O excesso de chuva está provocando apreensão e prejuízos severos na safra de soja no extremo norte de Mato Grosso. Em Marcelândia, os produtores enfrentam transtornos que vão desde a morosidade na colheita até o aumento expressivo de custos e perdas diretas na produção. A situação acende um alerta para a economia local, que tem no agronegócio sua principal base de sustentação.
Atualmente, cerca de 35% dos 200 mil hectares cultivados no município ainda precisam ser colhidos. O volume pluviométrico já registra acumulados acima da média histórica, o que eleva o risco de novos danos no campo. A estimativa é que o acumulado chegue a 3 mil milímetros até o fim de março, superando a média do município que varia entre 1,8 mil e 2 mil milímetros.
Com o solo encharcado, as máquinas enfrentam dificuldades para avançar. Em muitas propriedades, as colheitadeiras tentam entrar nos talhões em regime de força-tarefa, mas acabam atoladas pela saturação do terreno.
Para o gerente de produção Vagner Batista dos Santos, a umidade constante tem gerado gastos imprevistos, como a locação de escavadeiras para auxiliar o maquinário parado. Com 95% da área colhida na propriedade, ele relata ao Canal Rural Mato Grosso um cenário crítico de avarias.
“Temos uma perda de 32% mais ou menos de avaria. Chegou a sair carga com 28% de umidade, o dobro da ideal. Está passando da hora de colher”, afirma Vagner.
Mesmo quem já encerrou a colheita da soja, como o agricultor Alexandre Falchetti, enfrenta desdobramentos negativos. O atraso impacta diretamente a implantação do milho segunda safra, que já está com boa parte da área prevista fora da janela ideal de plantio.
Além das perdas no campo, a logística se tornou um obstáculo para o escoamento. Alexandre relata que a região corre o risco de ficar isolada devido às condições das estradas. A MT-320, principal via de acesso à BR-163, apresenta trechos cedendo, o que represou o fluxo de caminhões. “É um ano desafiador, hoje praticamente a gente está ilhado. Se não tiver uma atenção rigorosa do Estado sobre a MT-320, a gente acaba ficando ilhado aqui”, alerta o agricultor.
Ele ressalta ainda que a falta de armazéns agrava a situação, obrigando o produtor a enfrentar filas intermináveis e juros altos sem o suporte de crédito rural acessível. “A soja é perecível. Se você deixar três dias dentro de um caminhão em uma fila, perde qualidade, perde peso e perde dinheiro. Faz muito tempo que a gente não tem sono mais, é triste”, desabafa Alexandre.
O impacto econômico é confirmado pelo Sindicato Rural de Marcelândia. Segundo o presidente da entidade, Marcelo Cordeiro, a estimativa mínima de perda para esta safra é de 10%. Ele reforça que muitos produtores já perderam sua margem de lucro e dependem de sensibilização do poder público para honrar compromissos financeiros.
“A balança comercial depende do agro e hoje o setor passa por dificuldades. Precisamos do apoio de toda a cadeia parlamentar para não quebrar o produtor rural”, pontua Cordeiro ao Canal Rural Mato Grosso.
A gravidade do cenário levou Marcelândia, Matupá e Colíder a decretarem estado de emergência. O diretor da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Diego Bertuol, destaca que a entidade tem buscado interlocução com o Ministério da Agricultura para relatar a situação climática e o colapso logístico no norte do estado.
Para o presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, a crise expõe a necessidade urgente de políticas públicas voltadas para a infraestrutura. “O outro gargalo que nós temos é a armazenagem. Sempre imploramos ao governo federal por linhas de subsídios mais fortes, ou seja, taxa de juros mais baixa, incentivos para a armazenagem como desoneração de impostos para que o Brasil e Mato Grosso sejam competitivos. Mato Grosso armazena apenas metade da sua produção, o que força um escoamento rápido e vulnerável durante a safra”, conclui.
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