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Crédito problemático em Mato Grosso se aproxima de 20% e pressiona sustentabilidade financeira no campo


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

O maior estado produtor de grãos do país também enfrenta um desafio crescente fora da porteira. Levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostra que o crédito rural considerado problemático já representa 18,22% da carteira de financiamentos em Mato Grosso, o maior percentual da série histórica.

Até abril deste ano, o volume de operações inadimplentes, renegociadas e prorrogadas chegou a R$ 21,79 bilhões. Em 2022, esse índice correspondia a apenas 2,08% da carteira estadual, evidenciando a deterioração das condições financeiras enfrentadas pelos produtores nos últimos anos.

O estudo compara dois momentos distintos da agropecuária brasileira. Entre 2017 e 2021, o setor viveu um ciclo favorável, marcado por maior rentabilidade e capacidade de investimento. Já entre 2022 e 2026, a combinação de custos elevados, juros mais altos e preços menos favoráveis passou a pressionar as margens das propriedades.

A preocupação não está apenas no cenário atual, mas também na capacidade de investimento para os próximos ciclos. Para o superintendente da Famato, Imea e AgriHub, Cleiton Gauer, o aumento do crédito problemático passou a ser uma discussão estratégica para o setor. “É um ponto de grande relevância, que traz preocupação para o desenvolvimento da próxima safra e também para a perpetuidade da agropecuária mato-grossense e brasileira”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Crédito cresceu, mas ficou mais caro

O volume de recursos utilizados pelos produtores rurais em Mato Grosso praticamente triplicou nos últimos anos. O crédito rural passou de R$ 15,58 bilhões na safra 2016/17 para R$ 47,43 bilhões em 2023/24.

Somente o custeio das lavouras de soja e milho avançou de R$ 5,65 bilhões para R$ 15 bilhões no mesmo período. O crescimento acompanhou a expansão da produção agrícola no estado, mas veio acompanhado de uma elevação no custo do financiamento.

As taxas de juros dos programas de crédito aumentaram gradualmente e a taxa Selic chegou a 14,25% ao ano, elevando o custo financeiro das operações e reduzindo a capacidade de novos investimentos por parte dos produtores.

O cenário atual é diferente do ciclo positivo vivido entre 2017 e 2021. Nos últimos anos, o produtor passou a lidar com uma combinação de menor rentabilidade e maior necessidade de capital para manter a atividade.

Inadimplência representa parte do cenário

Apesar do avanço dos indicadores, o setor destaca que os números precisam ser analisados considerando as características do financiamento agrícola em Mato Grosso.

A inadimplência superior a 90 dias chegou a 4,98% da carteira estadual, equivalente a R$ 5,25 bilhões em operações atrasadas. O percentual representa um dos sinais de pressão sobre o crédito rural, mas não mostra toda a exposição financeira dos produtores.

Isso ocorre porque parte dos recursos utilizados no campo vem de operações realizadas fora do sistema oficial de crédito rural, por meio do mercado financeiro e de outros mecanismos de financiamento.

Gauer explica ao Canal Rural Mato Grosso que essa característica faz com que o retrato da dívida rural seja mais amplo do que os dados registrados oficialmente. “O produtor se financia de outras formas, principalmente com o mercado financeiro, e nem todo esse crédito passa por dentro do Banco Central”.

Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Dívidas pressionam capacidade de investimento

O avanço do endividamento começa a refletir diretamente na capacidade de planejamento das propriedades. Com parte da receita comprometida com obrigações financeiras, produtores passam a ter menos margem para realizar investimentos, renovar equipamentos, ampliar tecnologias ou absorver novos custos de produção.

Esse cenário também aparece no aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio. Desde 2023, Mato Grosso lidera o ranking nacional, conforme dados da Serasa Experian. Somente em 2025, foram registrados 332 pedidos no estado, acima de Goiás, com 296, e Paraná, com 248.

Para o setor, o movimento mostra que a dificuldade financeira deixou de estar apenas relacionada ao acesso ao financiamento e passou a envolver a própria estrutura de capital das propriedades.

Produzir bem já não garante resultado financeiro

A eficiência dentro da porteira continua sendo um dos pilares do agronegócio mato-grossense, mas deixou de ser suficiente para garantir equilíbrio financeiro.

O aumento dos custos de produção e a redução dos preços recebidos pelos produtores mudaram o desafio da gestão rural. Além da produtividade, o planejamento financeiro passou a ter um peso maior nas decisões das propriedades.

Na avaliação de Gauer, o produtor precisa lidar com uma equação mais complexa, que envolve custos, preços e eficiência operacional. “Não basta somente produzir bem, como ele tem feito, porque isso não tem se traduzido em resultado financeiro”.

O superintendente destaca que o momento exige maior controle da operação para atravessar o período de pressão sobre as margens. “Conseguir equilibrar todos os pratos, tornar a operação cada vez mais eficiente e conquistar resultados tem sido o dever de casa para todos, principalmente para conseguir atravessar os momentos que temos atravessado nos últimos anos”.


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