A queda no preço do milho e a disparada dos custos de produção começam a mudar o planejamento de produtores rurais em Mato Grosso. Em Jaciara, agricultores relatam dificuldade para fechar as contas mesmo diante de lavouras com boa produtividade e já projetam redução de investimentos para a próxima safra.
Nesta temporada, o agricultor Murilo Degaspari Fritsch cultivou 1,5 mil hectares de milho verão e outros 2,8 mil hectares de milho segunda safra. Segundo ele, as condições climáticas favoreceram o desenvolvimento das lavouras desde o início do ciclo e o resultado deve ficar próximo ao registrado no ano passado.
O frio registrado nos últimos dias atrasou parte da colheita do milho verão, mas sem comprometer o potencial produtivo. Conforme Murilo, “o clima ajudou bastante desde o começo, bastante chuva, a lavoura se desenvolveu bem. Está bonito, está um resultado satisfatório a lavoura, o mesmo padrão do ano passado onde tivemos uma excelente produção”.
Apesar do bom desempenho no campo, a rentabilidade ficou comprometida. O produtor explica ao Patrulheiro Agro que o milho verão foi plantado com expectativa semelhante à de 2025, quando a saca chegou perto de R$ 80 na região de Jaciara.
Neste ano, porém, o cenário mudou. Murilo frisa que a saca gira entre R$ 42 e R$ 43, sem reação do mercado e com dificuldade de comercialização. “Tivemos essa surpresa. É um valor ruim e não tem comprador”.
Ele destaca que o custo do milho verão ficou elevado, próximo de R$ 5 mil por hectare, o que reduziu drasticamente a margem do produtor. “Milho há R$ 40 não paga a conta. Então para a próxima safra já desmotiva plantar o milho verão”, afirma ao Canal Rural Mato Grosso.
Dados do projeto CPA-MT, realizado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e o Senar Mato Grosso, apontam que o custo do milho subiu 2,32% em abril e chegou a R$ 3.772 por hectare para a safra 2026/27.
Além da baixa rentabilidade, o aumento no preço dos fertilizantes amplia a preocupação para a próxima safra. O produtor relata que o fósforo praticamente dobrou de preço, enquanto o potássio e os nitrogenados seguem em forte alta.
Diante do cenário, ele afirma que a estratégia será economizar na soja e aproveitar a fertilidade já existente no solo. “Pensando na próxima safra de soja, devemos usar a reserva poupança que temos no solo e economizar, e torcer para o clima ser favorável também”.
O produtor rural Everton Jorge Schinoca afirma que a principal dificuldade hoje é encontrar alternativas para manter a atividade viável economicamente. Segundo ele, o produtor segue trabalhando, mas enfrenta dificuldades para fechar as contas.
Schinoca destaca que as usinas de etanol de milho ajudam a sustentar o mercado em Mato Grosso. “Se não fosse essas indústrias de etanol de milho o milho hoje valia R$ 12 reais”, comenta à reportagem.
Mesmo assim, o produtor avalia que o cenário para a próxima safra preocupa, principalmente pelo alto custo da adubação nitrogenada. Conforme Schinoca, retirar tecnologia do milho significa comprometer diretamente a produtividade. “A estratégia de manejo está difícil de encontrar para o milho, porque se você tira o nitrogenado dele você não produz”, enfatiza.
Ele calcula que hoje são necessárias entre 85 e 95 sacas por hectare apenas para cobrir os custos da próxima safra. Diante disso, acredita em redução significativa da área cultivada na propriedade. “O milho vai perder espaço dentro da nossa propriedade e não é pouco não na próxima safra”, diz.
A família Schinoca está prestes a iniciar a colheita de 1,4 mil hectares de milho segunda safra em Jaciara. O produtor pontua que as chuvas registradas recentemente evitaram perdas ainda maiores nas lavouras.
Ele estima redução de cerca de 10% na produtividade esperada após o período de estiagem. “Esse tempo de seca que deu estava no limite, prejudica a produtividade”, relata.
O presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, afirma que muitos produtores plantaram milho fora da janela ideal por não terem outra alternativa após a compra antecipada de sementes e fertilizantes.
Ele frisa que a redução das chuvas em várias regiões aumenta ainda mais a preocupação com a rentabilidade do cereal, justamente em um momento em que o milho vinha sustentando parte das margens do produtor rural.
Beber também destaca os reflexos dos conflitos internacionais sobre o mercado de fertilizantes, principalmente envolvendo Rússia, Ucrânia e Irã, importantes fornecedores globais de insumos.
Diante do aumento nos custos, a tendência, segundo ele, é de redução no uso de tecnologia nas lavouras. “A tendência é o produtor o ano que vem, devido a esses altos custos, diminuir mesmo os adubos nitrogenados no milho e talvez trabalhar com menor tecnologia visando reduzir os custos para que ele consiga ter ainda uma rentabilidade razoável”, afirma ao Canal Rural Mato Grosso.
Para a soja, o custeio projetado da safra 2026/27 chega a R$ 4.286 por hectare, alta de 1,88% em relação ao mês anterior. O avanço foi puxado principalmente pelos fertilizantes e defensivos agrícolas, impactados pelas tensões no Oriente Médio e pelos reflexos no mercado internacional.
O levantamento aponta ainda que a soja precisará ser vendida a R$ 68,65 a saca para cobrir os custos da próxima safra, valor 8,42% acima do ponto de equilíbrio registrado no ciclo anterior.
Conforme Lucas Costa Beber, produtores já falam até em zerar parte do uso de fertilizantes diante da renda apertada dos últimos anos. “O produtor já por estar com a renda estrangulada já nos últimos anos ele tende a diminuir o máximo de tecnologia já que ele não vê perspectiva positiva no cenário atual”, finaliza.
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