O resultado é uma forte concentração no uso da terra, mesmo que a posse formal das propriedades continue dispersa no papel. A conclusão é de estudo assinado por José Giacomo Baccarin, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp, em Jaboticabal, publicado na revista internacional Land Use Policy.
São Paulo responde por 54% da safra brasileira de cana-de-açúcar, além de concentrar 62% da produção nacional de açúcar e 49% do etanol. O estado é líder mundial na produção desses derivados da cana.
Dados analisados pelo pesquisador mostram que, em 2017, estabelecimentos agrícolas com mais de mil hectares respondiam por cerca de 45% da área agrícola paulista. No entanto, os imóveis rurais com mais de mil hectares ocupavam apenas 21% da área total destinada à agricultura no estado.
A diferença revela que grandes áreas contínuas sob um único administrador são formadas a partir da junção de diversas propriedades menores arrendadas.
No jargão técnico, “estabelecimento agrícola” se refere a uma área contígua administrada por um único ente, independentemente do número de matrículas ou proprietários envolvidos.
A dinâmica é puxada pela própria característica da cana-de-açúcar. Diferentemente de culturas como soja ou laranja, a cana precisa ser processada logo após o corte.
Por isso, as usinas operam com um raio logístico de até 50 quilômetros. Distâncias maiores elevam custos de transporte e aumentam perdas de matéria-prima.
Cada unidade industrial forma, assim, um cinturão de cultivo ao seu redor e disputa áreas disponíveis dentro desse limite. A expansão ocorre menos pela abertura de novas fronteiras agrícolas e mais pela incorporação de terras próximas às usinas.
Segundo o estudo, cerca de 60% da cana moída em São Paulo é produzida pelas próprias usinas. Os outros 40% vêm de fornecedores independentes.
O movimento de concentração ganhou força a partir de 2007, com o Protocolo Agroambiental do setor sucroenergético paulista, que previu a eliminação gradual da queima da palha e a adoção da colheita mecanizada até 2017.
A mecanização exigiu investimentos elevados em máquinas, novas variedades de cana e adaptação das áreas para permitir a operação dos equipamentos.
Com isso, aumentaram os custos fixos e a escala mínima eficiente de produção. Uma única colhedora pode processar centenas de milhares de toneladas por safra, o que dificulta a viabilidade econômica em áreas pequenas.
Para propriedades de menor porte, o arrendamento passou a ser alternativa mais atrativa do que manter a produção própria.
O estudo também aponta transformações no perfil socioeconômico dos donos das terras arrendadas. Muitas famílias mantêm a propriedade como fonte de renda, mas migraram para atividades urbanas, como comércio e serviços.
As novas gerações, frequentemente formadas em profissões urbanas, demonstram menor interesse em retomar a atividade agrícola.
O setor sucroenergético também enfrenta mudanças estruturais. Cerca de um quarto do etanol brasileiro já é produzido a partir do milho, que apresenta rendimento superior ao da cana por tonelada processada.
Ao mesmo tempo, o consumo de açúcar desacelera em países desenvolvidos, o que pode impactar o ritmo de expansão da cultura nas próximas décadas.
Para o pesquisador, a concentração do uso da terra traz ganhos de eficiência e redução de custos, mas também levanta desafios econômicos, sociais e ambientais.
Entre os pontos de atenção estão a distribuição de renda no campo, a responsabilidade ambiental em áreas arrendadas e a necessidade de políticas públicas que incentivem a diversificação produtiva em pequenas propriedades, como frutas, hortaliças e recuperação de áreas de preservação.
A estrutura fundiária do estado de São Paulo já não pode ser explicada apenas pela oposição clássica entre latifúndios e agricultura familiar. Desde os anos 1990, empresas do setor sucroalcooleiro vêm ampliando seus canaviais principalmente por meio de arrendamentos, alugando terras de pequenos e médios proprietários em vez de comprá-las.
O resultado é uma forte concentração no uso da terra, mesmo que a posse formal das propriedades continue dispersa no papel. A conclusão é de estudo assinado por José Giacomo Baccarin, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp, em Jaboticabal, publicado na revista internacional Land Use Policy.
São Paulo responde por 54% da safra brasileira de cana-de-açúcar, além de concentrar 62% da produção nacional de açúcar e 49% do etanol. O estado é líder mundial na produção desses derivados da cana.
Dados analisados pelo pesquisador mostram que, em 2017, estabelecimentos agrícolas com mais de mil hectares respondiam por cerca de 45% da área agrícola paulista. No entanto, os imóveis rurais com mais de mil hectares ocupavam apenas 21% da área total destinada à agricultura no estado.
A diferença revela que grandes áreas contínuas sob um único administrador são formadas a partir da junção de diversas propriedades menores arrendadas.
No jargão técnico, “estabelecimento agrícola” se refere a uma área contígua administrada por um único ente, independentemente do número de matrículas ou proprietários envolvidos.
A dinâmica é puxada pela própria característica da cana-de-açúcar. Diferentemente de culturas como soja ou laranja, a cana precisa ser processada logo após o corte.
Por isso, as usinas operam com um raio logístico de até 50 quilômetros. Distâncias maiores elevam custos de transporte e aumentam perdas de matéria-prima.
Cada unidade industrial forma, assim, um cinturão de cultivo ao seu redor e disputa áreas disponíveis dentro desse limite. A expansão ocorre menos pela abertura de novas fronteiras agrícolas e mais pela incorporação de terras próximas às usinas.
Segundo o estudo, cerca de 60% da cana moída em São Paulo é produzida pelas próprias usinas. Os outros 40% vêm de fornecedores independentes.
O movimento de concentração ganhou força a partir de 2007, com o Protocolo Agroambiental do setor sucroenergético paulista, que previu a eliminação gradual da queima da palha e a adoção da colheita mecanizada até 2017.
A mecanização exigiu investimentos elevados em máquinas, novas variedades de cana e adaptação das áreas para permitir a operação dos equipamentos.
Com isso, aumentaram os custos fixos e a escala mínima eficiente de produção. Uma única colhedora pode processar centenas de milhares de toneladas por safra, o que dificulta a viabilidade econômica em áreas pequenas.
Para propriedades de menor porte, o arrendamento passou a ser alternativa mais atrativa do que manter a produção própria.
O estudo também aponta transformações no perfil socioeconômico dos donos das terras arrendadas. Muitas famílias mantêm a propriedade como fonte de renda, mas migraram para atividades urbanas, como comércio e serviços.
As novas gerações, frequentemente formadas em profissões urbanas, demonstram menor interesse em retomar a atividade agrícola.
O setor sucroenergético também enfrenta mudanças estruturais. Cerca de um quarto do etanol brasileiro já é produzido a partir do milho, que apresenta rendimento superior ao da cana por tonelada processada.
Ao mesmo tempo, o consumo de açúcar desacelera em países desenvolvidos, o que pode impactar o ritmo de expansão da cultura nas próximas décadas.
Para o pesquisador, a concentração do uso da terra traz ganhos de eficiência e redução de custos, mas também levanta desafios econômicos, sociais e ambientais.
Entre os pontos de atenção estão a distribuição de renda no campo, a responsabilidade ambiental em áreas arrendadas e a necessidade de políticas públicas que incentivem a diversificação produtiva em pequenas propriedades, como frutas, hortaliças e recuperação de áreas de preservação.
*Reportagem de Bruno Vaiano, publicado no Jornal da Unesp,
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