Categories: Business

Safra 2026/27: custo da soja sobe e atraso nas compras preocupa produtores em MT


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

O aumento dos custos de produção e a dificuldade de comercialização do milho deixam produtores de Mato Grosso mais cautelosos para a safra 2026/27. O custeio da soja deve chegar a R$ 4.321,32 por hectare, com alta de 3,35% em relação à temporada anterior, enquanto parte dos insumos para o próximo plantio ainda não foi comprada.

A pressão sobre as margens começa antes mesmo da implantação da nova lavoura. Fertilizantes e corretivos tiveram reajuste de 5,74%, enquanto as operações mecanizadas avançaram 22,74%, principalmente devido ao aumento no custo do diesel, conforme o projeto de Custo de Produção Agropecuária de Mato Grosso (CPA-MT), realizado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e Senar-MT.

O cenário é agravado por uma segunda safra de milho marcada por problemas climáticos e preços pouco remuneradores. Em Diamantino, o produtor Altemar Kroling alcançou entre 154 e 156 sacas por hectare no ciclo passado. Até agora, porém, a maior produtividade obtida nesta temporada foi de 132 sacas.

O excesso de chuva no início do cultivo prejudicou aplicações, enquanto a falta de precipitações no período de enchimento dos grãos reduziu o potencial produtivo. “No início e no final do cultivo do milho nós tivemos problemas. Vai ser um ano que vai produzir assim bem abaixo do que a gente estimava”, avalia Kroling ao Patrulheiro Agro.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Clima interfere na colheita e reduz margem

A distribuição irregular das chuvas também deixou marcas diferentes nas regiões produtoras. Em algumas áreas, a falta de precipitações comprometeu a produtividade. Em outras, o excesso de umidade passou a dificultar a retirada dos grãos do campo.

No município de Primavera do Leste, Fábio Busanello, vice-presidente do Sindicato Rural, relata que houve um período de estiagem entre abril e maio. As chuvas chegaram apenas no fim de junho e em julho, quando já não eram capazes de recuperar completamente o potencial produtivo das lavouras.

A colheita ainda está atrasada na região e há relatos de grãos ardidos em algumas áreas. Ao mesmo tempo, lavouras que receberam chuva suficiente apresentam produtividade considerada boa.

O excesso de chuva também tem dificultado o avanço da colheita em outras regiões. Para Altemar Kroling, os volumes mais elevados atrasam a redução da umidade do milho e aumentam o risco de perdas. “Esse ano deu chuvas maiores de 80, 100 milímetros, acaba atrapalhando a colheita. O milho demora em baixar a umidade”, explica.

A situação preocupa porque parte da produção precisa cumprir contratos e ser direcionada para estruturas de armazenagem. No caso do silo bolsa, o milho precisa estar com umidade inferior a 14%.

A família Bueno já concluiu a colheita dos 1.180 hectares cultivados com milho em Ipiranga do Norte. O armazém da propriedade, construído há cerca de cinco anos, tem capacidade para aproximadamente 125 mil sacas.

Mesmo com a estrutura, o agricultor Auri Antônio Ferreira Bueno destaca que os preços atuais reduzem o retorno da atividade. “A gente produz, mas retorno é pouco. O preço está muito baixo, então fica difícil para nós”, afirma.

Custos maiores dificultam fechamento das contas

A dificuldade de comercialização do milho ocorre justamente quando o produtor precisa se preparar para a próxima safra. O problema é que os custos continuam elevados e a receita obtida com a produção nem sempre é suficiente para cobrir as despesas.

Para Eder Ferreira Bueno, presidente do Sindicato Rural de Ipiranga do Norte, o principal desafio está em conseguir fechar a conta. “O produtor não está tendo rentabilidade, o custo está alto, na próxima safra o custo também está alto”, resume à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.

A situação também limita a capacidade de investimento em armazenagem. Auri Ferreira Bueno afirma que a construção de novos silos seria necessária, mas os juros dificultam a expansão da estrutura. “Tem que fazer mais silos, mas do jeito que está hoje não tem condição de construir mais não. Hoje o juro está muito alto”, diz.

Para Eder, o problema não está apenas na dificuldade de vender o grão. “O pior de tudo é você colher, você ter o grão e não poder vender porque o custo está alto e os insumos estão todos altos. Então não fecha a conta hoje”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Fertilizantes ainda não foram negociados

A comercialização do milho e o ritmo mais lento da colheita também interferem no planejamento da próxima temporada. O atraso reduz o tempo disponível para a preparação das áreas e aumenta a preocupação com a compra dos insumos.

O presidente da Aprosoja Brasil e Aprosoja Mato Grosso, Lucas Costa Beber, estima que entre 30% e 40% do volume de fertilizantes destinado ao próximo plantio de soja ainda não tenha sido negociado.

A alta do enxofre, utilizado na produção de fertilizantes como MAP e superfosfato simples, contribuiu para a elevação dos preços. A instabilidade no Estreito de Ormuz também aumentou a cautela dos produtores. “Muitos produtores que não haviam negociado lá em novembro ainda não negociaram”, destaca Lucas.

O atraso pode não comprometer imediatamente a primeira safra de soja, mas aumenta o risco para o milho da segunda safra e para o planejamento das temporadas seguintes. Como parte dos produtores utiliza a adubação a lanço com foco na fertilidade do sistema ao longo do tempo, a menor disponibilidade de nutrientes pode afetar a produtividade mais adiante.

Atraso pode comprometer calendário

O ritmo mais lento da colheita do milho também reduz o tempo disponível para as operações que antecedem o plantio da soja. A proximidade do período de ventos mais fortes, em agosto, pode dificultar a aplicação de calcário.

O cenário climático desta temporada reforça a preocupação. Altemar Kroling lembra que, no ciclo anterior, as chuvas foram mais regulares, com volumes de 30 a 40 milímetros distribuídos ao longo do período. Nesta safra, os volumes maiores e concentrados dificultaram tanto o manejo quanto a colheita.

Além da produtividade, a qualidade do milho também pode ser afetada. Em algumas regiões, já há relatos de grãos ardidos, enquanto a umidade elevada prolonga o tempo necessário para a colheita.

O planejamento da próxima safra ainda é feito em meio às discussões sobre a possibilidade de um novo El Niño. Embora não haja confirmação sobre a ocorrência ou a intensidade do fenômeno, um eventual atraso no plantio da soja poderia comprometer o calendário do milho seguinte.

“Se ocorrer atraso de plantio pode ter impactos econômicos ainda mais fortes no ano que vem, não só para a cultura da soja, mas também atrasando o plantio da safra do milho do próximo ano”, alerta Lucas.

Ao mesmo tempo, o presidente da Aprosoja Brasil observa que o mercado ainda não incorporou uma eventual preocupação climática aos preços das commodities. “Mesmo se falando de um alarde muito grande sobre esse El Niño, o mercado não tem acumulado isso e a remuneração nos preços das commodities não tem refletido essas previsões”.

+Confira todos os episódios da série Patrulheiro Agro


Clique aqui, entre em nosso canal no WhatsApp do Canal Rural Mato Grosso e receba notícias em tempo real.

O post Safra 2026/27: custo da soja sobe e atraso nas compras preocupa produtores em MT apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.

agro.mt

Recent Posts

Merenda adaptada: rede municipal oferece cardápio especial para autistas e alérgicos

Escolas retomam semestre letivo com despensas abastecidas. Nas creches, regra proíbe adição de açúcar para…

16 minutos ago

Crédito rural registra redução nas contratações ao final do Plano Safra 2025/26 – MAIS SOJA

O encerramento do Plano Safra 2025/26 confirma um cenário de maior restrição ao crédito rural…

29 minutos ago

Ananias diz que não suspenderá veto de aliança com MDB em Mato Grosso

Candidato José Medeiros diz que aliança com União Brasil seria mais desejável, mas o partido…

53 minutos ago

O valor estratégico da gestão de pessoas

Durante muito tempo, a gestão de pessoas esteve associada principalmente a processos administrativos, recrutamento, seleção…

1 hora ago

Estudo analisa os impactos da infraestrutura logística sobre a produção agrícola de Mato Grosso do Sul – MAIS SOJA

Mato Grosso do Sul representa aproximadamente 9% da produção nacional de soja, consolidando-se como o…

2 horas ago

Recém-nascido é encontrado morto em lixeira de condomínio em Várzea Grande

Corpo estava dentro de um saco plástico e foi localizado por trabalhadores durante a separação…

2 horas ago