Com projeção de bater 6,18 milhões de m³ na safra atual e a meta ousada de dobrar o volume em dez anos, o biocombustível do Cerrado atrai o monitoramento estratégico da maior economia do planeta.
A arrancada vertiginosa dos biocombustíveis no coração do Brasil furou a bolha do mercado doméstico e colocou os maiores players globais em estado de vigilância ativa. Em uma movimentação que evidencia o peso geopolítico do estado, representantes oficiais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) desembarcaram em Cuiabá para uma agenda técnica inédita com a diretoria do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). O objetivo central do governo americano foi decifrar os números, a velocidade de crescimento e a eficiência operacional da indústria do etanol de milho.
O encontro promoveu uma intensa troca de dados e análises sobre o mercado de combustíveis limpos. Recebidos pelo superintendente do instituto, Cleiton Gauer, o economista de agricultura do USDA, Timothy O’Neil, e a especialista em agronegócio, Thiemi Hayashi, mapearam a curva de expansão das indústrias instaladas em polos do Cerrado. O avanço consolidado de Mato Grosso redesenha as cadeias de suprimentos e passa a rivalizar diretamente com o cinturão de milho norte-americano (Corn Belt) no fornecimento de energia renovável.
Os dados consolidados apresentados à comitiva norte-americana revelam a robustez do setor industrial do estado. De acordo com as estimativas oficiais do Imea, a produção exclusiva de etanol de milho em Mato Grosso está projetada para atingir a marca histórica de 6,18 milhões de metros cúbicos na safra 2025/26. O volume consolida um salto expressivo de 9,89% em comparação direta com o ciclo operacional anterior.
Somado ao desempenho do etanol derivado da cana-de-açúcar, a engrenagem energética estadual exibe fôlego renovado. Confira o balanço das projeções de volumetria para a temporada atual:
- Etanol de Milho: Previsão de 6,18 milhões de metros cúbicos, com expansão de 9,89% na safra 2025/26;
- Etanol de Cana: Estimativa de 1,09 milhão de metros cúbicos, registrando alta moderada de 1,37%;
- Volume Consolidado: A somatória dos dois segmentos deve injetar 7,27 milhões de metros cúbicos de combustível no mercado, crescimento geral de 8,52%;
- Horizonte 2034: As projeções a longo prazo indicam que o estado possui potencial estrutural para alcançar 15,02 milhões de metros cúbicos até o ciclo 2033/34, dobrando o patamar produtivo em dez anos.
Reconhecimento institucional e intercâmbio técnico
Para a liderança do Imea, a vinda oficial da equipe de inteligência agrícola dos EUA funciona como uma chancela de credibilidade internacional para as metodologias de pesquisa desenvolvidas em Mato Grosso. Embora os canais já mantivessem contatos prévios e intercâmbios técnicos pontuais, esta marcou a primeira visita presencial de uma delegação do USDA à sede do instituto.
“Esse reconhecimento demonstra que estamos no caminho certo, desenvolvendo estudos e informações de alta qualidade com os recursos que temos disponíveis. Foi uma oportunidade valiosa de mostrar o que temos feito na prática, entender os focos de interesse deles e perceber o quanto eles acompanham minuciosamente cada passo do desenvolvimento do setor em nosso estado”, ponderou o superintendente Cleiton Gauer.
O xadrez das exportações e o mercado global
Os bastidores do encontro também abriram espaço para debates técnicos sobre o posicionamento dos dois países no xadrez do comércio exterior. Os técnicos norte-americanos demonstraram forte interesse em compreender os impactos práticos da expansão brasileira sobre os fluxos globais de comércio. Entre os pontos questionados, estiveram o crescimento acelerado da oferta interna, a dinâmica de exportação e a concorrência direta com o etanol dos EUA enviado para o Nordeste do Brasil.
A transformação do milho safrinha em combustível, ração de alta qualidade (DDG) e óleos industriais dentro do território mato-grossense altera a dinâmica tradicional de exportação de grãos brutos. Ao verticalizar a produção, o estado reduz a dependência de corredores logísticos saturados e passa a exportar produtos industrializados com alto valor agregado e menor pegada de carbono.