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Promessa de chuvas acima da média desafia a colheita da soja em Querência


Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A colheita da soja em Querência, no leste de Mato Grosso, avança sob atenção redobrada diante da previsão de chuvas acima da média para os próximos meses. A alta umidade dos grãos dificulta o trabalho no campo, encurta as janelas de colheita e eleva os custos com secagem nas propriedades.

Na Fazenda Certeza, onde foram cultivados 2,8 mil hectares de soja na safra 2025/26, pouco mais de 500 hectares já haviam sido colhidos até agora. O agricultor Neori Norberto Wink explica que o ritmo é constantemente interrompido pelas garoas frequentes, o que impede a redução ideal da umidade do grão.

“Secador nesta época trabalha e muito, porque realmente não consegue tirar produto com menos de 20% de umidade. Quando começa a ficar bom vem uma garoa”, conta ele ao Patrulheiro Agro. Segundo ele, com esse nível de umidade, o produtor “é obrigado a dar dois tombos no secador”, tentando acertar o melhor momento para amenizar custos e manter o processo rodando.

Até agora, a fazenda acumulou cerca de 1,3 mil milímetros de chuva, enquanto a média histórica anual da propriedade varia entre 2.250 e 2,3 mil milímetros. Neori reforça que ainda há muita água para cair e que o desafio é conseguir tirar a soja no tempo certo para manter o planejamento da safra.“Tem que tirar, porque temos a projeção terminar tudo em janeiro para o plantio do milho na sequência”, afirma.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Risco climático e custo elevado

Mesmo com estrutura própria, como o armazém da fazenda, que tem capacidade estática para receber 12,8 mil toneladas de grãos, o custo da operação preocupa. Neori ressalta que, nos preços atuais, a margem é apertada. “Quem não colher 70 sacas de média nesses preços aí sobrando R$ 100 líquido para o produtor, não paga os investimentos”, avalia.

A preocupação é compartilhada por produtores do município. De acordo com o presidente do Sindicato Rural de Querência, Osmar Frizzo, os meses entre janeiro e março concentram historicamente os maiores volumes de chuva, o que torna a colheita nesse período ainda mais arriscada.

Ele destaca que produtores que utilizam pivô de irrigação sentem ainda mais o impacto. “O ano passado a gente teve problemas mais graves, o pessoal até perdeu soja”. Apesar disso, Osmar pondera que, neste ciclo, ainda há janelas para avançar com a colheita, embora o risco permaneça. “É bem arriscado essa colheita em janeiro”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Preocupação com qualidade e produtividade

Para o delegado da Aprosoja Mato Grosso em Querência, Lauri Pedro Jantsch, o maior desafio agora é conseguir retirar o produto da lavoura no tempo certo. Ele explica que, se as chuvas seguirem a média dos últimos anos, ainda há um grande volume de água a cair justamente durante o período crítico da colheita.

“A gente tem a preocupação dessa colheita aí, se chover na média dos anos tem muita água para cair agora nesse período de colheita de fevereiro a março”, diz à reportagem do Canal Rural Mato Grosso. Conforme Lauri, além do ritmo da colheita, o foco também está na qualidade final do grão. “Precisamos tirar o produto em fevereiro e março e a gente tem a preocupação sim da formação do grão, de que dê um grão pesado, e que tenha uma qualidade  muito boa”.

O agricultor Írio José Guisolphi, que cultivou 7,2 mil hectares de soja nesta temporada em Querência, relata cenário semelhante. Na propriedade dele, o acumulado de chuvas chega a 780 milímetros até o momento, mas a variação anual é grande. “Tem ano que dá 1,3 mil milímetros, mas tem ano que chega até 2,1 mil, 2,2 mil”, detalha.

Para Írio, o risco maior é a sequência de dias chuvosos com a lavoura pronta. “Se ficar três, quatro, cinco dias chovendo quando a soja está pronta a gente acaba perdendo”, pontua. Ele lembra que o plantio foi concentrado em um período curto, o que exige uma colheita igualmente rápida. “Então se perder 15, 20 dias, se der problema acaba atingindo a gente”.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Reflexos fora da porteira

Além do impacto direto na lavoura, o desempenho da safra também preocupa fora da porteira. A possibilidade de uma arrecadação abaixo do esperado ganha peso em um município onde o agronegócio é a principal base da economia, cenário que se soma às incertezas trazidas pela reforma tributária, em vigor desde o início de janeiro.

O prefeito de Querência, Gilmar Wentz, destaca que o município tem mais de 450 mil hectares cultivados, concentrados principalmente em soja e milho. Conforme o gestor, a baixa rentabilidade das duas culturas já começa a refletir na economia local. “O momento todos sabem que tanto a soja quanto o milho na questão de rentabilidade está oferecendo muito pouco para os produtores”, ressalta.

De acordo com o prefeito, a consequência direta é a redução da arrecadação municipal, já que muitas empresas instaladas na cidade estão ligadas ao setor. Ele também menciona o impacto dos juros elevados e a insegurança em torno da reforma tributária. “Sabemos que vamos sofrer, mas temos que estar preparados para isso”, afirma ao Canal Rural Mato Grosso.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Safra longa e cautela nos números

O presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Costa Beber, lembra que os desafios começaram ainda no plantio da soja. Em muitas regiões, operações que normalmente duram cerca de 15 dias se estenderam por mais de um mês. “Esse ano levou um mês e meio”, comenta.

Segundo ele, isso resulta em uma safra mais longa e bastante heterogênea. Há registros de áreas com alta produtividade, mas também de lavouras com desempenho abaixo do esperado, especialmente no sequeiro. “Temos registros também no estado de baixa produtividade”, relata, citando áreas com cerca de 42 sacas por hectare.

Diante desse cenário, Lucas reforça a cautela da entidade em relação aos números finais da safra. “Dificilmente Mato Grosso bata 60 sacas”, avalia. Para ele, qualquer projeção mais otimista só poderá ser feita após o encerramento da colheita. “Para se ter otimismo tem que ter pesado toda a produção”.

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