A chuva fora de época tem mudado a rotina de produtores que ainda colhem o milho segunda safra em Mato Grosso. Em Nova Mutum, no médio-norte do estado, o excesso de umidade impede a entrada das máquinas nas lavouras, atrasa os trabalhos e aumenta o risco de prejuízos tanto pela perda de qualidade dos grãos quanto pelos gargalos na armazenagem.
Em uma fazenda do município, dos 5.090 hectares cultivados com milho segunda safra, quase metade da área já está pronta para ser colhida. No entanto, a sequência de chuvas impede que as colheitadeiras avancem, obrigando os produtores a esperar uma melhora nas condições do solo.
A permanência do milho no campo, conforme o setor produtivo, preocupa uma vez que a situação atípica para o mês favorece a entrada de umidade nas espigas e pode comprometer a qualidade da produção. Além disso, o atraso provoca um efeito em cadeia que atinge o transporte, a armazenagem e o escoamento da safra.
O gerente de produção da propriedade, Edivandro Milani, conta que fazia anos que não enfrentava uma situação semelhante. Segundo ele, toda a operação precisou ser reorganizada para lidar com uma condição climática que foge ao controle do produtor.
“Há muitos anos que a gente não via isso. Esse ano aconteceu isso e está sendo muito difícil. Estamos tendo que trabalhar com essa adversidade que a gente não consegue ter controle sobre ela. Atrapalha tudo, não consegue colher”, diz ao projeto Mais Milho.
Além do atraso na colheita, Milani explica que a chuva aumenta o risco de danos aos grãos que permanecem nas lavouras. De acordo com ele, algumas cargas chegam em boas condições, enquanto outras já apresentam índices de grãos avariados. A dificuldade para retirar rapidamente a produção do campo também agrava a situação.
“O milho que está em pé ainda começa entrar chuva pela ponteira. Se ela não fechar direito começa a acumular embaixo. Tem carga que não dá nada e tem carga que dá grão avariado. Tem carga que sai com 5%. No armazém o suporte é pequeno então precisa ir colhendo e tirando”.
O problema se estende para fora da lavoura. Com as estradas prejudicadas pelas chuvas, os caminhões demoram mais para chegar às propriedades, reduzindo o ritmo da colheita. “Às vezes acontece que não tem esse fluxo e aí com chuva piora porque a estrada fica ruim, o caminhão não vem, o processo de colheita enrola”.
Enquanto parte do milho continua no campo, outra ocupa o pátio da fazenda à espera de espaço para armazenamento. Para evitar que a produção fique exposta à chuva, a equipe mantém uma força-tarefa que funciona praticamente sem interrupção.
A estratégia é retirar o milho dos caminhões, organizar os armazéns e liberar espaço para que a colheita avance assim que o tempo permitir.
Milani relata ao Canal Rural que o trabalho segue durante o dia e também à noite para tentar acompanhar o ritmo da produção. Segundo ele, as chuvas registradas nos últimos dias pegaram todos de surpresa e exigiram mudanças na logística da fazenda. “Ninguém esperava chuva nessa época”.
O gerente pontua que o armazém se transformou em uma operação contínua. Enquanto as máquinas só conseguem trabalhar durante o dia, a movimentação dos grãos ocorre 24 horas por dia.
A situação é acompanhada de perto pelo Sindicato Rural de Nova Mutum. O presidente da entidade, Paulo Zen, afirma que o volume de chuva registrado nos últimos dias surpreendeu os produtores justamente em um momento decisivo da colheita.
Zen frisa que algumas regiões acumularam volumes próximos ou superiores a 100 milímetros, o que aumenta a preocupação com a resistência das lavouras.
“Nos últimos 10, 12 dias fomos surpreendidos com chuvas, além de vir o frio atrás. A gente não sabe até que ponto algumas variedades vão resistir a isso, então o produtor está correndo para tirar esse milho do campo”.
O presidente do Sindicato Rural afirma ainda que muitos produtores passaram a recorrer ao silo bolsa porque os armazéns não conseguem absorver toda a produção. Ele também chama atenção para o aumento dos custos de secagem dos grãos. “O consumo de cavaco aumentou muito esse ano. Há relatos de produtores que chegaram a 60%. Já gastou toda a lenha que havia feito toda a safra do ano passado e o custo do cavaco hoje já subiu 40%”.
Além do excesso de chuva, as tempestades acompanhadas por ventos fortes têm causado o acamamento do milho em diversas áreas de Nova Mutum. O problema reduz o potencial de colheita e aumenta as perdas na lavoura.
De acordo com o consultor Cledson Guimarães Dias Pereira, algumas áreas atingidas dificilmente terão recuperação. Em determinados talhões, boa parte das plantas ficou completamente no chão, impedindo que as colheitadeiras aproveitem toda a produção.
O consultor afirma que os ventos têm acompanhado praticamente todas as chuvas registradas na região, mantendo os produtores em alerta constante. Apesar disso, as áreas que não foram atingidas apresentaram bom potencial produtivo. “Nas primeiras chuvas que deram aqui o vento foi assustador, e toda vez que tem uma chuva vem uma corrente de vento e aí ficamos apreensivo”.
Mesmo com os desafios provocados pelas condições climáticas, a colheita do milho segunda safra segue mais adiantada que no ano passado. Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), os trabalhos já alcançaram 32,4% da área cultivada no estado, ritmo 5,42 pontos percentuais superior ao registrado no mesmo período da safra passada.
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O post Chuva fora de época trava colheita de milho em Mato Grosso apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.
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