plantio de soja ainda não tenha sido negociado.
A alta do enxofre, utilizado na produção de fertilizantes como MAP e superfosfato simples, contribuiu para a elevação dos preços. A instabilidade no Estreito de Ormuz também aumentou a cautela dos produtores. “Muitos produtores que não haviam negociado lá em novembro ainda não negociaram”, destaca Lucas.
O atraso pode não comprometer imediatamente a primeira safra de soja, mas aumenta o risco para o milho da segunda safra e para o planejamento das temporadas seguintes. Como parte dos produtores utiliza a adubação a lanço com foco na fertilidade do sistema ao longo do tempo, a menor disponibilidade de nutrientes pode afetar a produtividade mais adiante.
O ritmo mais lento da colheita do milho também reduz o tempo disponível para as operações que antecedem o plantio da soja. A proximidade do período de ventos mais fortes, em agosto, pode dificultar a aplicação de calcário.
O cenário climático desta temporada reforça a preocupação. Altemar Kroling lembra que, no ciclo anterior, as chuvas foram mais regulares, com volumes de 30 a 40 milímetros distribuídos ao longo do período. Nesta safra, os volumes maiores e concentrados dificultaram tanto o manejo quanto a colheita.
Além da produtividade, a qualidade do milho também pode ser afetada. Em algumas regiões, já há relatos de grãos ardidos, enquanto a umidade elevada prolonga o tempo necessário para a colheita.
O planejamento da próxima safra ainda é feito em meio às discussões sobre a possibilidade de um novo El Niño. Embora não haja confirmação sobre a ocorrência ou a intensidade do fenômeno, um eventual atraso no plantio da soja poderia comprometer o calendário do milho seguinte.
“Se ocorrer atraso de plantio pode ter impactos econômicos ainda mais fortes no ano que vem, não só para a cultura da soja, mas também atrasando o plantio da safra do milho do próximo ano”, alerta Lucas.
Ao mesmo tempo, o presidente da Aprosoja Brasil observa que o mercado ainda não incorporou uma eventual preocupação climática aos preços das commodities. “Mesmo se falando de um alarde muito grande sobre esse El Niño, o mercado não tem acumulado isso e a remuneração nos preços das commodities não tem refletido essas previsões”.
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O post Safra 2026/27: custo da soja sobe e atraso nas compras preocupa produtores em MT apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.
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