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Polarizações percebidas e polarizações reais


Na semana passada, a UFMT, campus Cuiabá, promoveu um debate sobre extremismo em suas diferentes nuances, particularmente o que chamam de extremismo político.

Em um artigo anterior (João e Pedro, MPB e Música Sertaneja, Esquerda e Direita), abordei o tema da polarização política, apresentando o argumento de dois cientistas políticos estadunidenses. Fiorina e Abrams relatam que em suas investigações sobre diferenças de opinião nos EUA, encontraram muito poucas situações que pudessem ser classificadas como polarização. Muitos estudiosos, afirmam eles, têm uma noção intuitiva da polarização como uma distribuição bimodal, o que ocorre quando as preferências dos eleitores se distribuem em dois polos quase que incomunicáveis.

Em artigo publicado em 2024, na revista Social Psychological and Personality Science, Lukas Wolf e Paul Hanel, do Reino Unido, contrariam a visão comum de partidos políticos e da própria mídia de que existe uma polarização entre os eleitores republicanos e democratas nos Estados Unidos. Eles sugerem que essa divisão é mais percebida do que real, com republicanos e democratas superestimando suas diferenças em termos de preferências políticas, engajamento político e apoio à violência partidária.

Embora a polarização real entre os grupos esteja bem documentada, essa evidência geralmente se baseia em testes de diferenças médias e ignora as variabilidades intragrupo. Por exemplo, um tamanho de efeito médio (d de Cohen = 0,50) é considerado uma diferença considerável, mas na verdade reflete uma sobreposição de 80% entre os grupos.

No Brasil, petistas e bolsonaristas têm mais semelhanças do que ambos estão dispostos a reconhecer. Grupos de WhatsApp de bolsonaristas e petistas têm muitas semelhanças no que se refere a: intolerância para divergências, críticas aos seus líderes e dificuldade de avaliar suas propostas com base na realidade. Mas, Wolf e Hanel estão falando de níveis de semelhanças mais significativos no que se refere a grupos humanos.

Paul Hanel adverte que cientistas sociais quantitativospodem estar, inadvertidamente, contribuindo para fomentar as crenças de que os grupos políticos à esquerda e à direita são polarizados, ao se concentrar nas diferenças entre os grupos e negligenciar a importância e a relevância das semelhanças existentes entre eles.

Quando cientistas sociais quantitativistas apresentam os resultados de suas pesquisa, normalmente se concentram em médias, gráficos de linhas, gráficos de barras, níveis de significância (p) ou fatores de Bayes. Esses indicadores expressam fundamentalmentediferenças, ou seja, quando dois ou mais grupos são comparados, os pesquisadores tendem a presumir que uma diferença nula indica alta similaridade, enquanto um resultado estatisticamente significativo reflete baixa similaridade. No entanto, embora a diferença nula possa potencialmente afirmar (ou pelo menos não refutar) alta similaridade, uma diferença significativa e/ou grande não é indicativa de baixa similaridade.

A falta de reconhecimento da importância das semelhanças é significativa porque diferenças entre grupos com os chamados tamanhos de efeito “grandes” podem ocorrer mesmo quando dois grupos são muito mais semelhantes do que diferentes.

Wolf e Hanel descobriram que, apesar das diferenças significativas entre os valores humanos de republicanos e democratas, a sobreposição mediana entre eles foi de 90,9%. Ou seja, pesquisas que se concentram nas diferenças e ignoram a sobreposição podem ser enganosas ao comunicar seus resultados ao público, especialmente à luz de evidências recentes de que a percepção de que os partidários opostos são extremistas leva os indivíduos a adotarem visões mais extremistas.

Politicamente, em termos estratégicos, investigações que ignoram informações sobre semelhanças, desenvolvidas com um foco exclusivo nas diferenças, tendem a não produzir percepções mais precisas dos resultados e atitudes mais positivas em relação ao adversário político , pois alimentam a ideia de que o extremista é o outro por seus valores e visão de mundo.

A maioria das estatísticas inferenciais e tamanhos de efeito utilizados são apropriados apenas para medir diferenças médias, e estudos que “não conseguem” encontrar diferenças significativas são relegados a uma gaveta, literal ou metaforicamente.

Se petistas e bolsonaristas tiverem mais semelhanças do que diferenças, poderão pensar suas estratégias políticas em outros termos. Poderão, por exemplo, reformular a visão distorcida de uma polarização irreconciliável. Isso não vai mudar o mundo, mas fica mais fácil conversar sobre ele. Concorda, leitor?

André Luís Ribeiro Lacerda – Psicólogo social, sociobiologista e professor de ciência e tecnologia na UFMT, campus Várzea Grande.

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