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Produtores de MT pedem fôlego financeiro para continuar no campo


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A colheita do milho segue em andamento em Mato Grosso, mas a atenção de muitos produtores já está voltada para a próxima safra. Entre margens apertadas, custos elevados, juros mais altos e incertezas climáticas, agricultores relatam dificuldades para manter o planejamento das propriedades e defendem medidas que permitam atravessar o atual momento sem comprometer os investimentos futuros.

A preocupação não é isolada. De acordo com estimativas do setor, o endividamento dos produtores rurais já alcança cerca de R$ 170 bilhões no Brasil. Em Mato Grosso, a combinação entre queda na rentabilidade e aumento das despesas tem pressionado o caixa das fazendas.

Em Diamantino, onde cerca de 270 mil hectares de milho foram cultivados nesta safra, o presidente do Sindicato Rural, Altemar Kroling, afirma que o produtor precisa lidar não apenas com os desafios econômicos, mas também com a falta de previsibilidade para os próximos meses.

Segundo ele, a definição das estratégias para o plantio da soja ocorre em um cenário de muitas dúvidas. “A gente está iniciando aí uma safra de milho e montando a estratégia do plantio de soja com uma indefinição de clima também”, relata ao Patrulheiro Agro. Para Kroling, a falta de perspectiva sobre o comportamento do mercado e do clima torna o ambiente ainda mais delicado. “A gente não tem certeza de nada do que vai ser daqui seis meses”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Produção sem liquidez

Entre os produtores que acompanham o cenário com cautela está Rodrigo Konageski. A família cultivou nesta safra 4,5 mil hectares de milho e 4,7 mil hectares de algodão. Para a próxima temporada, a previsão é semear 9,4 mil hectares de soja.

As sementes e os fertilizantes já foram adquiridos, mas a compra dos defensivos ainda não foi concluída. A decisão está ligada ao momento financeiro das propriedades e às incertezas sobre os custos da próxima safra.

Konageski explica que parte das áreas ainda aguarda melhores condições para a colheita do milho, reduzindo despesas com secagem e armazenagem. Em relação à produtividade, os resultados variam conforme o comportamento das chuvas ao longo do ciclo.

Apesar disso, o principal desafio está fora da porteira. De acordo com ele, a produção existe, mas a comercialização não tem garantido a rentabilidade necessária para fechar as contas.

“Você tem o produto, mas não tem liquidez”, afirma. Ao mesmo tempo, observa que os custos de produção continuam avançando. “Quando começa a fazer os custos de produção da safra seguinte você vê que aperta ainda mais a margem”.

O agricultor também cita o peso da tributação e dos custos logísticos enfrentados pelos produtores mato-grossenses. “Aqui tudo é mais caro e na hora de vender o seu produto, tanto soja, milho ou algodão, é o mais barato do mundo”, diz à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.

Diante desse cenário, ele afirma que o produtor tem evitado investimentos que não sejam considerados essenciais. “A tomada de decisão do produtor tem que ser bem consciente, para não inventar despesa desnecessária”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Dificuldade para renovar financiamentos

A situação é semelhante em São José do Rio Claro. Presidente do Sindicato Rural do município, Aparecido Rodrigues afirma que há anos não via um ambiente de tanto desânimo entre os produtores.

Conforme relata, muitos agricultores encerraram a safra sem os recursos necessários para quitar compromissos financeiros e iniciar um novo ciclo produtivo. Ao mesmo tempo, enfrentam condições mais duras para renovar operações de crédito.

“Ninguém está querendo dar calote, quer pagar a conta, mas quer condição para pagar a conta”, destaca. O problema, segundo ele, é o aumento das taxas cobradas pelas instituições financeiras. “Você financiou a safra com juro de 11%, agora ele quer renovar, mas quer 22%”.

Para Rodrigues, sem alternativas de renegociação, muitos produtores terão dificuldades para continuar produzindo. “Tem que fazer um negócio para o cara continuar trabalhando e pagar a conta dele”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Quando o seguro não resolve

O agricultor Odair Garcia Rodrigues conhece bem essa realidade. Em 2024, ele cultivou 2,3 mil hectares de soja e contratou aproximadamente R$ 3 milhões em crédito rural para custear parte da safra. A operação incluía seguro agrícola equivalente a cerca de 10% do valor financiado.

A estiagem comprometeu o desenvolvimento da lavoura e reduziu drasticamente a produtividade. Ele conta que em áreas que normalmente produziam 65 sacas por hectare colheram apenas 27 sacas.

Mesmo diante das perdas, o produtor afirma que não recebeu a cobertura esperada da seguradora. Conforme relata, critérios adotados durante a vistoria reduziram o volume de prejuízos reconhecidos pela empresa.

“Eu tive que pagar o seguro e não fui ressarcido”, afirma.

Sem conseguir quitar os compromissos assumidos, Odair diz enfrentar agora cobranças bancárias e admite que não possui condições de liquidar a dívida nas condições atuais. “Tem que parcelar aí por muito tempo, tem que ter uma prorrogação de dívidas, pelo menos é o que a gente espera”.

Projeto em discussão

Em meio às dificuldades enfrentadas pelos produtores, cresce a expectativa em torno do Projeto de Lei 5122/2023, que cria uma linha especial para renegociação das dívidas rurais, com juros reduzidos e prazos mais longos para pagamento.

A proposta já foi aprovada pelo Senado e aguarda nova análise da Câmara dos Deputados.

Para lideranças do setor, medidas desse tipo são fundamentais para garantir que os produtores consigam permanecer na atividade. Aparecido Rodrigues pontua que muitos agricultores convivem hoje com o receio de bloqueios judiciais e perda de patrimônio, mas reforça que a intenção continua sendo honrar os compromissos assumidos.

“Ninguém deixou de pagar porque queria”, ressalta. “A única coisa que a gente tem de bom é o nome. Então tem que preservar”.

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