Eu acompanho o mercado de arroz há muito tempo. E falo isso com a tranquilidade de quem já viu esse filme mais vezes do que gostaria. O Brasil insiste em tratar o arroz sempre pelo retrovisor. Quando surge qualquer sinal de escassez, o tema vira crise nacional. Quando o preço despenca, o assunto some do debate público. No meio desse pêndulo, quem paga a conta é sempre o produtor.
Durante os eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul, esse reflexo ficou escancarado. A reação imediata foi tentar importar arroz. Critiquei na época, e continuo criticando. Não porque importar seja um pecado, mas porque o problema não era falta de arroz. Era escoamento, logística, organização. O mercado se ajustou, o abastecimento não colapsou e ficou claro que o susto foi maior do que a realidade.
Agora estamos no extremo oposto. O preço do arroz caiu a níveis que inviabilizam a atividade. E, mais uma vez, o produtor está sozinho, espremido entre custo alto, crédito caro, risco climático e um mercado que não oferece previsibilidade mínima.
O arroz sempre conviveu com essa fragilidade no Brasil. Não é uma cultura de margens largas. Precisa de preço compatível com custo, investimento e risco. Quando isso não acontece, o ajuste vem do jeito mais doloroso: redução de área, menos tecnologia, menos capitalização, e a semente da próxima crise é plantada.
Há ainda um fator estratégico que não pode ser ignorado. A produção relevante está concentrada no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, justamente a região mais exposta a extremos climáticos. Quando o produtor gaúcho perde previsibilidade, o risco não é regional, é nacional. Segurança alimentar não combina com improviso.
Costuma-se dizer que o arroz brasileiro perde competitividade para os grandes produtores asiáticos. Isso é verdade, mas incompleta. Lá fora, arroz é tratado como política de Estado. Há planejamento, coordenação e previsibilidade. Aqui, o produtor enfrenta um mercado solto, reagindo depois que o problema já apareceu.
E aqui faço, de forma clara, um chamado às entidades que representam o setor. Não dá mais para produzir no escuro, empurrar oferta ao máximo e depois sair procurando mercado, pedindo socorro ou reclamando do preço. Oferta precisa conversar com demanda. Isso exige estudo, planejamento e coordenação.
As entidades do arroz precisam liderar esse processo:
Produzir o impossível e depois tentar “arrumar mercado” é receita certa para crise de preço.
Não basta esperar que instrumentos públicos resolvam tudo. A Conab pode, e deve, atuar com estoques, preços mínimos e apoio ao escoamento. Mas sem organização do próprio setor, qualquer política vira remendo.
O modelo atual é perverso:
Isso destrói a confiança, desorganiza a produção e fragiliza o futuro do arroz.
Arroz não é uma commodity qualquer. É base da alimentação, é estabilidade social, é soberania silenciosa. O país sério não trata o alimento básico como um problema episódico. Trata como estratégia.
Se o Brasil quiser um mercado de arroz saudável, vai precisar ir além das críticas pontuais e das reações emocionais aos extremos. Esse debate não pode ficar restrito aos gabinetes nem a decisões tomadas no susto. Ele precisa nascer no campo, com o produtor no centro da discussão.
É hora de o produtor também chamar essa responsabilidade para si.
Sentar à mesa, discutir números, demanda, oferta, área, custo, risco e futuro. Pensar coletivamente. Cobrar das entidades, mas também participar ativamente da construção de uma estratégia que dê previsibilidade ao setor.
Sem maturidade no debate, continuamos presos ao mesmo ciclo: pânico na alta, abandono na baixa, e um produtor cada vez mais vulnerável.
O arroz que o Brasil vai colher amanhã depende das decisões que começarem a ser discutidas agora.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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