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Nova commodity do agro? DDG se consolida como peça-chave da nova indústria do milho no Brasil


Foto: Divulgação

O crescimento da indústria de etanol de milho no Brasil está criando um novo protagonista dentro do agronegócio em 2026: o DDG, sigla para distillers dried grains, ou grãos secos de destilaria. Muito se fala sobre o insumo, mas o que de fato ele significa?

O DDG é obtido durante o processo de fermentação do milho para produção de etanol. Nele, os componentes do grão que não são convertidos em álcool, como proteínas, fibras e lipídios, permanecem concentrados no produto final, que passa a ser utilizado na alimentação animal. No entanto, especialistas do setor dividem opiniões quanto à sua categorização como coproduto ou subproduto do milho. 

Carlos Cogo, sócio-diretor de consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio, acredita que o DDG deve ser definido mais adequadamente como coproduto, já que não é um resíduo secundário de baixa relevância econômica dentro da indústria de etanol de milho.

“Ao contrário, trata-se de um componente central da rentabilidade das usinas, com mercado próprio, demanda crescente e participação importante na receita das plantas industriais. Em muitos casos, a venda do DDG compensa parcela relevante do custo do milho utilizado como matéria-prima, o que evidencia sua função econômica estrutural dentro do modelo de negócios do etanol de milho”, aponta.

“Quando a gente analisa toda a questão de receita dentro das indústrias de etanol, ele vai ser o principal percentual. Mas o DDG é um conceito interessante, e a gente vê as usinas fomentando bastante essa parte de comercialização”, destaca Rodrigo Silva, coordenador de inteligência de mercado agropecuário do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

De subproduto a ativo estratégico no agro

Antes tratado apenas como um resíduo do processo industrial, o insumo passou a ter mercado próprio, demanda crescente e papel direto na rentabilidade das usinas.  

Para Cogo, esse movimento tende a ganhar força com a expansão da produção de etanol de milho, especialmente no Centro-Oeste, aliada ao aumento da escala produtiva, à padronização da qualidade, à evolução logística e à crescente demanda das cadeias de proteína animal.

“Além disso, a formação de preços cada vez mais correlacionada a outros insumos, como o farelo de soja, contribui para dar maior transparência e previsibilidade ao mercado. À medida que esses fatores avançam, o DDG deixa de ser um produto regional e passa a assumir características típicas de commodity”, afirma.

Segundo o último balanço da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), divulgado no fim de março, a produção de milho no estado chegou a 55,43 milhões de toneladas na safra 2024/25. Dessa quantidade, mais de 13,9 milhões de toneladas foram destinadas à produção do etanol de milho, tornando Mato Grosso o maior produtor brasileiro de biocombustível do grão. 

Na análise de Cogo, esse cenário deve se manter nos próximos anos, com uma tendência estrutural de crescimento, sustentada pela competitividade do milho brasileiro – especialmente da segunda safra -, pelo menor custo relativo de produção do etanol em relação a outras rotas e pela importância dos coprodutos na formação das margens industriais.

“O Brasil deve adicionar cerca de 7 bilhões de litros de capacidade até 2028, com dezenas de projetos em andamento, o que implica aumento relevante na oferta de DDG. No curto prazo, podem ocorrer ajustes de margem em função de eventuais excessos de oferta, mas a trajetória estrutural permanece positiva”, destaca. 

Oferta contínua garante vantagem competitiva

A disponibilidade contínua do DDG é um dos seus principais diferenciais competitivos e que contribui diretamente para a sua adoção. Diferentemente de insumos sujeitos à sazonalidade, o insumo é produzido ao longo de todo o ano, acompanhando o funcionamento das usinas de etanol. 

Assim, essa regularidade acaba proporcionando uma maior previsibilidade de custos na formulação de rações, reduz a necessidade de estoques elevados, melhora o planejamento operacional e diminui a exposição à volatilidade de preços. 

“Para cadeias intensivas, como confinamentos e integrações, essa estabilidade é um fator relevante para ganho de eficiência e gestão de risco”, aponta Cogo. 

Em fevereiro, o Brasil embarcou a primeira carga de DDG à China. A remessa de 62 mil toneladas foi enviada pelo Porto de Imbituba (SC), a primeira operação após a abertura do mercado chinês ao produto brasileiro em maio de 2025, com a assinatura do protocolo sanitário bilateral. “É um mercado crescente, demandante demais, um setor que gera valor agregado”, diz Silva, do Imea. 

Uso do DDG avança além da pecuária de corte

Embora o DDG já esteja amplamente consolidado na pecuária de corte, especialmente em sistemas de confinamento, há potencial de crescimento em outras cadeias, como suinocultura e avicultura, segundo especialistas. 

Esse avanço tende a ocorrer de forma gradual, devido às exigências nutricionais mais rigorosas dessas espécies, que demandam maior padronização e controle de qualidade do insumo. 

“Ainda assim, com a expansão das exportações, margens positivas e busca por alternativas competitivas ao milho e ao farelo de soja, o DDG tende a ganhar espaço nessas cadeias, especialmente à medida que a indústria evolui em qualidade e consistência do produto”, aponta Cogo. 

Tensões globais impactam mercado de etanol

Outro fator se refere às tensões geopolíticas recentes, que podem gerar impactos relevantes sobre o setor de biocombustíveis e suas cadeias associadas. Esses eventos afetam diretamente os preços do petróleo, os custos de fertilizantes, a logística global e os fluxos comerciais, influenciando tanto a competitividade do etanol quanto o custo de produção do milho. 

“Esse ambiente reforça a importância de cadeias integradas, como a do etanol de milho e do DDG, que agregam valor internamente, reduzem dependências externas e fortalecem a integração entre agricultura, energia e produção animal no Brasil”, conclui Cogo.

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