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‘Safra só termina quando o grão está no armazém’, alerta pesquisador do Cepea


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Quando o plantio de soja começou, em meados de setembro do ano passado, secas prolongadas e precipitações abaixo da média desafiaram os agricultores do Centro-Oeste. No Rio Grande do Sul, onde a semeadura ocorreu mais tarde, a estiagem vem consolidando perdas reais na safra mês a mês.

“O final da lavoura é só quando o grão está no armazém. Enquanto está no campo não quer dizer nada, só está indicando que pode ter uma boa produção”, afirma Mauro Osaki, pesquisador do Cepea.

Até o momento, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indica que 50,6% da área de soja 2025/26 em todo o Brasil já foi colhida. Segundo Osaki, a falta de estrutura de armazenagem no país também aumenta a vulnerabilidade da produção, especialmente em períodos de clima instável.

“O Brasil cresce muito no campo, mas não consegue crescer na parte estrutural. Falta armazém, e muitas vezes a produção fica exposta”, diz.

Tendências para o mercado de soja se mantêm

No mercado agrícola, os números caminham próximos das projeções feitas anteriormente pelo Cepea. Para Osaki, o comportamento dos preços e da produtividade indica um cenário semelhante ao esperado no estudo divulgado no ano passado.

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“A gente projetava, por exemplo, um preço médio para março em torno de R$ 101 a saca em Sorriso. Hoje estamos falando [de um valor] muito próximo disso”, pontua.

De acordo com ele, mesmo com preços abaixo do esperado em alguns momentos, a produtividade um pouco maior pode ajudar a compensar parte das perdas. “Então, em termos de receita bruta, uma coisa acaba compensando a outra”, observa Osaki.

Em termos de rentabilidade, o pesquisador destaca que a tendência é que os produtores consigam saldar os custos operacionais efetivos.

Guerra no Irã pode mexer com o cenário

Além dos fatores internos, o cenário internacional também adiciona incerteza ao mercado agrícola.

No fim de fevereiro, um ataque coordenado de Israel e Estados Unidos contra o Irã escalou para intensos bombardeios no Oriente Médio. Um dos impactos mais fortes inclui o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% de todo o petróleo do mundo.

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Segundo Osaki, conflitos geopolíticos podem afetar diretamente custos logísticos, energia e o comportamento dos compradores no comércio global de grãos.

“Cada dia aparece uma notícia diferente sobre o conflito. Isso significa menor oferta de petróleo e de gás natural, o que pode levar a uma energia mais cara”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, essa alta tende a se refletir no custo dos combustíveis e do transporte, pressionando toda a cadeia. A preocupação mais latente se concentra no potencial aumento do diesel, que é amplamente utilizado na produção agrícola.

Contudo, segundo Osaki, os impactos não devem aparecer na safra que está sendo colhida neste momento. Além disso, a incerteza também pode afetar o ritmo de compras no mercado internacional.

“Para essa soja que está sendo colhida agora, o impacto ainda é pequeno. A maior parte do combustível já estava planejada”, diz.

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Alerta segue para o Rio Grande do Sul

Apesar de a safra brasileira caminhar para bons volumes em várias regiões, o cenário segue preocupante no Rio Grande do Sul. Na avaliação de Osaki, a estiagem recorrente tem pressionado a rentabilidade dos produtores.

“São vários anos seguidos de problemas climáticos, e isso vai deteriorando a situação financeira do produtor”, aponta.

Segundo o pesquisador, a sequência de perdas tende a acelerar um processo de reorganização no setor, com maior concentração da produção nas mãos de produtores que conseguem sustentar os investimentos.

Pequenos e médios agricultores, por outro lado, podem não conseguir se manter na atividade.

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