Mato Grosso aparece no topo do Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) brasileiro, com R$ 213,5 bilhões, mas a liderança não afasta a pressão financeira enfrentada por produtores rurais. O número expressa o valor movimentado pela produção dentro das propriedades, mas não indica quanto sobra depois dos custos, juros e dívidas acumuladas.
A diferença entre produção e resultado financeiro ajuda a explicar um cenário que se repete em diferentes regiões do estado: propriedades com alta produção, mas com dificuldade para manter o fluxo de caixa e cumprir compromissos assumidos em safras anteriores.
Dados do Sicor/Banco Central apontam que Mato Grosso tinha, até abril de 2026, R$ 108,03 bilhões em carteira ativa de crédito rural. Desse total, R$ 21,78 bilhões estavam classificados como saldo problemático, reunindo operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas.
O volume inclui R$ 2,20 bilhões em operações em atraso, R$ 5,25 bilhões inadimplentes, R$ 2,58 bilhões prorrogados e R$ 11,76 bilhões renegociados.
O VBP brasileiro chegou a R$ 1,4 trilhão em maio de 2026, conforme dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. Mato Grosso respondeu por 15% desse valor, mantendo a liderança nacional.
O indicador é calculado com base no volume produzido e nos preços recebidos pelos produtores. Por isso, revela a dimensão econômica da atividade, mas não mede rentabilidade, capitalização ou capacidade de pagamento das propriedades.
Na prática, o VBP não desconta custos como juros, arrendamento, frete, armazenagem, tributos, investimentos, perdas climáticas ou dívidas acumuladas de safras anteriores. Ou seja, um VBP elevado, portanto, não significa que a atividade tenha gerado margem suficiente para cobrir todas essas despesas.
É nesse intervalo entre o valor bruto da produção e o que efetivamente permanece no caixa que se concentra parte da discussão sobre o endividamento rural em Mato Grosso, conforme a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja Mato Grosso). A produção segue elevada, mas o custo para mantê-la também aumentou, enquanto parte dos produtores ainda carrega compromissos financeiros de ciclos anteriores.
O diretor administrativo da Aprosoja Mato Grosso, Diego Bertuol, afirma que o acesso ao alongamento das dívidas tem sido um dos entraves.
“Mesmo com laudos técnicos, queda de preços, eventos climáticos e demonstração da capacidade de pagamento, muitos produtores encontram resistência na formalização dos alongamentos”, afirma Bertuol.
O aumento das despesas de produção é outro fator que pesa sobre a conta. Para a safra 2026/27, o custeio da soja em Mato Grosso deve chegar a R$ 4.315,29 por hectare, alta de 3,21% em relação ao ciclo anterior, conforme levantamento do Projeto Custo de Produção Agropecuário (CPA-MT), desenvolvido pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural em Mato Grosso (Senar-MT).
Fertilizantes e corretivos devem registrar alta de 5,40%, enquanto os defensivos agrícolas avançaram quase 11% na comparação com a safra anterior. O ponto de equilíbrio da atividade também subiu 9,13%, elevando a produtividade ou o preço necessário para que a produção se mantenha rentável.
Ao mesmo tempo, o crédito destinado à agricultura encolheu. Entre julho de 2025 e abril de 2026, as concessões para a agricultura, sem Pronaf e sem considerar CPR, caíram de R$ 258,2 bilhões para R$ 229,4 bilhões no país, redução aproximada de 11%.
A queda foi registrada justamente nas linhas mais ligadas ao funcionamento das propriedades. O custeio recuou 12%, o investimento caiu 25% e a comercialização teve redução de 20%. Juntas, as três modalidades tiveram diminuição de R$ 40,6 bilhões no período.
Bertuol observa que o volume anunciado no Plano Safra não corresponde, necessariamente, ao dinheiro que chega à produção. “O volume anunciado no Plano Safra 2025/2026 não reflete, necessariamente, o crédito que chega ao produtor”.
Na soja, principal cultura de Mato Grosso, o financiamento da safra 2025/26 mostra uma participação maior de recursos privados. O sistema financeiro responde por 35,4% do funding, seguido pelas multinacionais, com 30,7%.
Os recursos próprios dos produtores representam 23,5% do financiamento. Já os bancos que operam recursos federais respondem por 5,1%, participação inferior à das revendas, que representam 5,3%.
Os dados indicam que o crédito rural oficial não acompanha, na mesma proporção, a necessidade de financiamento da produção. Com isso, frisa a Aprosoja Mato Grosso, produtores estão cada vez mais recorrendo ao sistema financeiro, às empresas que comercializam insumos e aos próprios recursos para sustentar o custeio.
O presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Costa Beber, avalia que a discussão precisa considerar o desequilíbrio entre custo, crédito, risco e receita. “A dificuldade está no desequilíbrio econômico da atividade: produzir custa cada vez mais, o crédito pesa no fluxo de caixa, os riscos climáticos aumentam e os preços recebidos nem sempre acompanham a elevação das despesas”.
Para ele, a reorganização das dívidas é necessária para preservar a capacidade de produção. “Medidas como o PL 5.122/2023 precisam avançar porque atacam o endividamento rural de forma estruturante. A proposta não pode ser tratada como simples custo fiscal. Ela reorganiza dívidas, viabiliza crédito e recompõe a capacidade de pagamento. Sem isso, ficam em risco a produção, a segurança alimentar e a sustentabilidade econômica da atividade rural”, pontua Beber.
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O post Produção recorde não impede avanço das dívidas no campo em Mato Grosso, afirma Aprosoja apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.
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