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Café: a euforia dos preços está chegando ao fim?


Foto: Pixabay

O mercado de café viveu dois anos de euforia para quem produz. Entre quebras de safra e estoques críticos, vimos o arábica tocar patamares históricos de 440 centavos de dólar por libra-peso.

Mas o cenário de abril de 2026 é outro: o mercado já precifica a abundância. Com o grão girando em torno de 295 centavos, o ciclo de alta extrema terminou e a “normalização” chegou.

O principal vetor da pressão negativa sobre os preços é, ironicamente, o sucesso do campo brasileiro. O Brasil, que detém 40% do mercado global, caminha para uma colheita que pode ser a maior da história.

Dados da StoneX revisaram a produção para 75,3 milhões de sacas, um salto de 20,8% sobre o ciclo anterior. Mesmo com números mais conservadores da Conab, a realidade mostra que os investimentos em tecnologia surtiram efeito.

O Brasil caminha para uma colheita que pode ser a maior da história.

Para o analista, o número que importa é o balanço global. Projeta-se uma produção mundial de 182 milhões de sacas para um consumo que estacionou na casa dos 172 milhões.

Esse superávit retirou o senso de urgência das torrefadoras internacionais. Elas não precisam mais “brigar” pelo grão verde; podem esperar a safra entrar. Isso deve empurrar as cotações para baixo até o fim de 2026.

A valorização do real agrava o cenário: com o dólar abaixo de R$ 5, a conversão resulta em menos reais no bolso. Você entrega a mesma saca e recebe menos para cobrir custos que continuam altos.

A pergunta recorrente no Canal Rural é: “Mas e se o clima virar?”. Sim, o clima pode rasgar os relatórios. Uma geada severa no segundo semestre pode sustentar os preços, mas esperar pelo desastre não é estratégia, é aposta.

O momento exige hedge e mercado futuro para aproveitar os repiques de preços. É preciso atenção ao câmbio, pois o dólar volátil pode anular os ganhos da queda externa ou salvar a receita em reais.

A qualidade também surge como diferencial. Em anos de superávit, o mercado se torna mais seletivo e os cafés especiais sofrem menos com a queda.

O cafeicultor brasileiro provou sua eficiência tecnológica; agora, precisa provar sua eficiência financeira. O cenário é de preços em busca de um novo piso, mais baixo que o atual.

O lucro se realiza na venda estratégica, não apenas na saca estocada no armazém.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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