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Crédito em risco beira 20% em MT e acende alerta para a próxima safra


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

O avanço do crédito considerado problemático no campo tem ampliado a preocupação com a capacidade de financiamento da próxima safra em Mato Grosso. Embora a inadimplência oficial do crédito rural esteja em torno de 5% no Estado, o cenário é mais delicado quando são incluídas as operações renegociadas e outros ativos classificados como de maior risco, que elevam esse percentual para cerca de 18%.

A situação ocorre em um momento em que produtores enfrentam margens cada vez mais apertadas. A combinação de custos elevados, preços mais baixos da soja e do milho e juros em patamares elevados tem comprometido a rentabilidade e reduzido a capacidade de honrar compromissos financeiros.

Em Tapurah, o agricultor Régis Adriano Desordi Porazzi, que nesta safra cultivou 800 hectares de milho, relata que a atividade perdeu boa parte da capacidade de gerar lucro, mesmo em áreas com produtividade considerada normal. “Eu gasto R$ 90 por saca de soja colhida, com uma margem de R$ 5, R$ 6 por saca”.

Para ele, o problema se agravou nos últimos três anos e tem reduzido o estímulo para continuar investindo na produção. “A impressão que dá é que nós nos tornamos uns escravos legalizados. Trabalhamos, construímos contas e não realizamos lucros”, diz ao Patrulheiro Agro.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Crédito vai além da inadimplência

Levantamento apresentado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), com base em dados do Banco Central, mostra que a inadimplência do crédito rural no Estado soma aproximadamente R$ 5,25 bilhões, o equivalente a cerca de 5% da carteira.

O superintendente da Famato, do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e do AgriHub, Cleiton Gauer, observa, no entanto, que esse percentual não retrata toda a realidade do endividamento dos produtores mato-grossenses. Parte relevante dos financiamentos ocorre fora do sistema contabilizado pelo Banco Central. “O produtor se financia de outras formas, principalmente pelo mercado financeiro, e nem todo esse crédito passa pelo Banco Central”.

Essa característica, destaca, pode fazer com que o volume de operações em dificuldades seja superior ao registrado nos indicadores oficiais. “Ele pode não estar sendo contabilizado e pode haver um número maior do que observamos nesse índice”.

O Banco Central aponta que a inadimplência do crédito rural no Brasil chegou a 7,4%. Mesmo abaixo da média nacional, Mato Grosso desperta atenção pela participação de outras modalidades de financiamento utilizadas pelos produtores.

Para Gauer, o principal alerta está no chamado crédito problemático, que reúne operações inadimplentes, renegociadas e classificadas com maior risco pelas instituições financeiras. Ao considerar esses indicadores em conjunto, o percentual sobe para cerca de 18% no Estado. “É um ativo realmente problemático e, principalmente, uma dívida que vai passar para as próximas safras, para que o produtor consiga cumprir e honrar os seus compromissos”, pontua à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.

Margens cada vez mais apertadas

Na avaliação do setor, o ganho de eficiência dentro da porteira continua sendo indispensável, mas já não é suficiente para equilibrar as contas das propriedades.

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Além da gestão da produção, fatores externos passaram a exercer um peso maior sobre o resultado financeiro das lavouras. Entre eles estão o aumento dos custos de produção e a queda das cotações das commodities agrícolas. “Os preços vêm sendo praticados em níveis menores ano após ano, quando comparados principalmente ao período pós-pandemia”, salienta Gauer.

Em Tapurah, a necessidade de fazer caixa acaba levando muitos agricultores a comercializar a produção abaixo do custo.

O presidente do Sindicato Rural de Tapurah, Dirceu Luiz Dezem, relata que produtores descapitalizados acabam priorizando despesas imediatas para manter a atividade. “Quem precisa comprar diesel, manter os funcionários ou a oficina é obrigado a vender abaixo do preço de custo”.

Com isso, observa, os compromissos financeiros acabam sendo postergados. “Não consegue pagar as prestações, e os atrasados vão ficando para trás”.

Régis Porazzi avalia que o cenário ameaça a permanência de muitos produtores na atividade. Na visão dele, a continuidade desse quadro pode provocar uma redução significativa no número de agricultores. “Se continuar nesses patamares de preços de soja e milho, o agricultor está sendo excluído da atividade”.

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Ele demonstra preocupação com o futuro da produção de alimentos caso o ambiente econômico não melhore. “Não descarto a possibilidade de a sociedade passar fome. Está sendo uma catástrofe econômica no agronegócio”, ressalta.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Setor pede medidas emergenciais

Diante do agravamento da situação financeira, entidades do agro intensificaram as discussões com o governo federal e o Congresso Nacional em busca de alternativas para garantir recursos para a próxima safra.

O presidente da Aprosoja Brasil e Mato Grosso, Lucas Costa Beber, informa que a entidade encaminhou dois ofícios às autoridades. Um deles manifesta apoio ao Projeto de Lei 5.122 e coloca a equipe técnica à disposição para contribuir com dados e propostas durante a tramitação.

Outro documento solicita a suspensão, por 90 dias, das execuções e cobranças de dívidas rurais, além da criação de uma linha suplementar de custeio entre R$ 2 mil e R$ 3 mil por hectare. A proposta busca oferecer condições para que os produtores atravessem o atual momento de dificuldades. “A ideia é dar um fôlego para os produtores atravessarem esse momento de crise, marcado por altos custos e preços das commodities reduzidos”.

Costa Beber também defende o fortalecimento do seguro rural, que considera insuficiente para proteger o produtor em momentos de perdas. Ele lembra que o orçamento destinado ao programa no Brasil é muito inferior ao de outros países e ainda sofreu contingenciamento.

Na avaliação do presidente da Aprosoja Brasil, a combinação entre seguro rural limitado e juros elevados encarece ainda mais a produção. “Com juros de dois dígitos na maioria das linhas de crédito, o acesso ficou ainda mais caro e isso tem impactado fortemente no bolso do produtor”.

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Essa combinação de crédito mais restrito, endividamento crescente e margens comprimidas aumenta a preocupação do setor produtivo com a viabilidade econômica da próxima safra e reforça a defesa por medidas que preservem a capacidade de investimento no campo.

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