A colheita da soja avança sob forte pressão em Mato Grosso, especialmente em Campo Novo do Parecis. As chuvas frequentes em janeiro têm limitado as horas de trabalho no campo e colocado produtores em uma corrida contra o tempo para retirar a safra no momento mais sensível do ciclo.
Na região, a preocupação não se resume apenas à produtividade. O excesso de umidade ameaça a qualidade dos grãos, enquanto os custos elevados e os preços mais baixos das commodities apertam ainda mais o orçamento das propriedades.
O agricultor Milton Bazila vive esse cenário diariamente. Nesta safra, ele cultivou 3.170 hectares de soja em Campo Novo do Parecis e relata a dificuldade para avançar com as máquinas em meio às chuvas quase constantes.
“A chuva está bem intensa, está todo dia chovendo praticamente. São poucas horas em que a gente consegue colher, chuva de mangas, forma precipitação muito rápida e a chuva vem”, conta ao Patrulheiro Agro desta semana. Segundo ele, a escolha por uma soja precoce foi estratégica para garantir o plantio do algodão logo na sequência.
Bazila explica que o atraso na colheita pode gerar perdas significativas. “Nós precisamos recolher o quanto antes da lavoura, então é um desafio. A gente pega uma época chuvosa para colheita e o plantio do algodão tem que vir logo atrás, porque a melhor janela está aí e é agora”, afirma. Para tentar minimizar os impactos, ele reforçou a operação com máquinas terceirizadas.
A pressão também é emocional. “A gente passa por uma angústia muito grande, a gente fica com uma ansiedade muito grande de não dormir direito, é um negócio a céu aberto”, relata o produtor ao Canal Rural Mato Grosso. Ele observa ainda que o volume de chuvas em janeiro foge do padrão histórico. “Isso está um pouco anormal para janeiro, normalmente a nossa chuvarada mais pesada é a partir de fevereiro e início de março”.
Com os custos em alta e a queda nas cotações, o produtor faz contas apertadas. “Os custos estão altíssimos esse ano, as commodities caíram. Nos últimos anos, comparando caiu muito, esse ano a gente está na faixa de 60 sacas hoje só de custo, então está pesado o orçamento”, diz. Dependendo do clima, resume: “A gente está com a lavoura pronta para ser retirada agora e dependemos do clima, exclusivamente do clima”.
Na Fazenda Três Marcos, o produtor Junior Masanobu Utida também enfrenta dificuldades. Nesta temporada, a propriedade cultivou 5,7 mil hectares de soja, mas pouco mais de 800 hectares haviam sido colhidos até agora.
Conforme ele, o ciclo começou com falta de chuva, mas rapidamente mudou de cenário. “Foi um início seco. De outubro para frente começou a chover e depois não faltou mais chuva”, explica. O acumulado impressiona: “Em 15 dias mais ou menos choveu 350 milímetros só no finalzinho de dezembro, e agora mais uns 120, 130 milímetros em janeiro”.
Mesmo com boa estrutura de máquinas, o avanço depende de dias de sol. “Temos bastante máquinas também, uma máquina para cada 600 hectares, mas precisa dar um sol para a gente colher”, afirma Utida. Parte da soja mais precoce sofreu impactos, comenta. “Essa soja plantada mais cedo em setembro é a que sofreu um pouquinho mais na questão de germinação, na questão de população”.
Diante do cenário, o produtor já projeta um ano mais conservador. “É um ano de austeridade. Vamos ter que cortar despesas, não vai investir muita coisa. A lucratividade está baixa”, relata. Ainda assim, mantém cautela. “Todo ano vai ser diferente, então não dá para a gente fazer expectativa com chuva, deixa acontecer que a gente vai vencer”.
De acordo com o Sindicato Rural de Campo Novo do Parecis, a movimentação nas lavouras tende a aumentar a partir da segunda quinzena do mês, quando mais áreas entram em ponto de colheita. O presidente da entidade, Antônio César Brólio, explica que, até o momento, não há registros de perdas severas.
“Ainda não temos relatos de lavouras estragadas, com grãos estragados, mas sabemos que muita chuva em cima tira o peso desse grão que já está pronto para colheita”, alerta.
A área semeada com soja no município gira em torno de 450 mil hectares nesta safra. A expectativa é de uma produtividade semelhante à do ano passado, suficiente para cobrir os custos, mas longe de uma safra altamente rentável. “O preço hoje paga a conta para quem consegue colher bem”, resume Brólio.
O município já registra um acumulado de aproximadamente 850 milímetros de chuva, enquanto a média histórica chega a cerca de 1,6 mil milímetros ao longo do período chuvoso. Com meses ainda pela frente, o setor segue atento ao clima.
“Resta janeiro, fevereiro, março e abril. Então a gente tem longos meses pela frente para a gente finalizar essas duas safras”, diz o presidente do sindicato ao Canal Rural Mato Grosso. Apesar das dificuldades, ele mantém a perspectiva positiva. “Eu já sofri com seca, eu prefiro que caia um pouco mais de chuva do que a falta de água. Secou, não tem o que colher. É a esperança de todo agricultor que esse tempo venha abrir depois do dia 15”.
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