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Ex-ministro Aldo Rebelo diz que Brasil tem autonomia, mas precisa cobrar reciprocidade


Ex-ministro Aldo Rebelo, durante evento em São Paulo. Foto: Renato Medeiros

A inserção do Brasil no cenário internacional, sob a perspectiva do agronegócio, dominou os debates de um evento que reuniu autoridades e especialistas ao longo da manhã desta segunda-feira (23), em São Paulo.

Um dos painelistas do evento “A geopolítica do agronegócio”, o ex-ministro Aldo Rebelo afirmou, em entrevista ao Canal Rural, que o país reúne condições únicas para atuar com autonomia, mesmo em um ambiente globalizado.

Ao relacionar soberania e a inserção do Brasil no cenário internacional, Rebelo destacou três pilares principais: produção de alimentos, geração de energia e disponibilidade de recursos minerais estratégicos.

“O Brasil tem o mais importante, que é a capacidade de produzir alimentos e garantir sua própria segurança alimentar, além de contribuir com a segurança alimentar global”, afirmou. Ele também ressaltou a diversificação energética do país,

De acordo com o ex-ministro, o Brasil já possui autossuficiência em petróleo e uma matriz diversificada, mas ponderou que há potencial ainda não explorado. Para ele, áreas como a margem equatorial e novas fronteiras de exploração poderiam ampliar a oferta de energia.

“O Brasil tem, provavelmente, as fontes de energia mais diversificadas do mundo”, afirmou, ao citar também o avanço de fontes como eólica, solar e biomassa.

Além disso, ele apontou a relevância das reservas minerais. “Nenhum país tem a disponibilidade de minerais estratégicos que o Brasil possui”, declarou.

Dependência externa ainda é risco

Apesar das vantagens, Rebelo alertou para vulnerabilidades. Entre elas, a dependência de insumos importados e a falta de garantia sobre rotas comerciais seguras.

“O Brasil não tem garantia de insumos nem de rotas comerciais seguras”, afirmou, ao destacar a dependência externa, especialmente em fertilizantes, e a falta de estrutura para proteção das rotas de comércio.

Segundo ele, a ausência de estrutura de defesa compatível, especialmente no campo marítimo, limita a capacidade de proteção do comércio exterior brasileiro.

Relações internacionais e reciprocidade

Ao tratar das relações internacionais, Rebelo defendeu uma postura mais assertiva do Brasil, baseada na reciprocidade. Na prática, é a exigência de tratamento equivalente por parte dos parceiros comerciais.

“Parceiro estratégico não se alia a adversários dentro do próprio país”, disse, ao comentar a relação com a China, citando interlocuções com organizações que fazem críticas à agricultura brasileira.

Em relação aos Estados Unidos, ele apontou sinais de distanciamento diplomático. “Um país que quer ser parceiro não pode passar mais de um ano sem indicar embaixador”, afirmou, ao mencionar a ausência de um representante permanente no Brasil desde 2025.

Para Rebelo, situações como essas indicam desequilíbrios na relação e reforçam a necessidade de o país adotar uma postura mais firme. “O Brasil tem condições de cobrar reciprocidade nas relações internacionais”, concluiu.

Geopolítica na agenda do agronegócio

Outro ponto destacado no evento foi o papel da geopolítica no agronegócio, que ainda não é central na agenda do setor, mas que começa a aparecer aos poucos.

Painel “O Brasil na perspectiva internacional”, com o professor da FGV, Marcelo Coutinho, e o fundador da Datagro, Plinio Nastari

Segundo Marcelo Coutinho, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), há sinais de maior coesão entre as lideranças do agro, o que pode ampliar a capacidade de influência do setor. “Quanto mais coesa for a elite do agro, maior tende a ser sua influência no Estado”, afirmou.

O pesquisador também apontou uma tendência de alinhamento em torno de inovação, sustentabilidade e meio ambiente, temas que devem ganhar força nos próximos anos.

Já Plinio Nastari, fundador e presidente da consultoria Datagro, chamou atenção para entraves internos que ainda afetam a competitividade do agro brasileiro. “O setor é eficiente e estruturado, mas enfrenta uma burocracia que pesa e distorce a forma como o Brasil é avaliado lá fora”, disse.

Ele também ressaltou que parte das acusações externas, especialmente em temas trabalhistas e ambientais, precisa ser melhor enfrentada pelo país, com mais clareza na comunicação e defesa institucional.

Além disso, o painel indicou que assuntos estratégicos, como fertilizantes, ainda aparecem de forma intermitente no debate público, apesar da relevância para a segurança produtiva.

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agro.mt

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