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Utilização de drones agrícolas em manejos fitossanitários: uma estratégia promissora sob o olhar desconfiado do campo – MAIS SOJA


A Revolução Verde de 1940 transformou o campo por meio de inovações tecnológicas, como a adição de tratores agrícolas para realizar semeadura, manejos fitossanitários e colheita, que permitiram que os produtores pudessem aumentar a produção de suas atividades agropecuárias a patamares jamais alcançados antes. Análogo às inovações com os tratores agrícolas, os veículos aéreos não tripulados (VANTs) agrícolas vieram para somar e incrementar os ganhos do produtor rural.

Os drones, como comumente são chamados, tem como principal premissa as operações aéreas controladas remotamente (ANAC, 2023) e oportunizaram que a agricultura brasileira explorasse novas formas de realizar o trabalho no campo. Com o advento da tecnologia e sua evolução exponencial, a agricultura necessitou adaptar sua cadeia produtiva buscando produzir mais com custos otimizados (ARTIOLI; BELONI, 2016) e é nesse sentido que as novas ferramentas entram em ação fomentando as produções com novos métodos de cultivo.

O método que melhor se enquadra nesse sentido é a Agricultura de Precisão (AP), proporcionando menor impacto negativo ambiental e atendendo as necessidades da lavoura de maneira mais eficiente (OLIVEIRA et al., 2020), produzindo na mesma área uma maior produtividade, com técnicas que aumentam a eficiência dos insumos utilizados, sempre tendo as tecnologias mais avançadas como fiel aliado.

Com isso, os drones se tornaram ferramentas de notório destaque em vários aspectos dentro do meio rural, podendo ser empregado a eles a tarefa de mapeamento planialtimétrico, em que é feito um levantamento de dados planos/coordenadas do talhão a fim de dimensionar a área e o perímetro da lavoura, além de captar dados de diferentes alturas, conforme a declividade da área (CASTRO et al., 2023). Outra funcionalidade dos VANTs que também está ganhando muito espaço no meio rural é a pulverização de agrotóxicos (Figura 1).

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Figura 1: Pulverização de fungicida na cultura da soja  com drone, modelo T16.
Fonte: Autor, 2025

A pulverização com a utilização de drones está cada vez mais ganhando apreço pelos produtores rurais, não por menos que a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) registrou um salto no número de drones registrados entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025, que foi de 674 para 7.312, um aumento de quase 10 vezes. Tal crescente apresenta-se ainda mais evidente quando se observa, na figura 2, o aumento dos registros de drones na ANAC no estado do Paraná.

Figura 2: Evolução do cadastro de drones no estado do Paraná entre 2017 e 2022.
Fonte: Daniel e Dalbianco (2023).

Compreende-se, portanto, que a crescente da aquisição dos drones está muito voltada para suas eficiências laborais dentro da lavoura, corroborando com a ideologia da AP em que busca utilizar ferramentas com tecnologia empregada a fim de produzir com menores gastos e alavancando lucros com técnicas que promovam a precisão e otimização de recursos como tempo, mão de obra, insumos, depreciação, entre outros (INAMASU et al., 2014). Tal fato se comprova quando observamos pesquisas que mostram a eficiência da pulverização com VANTs (Figura 3).

Figura 3: Depósito de gotas de fungicidas na cultura da soja por diferentes volumes de aplicação realizados por drone (volumes de 4, 7 e 10 l/ha) e autopropelido (70 e 120 l/ha) pulverizadores.
Fonte: RODRIGUES (2022)

No trabalho acima ficou claro perceber a capacidade do drone pulverizador em equivaler sua eficácia com o pulverizador autopropelido, visto que no referido estudo foram produzidos dados indicando que o volume de calda de pulverização do drone de 10 l/ha se equivalem à pulverização com 120 l/ha usando autopropelido na ótica da densidade de gotas, considerando o acúmulo de gotas no terço inferior da cultura da soja, mesmo ela já estando no estágio fenológico R5 (FEHR; CAVINESS, 1977), onde seu dossel está completo e fechado (RODRIGUES, 2022). O efeito downwash, que na aplicação com drone é causado pela movimentação de ar por meio das hélices, é o principal responsável por promover o contato da calda de pulverização ao terço inferior das plantas, por promover o movimento de abertura do dossel (OLIVEIRA et al., 2021).

Tabela 1: Controle de plantas daninhas após aplicação de herbicida utilizando diferentes volumes de calda com drone (4, 7 e 10 L/ha) e autopropelido (70 e 120 L/ha) pulverizadores.

* significativo pelo teste F (P < 0,05). Médias seguidas pela mesma letra na coluna não diferem pelo teste de Tukey (P < 0,05).

ns = não significativo.

Fonte: adaptado de Rodrigues (2022).

A tabela 1 evidencia mais um trabalho comparativo acerca da eficiência de aplicação entre autopropelido e drones de pulverização, evidenciando que os VANTs pulverizadores têm qualidade de aplicação similar aos tratores de pulverização, tornando-se uma ótima alternativa para manejos de agrotóxicos dentro da lavoura. O referido estudo explica que a taxa de aplicação, ou volume de calda, de 10 l/ha realizados com drone apresentou 93% de eficiência sobre o controle de plantas daninhas no período de 28 dias após a aplicação.

Quando voltamos a atenção ao autopropelido, com uma taxa de 120 e 70 l/ha, tem-se como controle das plantas infestantes de 97% e 99% respectivamente. Desse modo, a utilização dos drones agrícolas proporciona manejos localizados com eficiência similar à aplicação com autopropelido, todavia, sem ser na área total e sim onde exige aplicação concentrada, com maior incidência de pragas, doenças ou plantas daninhas em comparação com o restante da lavoura. Diminuindo assim, desperdícios de produtos e dificultando a resistência de pragas, doenças e plantas daninhas (ARTIOLI; BELONI, 2016; RAETANO et al., 2022).

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Entretanto, a aceitação dessa tecnologia de aplicação sofre resistência junto aos produtores e demais integrantes da comunidade agrícola devido ao fato da interpretação equivocada de que os drones de pulverização irão substituir aviões de pulverização e tratores autopropelidos.

Porém, fatores como o alto custo de aplicação na lavoura e a eficiência na aplicação em área total, assim como condições climáticas ímpares para a realização da aplicação com VANTs limitam e determinam a não utilização desta tecnologia para área total. Nesse sentido, é fundamental realizar mais estudos acerca da eficiência da aplicação via drone, entendendo os fatores que influenciam na aplicação de agrotóxicos, como volume de calda e densidade de gotas para averiguar a real qualidade do VANT pulverizador.

Sendo assim, é possível concluir que a aplicação realizada com drones de pulverização podem ser extremamente importantes e eficazes, respeitando sempre os limites da tecnologia e entendendo seu propósito. Entender que as aeronaves remotamente pilotadas de pulverização são mais uma ferramenta para a comunidade agrícola é de extrema importância para a evolução da tecnologia e melhoramento nas aplicações, assim como incremento no lucro do produtor.

Sobre o autor: João Francisco Fornari Viana – Acadêmico do 5º semestre do curso de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria, Bolsista do grupo PET Agronomia E-mail: joao04.francisco@gmail.com

Coautores: Fábio Joel Kochem Mallmann, Natália Sornberger Adam, Thiago Platero Cenedese, Tamara Trevisan

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Referências bibliográficas citadas no texto

AGÊNCIA NACIONAL DE AVIAÇÃO CIVIL (ANAC). Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT). ANACpedia. Brasília: ANAC, 2023. Disponível em: https://www2.anac.gov.br/anacpedia/por-por/tr584.htm

ARTIOLI, F.; BELONI, T. Diagnóstico do perfil do usuário de drones no agronegócio brasileiro. Revista iPecege, v. 2, n.3, p. 40-56, 2016.

ARTIOLI, J. A.; BELONI, T. Aplicações de veículos aéreos não tripulados (VANTs) na agricultura de precisão. Revista Brasileira de Agricultura de Precisão, v. 1, n. 1, p. 1–9, 2016.

CASTRO, F. R.; MALDANER, I. C.; PES, L. Z.; FARIAS, M. S.; MÜLLICH, A.; PAVÃO, L. F. S.; RUBERT, K.; GUARIENTI, V. F. Planejamento de linhas de operações agrícolas. Mapeamento Planialtimétrico. Santa Maria: Colégio Politécnico da Universidade Federal de Santa Maria, 2023. Modalidade: descrição de caso técnico.

DANIEL, D. F.; DALBIANCO, A. B. Tecnologia de pulverização com drones: panorama, oportunidades, perspectivas futuras e desafios na agricultura moderna. Revista Plantio Direto Digital, 2023. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/375096302

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FEHR, W.R.; CAVINESS, C.E. Stages of soybean development. Ames: Iowa State University of Science and Technology, 1977. Special Report, v. 80. GODOY, C. V. Atualizações no controle de doenças foliares na cultura da soja. Londrina: Embrapa Soja, 2015. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1010782/1/Atualizacoesnocontrolededoencasfoliaresnaculturadasoja1.pdf.

INAMASU, R. Y.; BERNARDI, A. C. C. Agricultura de precisão. In: BERNARDI, A. C. C.et al. (org.). Agricultura de precisão: resultados de um novo olhar. Brasília, DF: Embrapa,2014. p. 21-33
(PDF) AGRICULTURA DE PRECISÃO: o uso da agricultura digital no campo.
OLIVEIRA, A. J. de; SILVA, G. F. da; SILVA, G. R. da; SANTOS, A. A. C. dos; CALDEIRA, D. S. A.; VILARINHO, M. K. C.; BARELLI, M. A. A.; OLIVEIRA, T. C. de. Potencialidades da utilização de drones na agricultura de precisão. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v. 6, n. 9, p. 64140–64149, set. 2020. DOI: https://doi.org/10.34117/bjdv6n9-010. Disponível em: https://brazilianjournals.com/ojs/index.php/BRJD/article/view/15976.

OLIVEIRA, V. R. de; BASSETTO FILHO, J. J.; ESTABELE, D. L.; OLIVEIRA, T. L. de; GOMES, L. R. O.; PINHO, C. A.; MATULAITIS, A. K. Y.; ADEGAS, F. S.; SOARES, R. M.; ROGGIA, S. Depósito de inseticida em diferentes estratos da planta de soja obtido na pulverização com drone. In: JORNADA ACADÊMICA DA EMBRAPA SOJA, 16., 2021, Londrina. Resumos expandidos. Londrina: Embrapa Soja, 2021. p. 157–163. (Embrapa Soja. Documentos, 440). Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1139097/1/PGS-157-163-n.pdf.

RAETANO, C. G.; SILVA, J. E. da; OLIVEIRA, R. B. de; ANTUNIASSI, U. R. Tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas com drones: desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Tecnologia Aplicada nas Ciências Agrárias, v. 15, n. 1, p. 1–10, 2022.

RODRIGUES, D.M. Controle de plantas daninhas e da ferrugem asiática na cultura da soja com VANT pulverizador. 2022. Tese (Doutorado em Agronomia) – Universidade Estadual Paulista (Unesp), Botucatu, 2022. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/250144. Acesso em: 8 fev. 2025.

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