Categories: Business

Juros americanos ligam o ímã de dólares


Imagem feita com IA

Nos últimos meses, o debate econômico no Brasil parece resumido a uma eterna queda de braço política. De um lado, acusa-se o governo de gastar demais. De outro, critica-se o Banco Central pelos juros altos.

Embora a responsabilidade fiscal doméstica seja vital, focar apenas no cenário interno é um erro. Explicar a recente desvalorização do Real apenas por Brasília é olhar para a gota d’água e ignorar o oceano.

A verdade sobre o dólar alto está bem longe do Brasil. Ela nasce em Nova York e se espalha por um planeta afogado em dívidas.

O ímã do dinheiro global: entenda por que a alta dos juros nos Estados Unidos suga os dólares de países como o Brasil, forçando a desvalorização do Real

Para entender a raiz do problema, precisamos olhar para as chamadas Treasuries de 10 anos. Esses papéis são os títulos da dívida pública do governo dos Estados Unidos.

Advertisement

Considerados o investimento mais seguro do mundo, esses títulos viram sua rentabilidade disparar para a faixa de 4,60%. Esse é o maior patamar registrado desde 2007.

Quando o governo americano decide pagar mais juros, um magnetismo financeiro global entra em ação. O mecanismo por trás disso é puramente matemático.

Imagine um investidor estrangeiro que mantém seu dinheiro no Brasil, correndo os riscos naturais de um mercado emergente. De repente, a maior potência econômica do planeta oferece um retorno historicamente alto e garantido em dólares.

O resultado é imediato. O capital internacional arruma as malas e viaja de volta para a segurança da economia americana.

A debandada do agro: além do efeito dos juros, a forte queda no preço das commodities agrícolas faz o investidor abandonar os grãos e correr para os papéis de curto prazo mais fortes

Para piorar esse cenário de fuga, presenciamos uma forte queda no preço das commodities agrícolas. Percebendo a perda de fôlego desse mercado, os investidores deixam os contratos de grãos e alimentos para trás e correm exatamente em busca de papéis mais fortes e seguros.

Advertisement

Como consequência direta dessa dupla debandada, há muito menos dólares circulando no mercado brasileiro. Pela lei da oferta e da procura, a moeda americana encarece e o Real desvaloriza.

A bomba-relógio de US$ 350 trilhões: o planeta nunca esteve tão endividado, e o custo para manter essa montanha de compromissos viva disparou

A situação ganha contornos dramáticos quando adicionamos o ingrediente mais perigoso da atualidade: o endividamento global. O planeta acumula hoje uma dívida astronômica na casa dos US$ 350 trilhões.

Esse valor equivale a assustadores 310% de tudo o que a humanidade consegue produzir em um ano. Nós nunca estivemos tão alavancados financeiramente.

Para entender onde está o perigo, precisamos olhar a anatomia exata desse endividamento. O bolo é liderado pelos Governos, com cerca de US$ 106 trilhões, seguidos de perto pelas empresas não financeiras, que respondem por cerca de US$ 100 trilhões.

As famílias globais carregam cerca de US$ 65 trilhões em compromissos, enquanto o Setor financeiro responde pelo restante desse total. Essa expansão recente tem motores muito claros e potentes: os Estados Unidos, a China e a Europa.

Advertisement

O grande risco reside no custo de manutenção de todas essas fatias juntas. Governos, corporações e cidadãos mundiais contraíram grande parte dessas dívidas quando os juros globais estavam perto de zero.

Agora, com o referencial americano na casa de 4,60%, a “rolagem” das dívidas se tornará proibitivamente cara para todos os setores. Rolar a dívida significa renovar os empréstimos antigos que estão vencendo hoje.

O dinheiro de estados, corporações e indivíduos que deveria ir para investimentos, infraestrutura e consumo muda de rota. Ele passa a ser drenado exclusivamente para o pagamento desses juros mais altos.

O choque de realidade: a desvalorização cambial não é culpa do debate partidário doméstico, mas sim de uma força gravitacional macroeconômica

Portanto, quando testemunhamos que o Real perdeu valor frente ao dólar neste momento, estamos diante de um choque de realidade sistêmico. Trata-se de uma força gravitacional da macroeconomia.

Esse movimento é provocado pelo encarecimento do crédito no epicentro do capitalismo financeiro. Ele é amplificado pelo pânico de um mercado global superendividado em todas as suas esferas.

Advertisement

Reduzir a flutuação do câmbio atual a meras declarações políticas ou picuinhas partidárias locais é um equívoco didático. O Brasil não está isolado do resto do mundo.

O Real está apanhando não porque o cenário interno mudou drasticamente de ontem para hoje. A moeda sofre porque o mundo inteiro está recalculando a rota para se proteger de uma tempestade global que começou lá fora.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

O post Juros americanos ligam o ímã de dólares apareceu primeiro em Canal Rural.

Advertisement
agro.mt

Recent Posts

Mato Grosso define governador e dois senadores no primeiro turno

Mato Grosso definiu no primeiro turno os nomes que vão comandar o estado e representar…

3 minutos ago

Famílias com tradição na política de Mato Grosso são derrotadas e ficam sem mandato em 2027

Lista inclui Janaína e Jéssica Riva, Jayme e Júlio Campos, Emanuelzinho Pinheiro, além de candidatos…

13 minutos ago

TSE atuará para reduzir abstenção no 2º turno após 1º turno registrar 33,4 milhões de faltosos

Presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, aponta aperfeiçoamento de campanhas; índice de 21,08% é o…

49 minutos ago

Umidade do solo melhora em Mato Grosso no início de outubro, diz EarthDaily

A umidade do solo em Mato Grosso, que ficou abaixo da média durante praticamente todo…

1 hora ago

Bioenergia movimenta R$ 586,6 milhões em salários em Mato Grosso

A indústria de bioenergia colocou R$ 586,6 milhões em salários na economia de Mato Grosso…

1 hora ago

Três estados aceleram plantio de soja 2026/27; excesso de chuvas preocupa no Sul

O plantio de soja 2026/27 já começou no Brasil e avança em ritmo superior ao…

1 hora ago