A colheita da soja começou mais cedo em Mato Grosso e já movimenta o planejamento da segunda safra. Com lavouras avançando dentro do calendário, produtores avaliam a expansão do milho, impulsionada por uma janela mais favorável, mas ainda pressionada pelo alto custo de produção.
Nas áreas da Agrícola Zanella, em Campos de Júlio e Comodoro, a colheita da oleaginosa ganhou ritmo com o apoio do clima. Nesta temporada, foram cultivados 18,3 mil hectares entre os dois municípios, com expectativa positiva para o milho segunda safra, justamente pelo adiantamento do ciclo da soja.
Segundo o engenheiro agrônomo Alfeu Volf Júnior, o início antecipado do plantio foi decisivo. “A gente começou a plantar no dia 17 de setembro, as chuvas colaboraram e isso nos permitiu iniciar o plantio mais cedo. Trabalhamos com variedades precoces e já estamos colhendo essas áreas. Onde ainda não colhemos, estamos fazendo a dessecação. Com isso, vamos conseguir uma boa janela para a segunda safra”, explica ao projeto Mais Milho.
A previsão, frisa Alfeu, é plantar cerca de 3,3 mil hectares de milho, aproximadamente 30% a mais que no ano passado, mantendo as áreas em Campos de Júlio.
Apesar da janela favorável, o avanço do milho ainda depende da conta fechar. Conforme o Sindicato Rural de Campos de Júlio, o custo de produção varia conforme o nível de investimento e o histórico produtivo das áreas.
“O custo do milho depende do investimento. Está entre 90 e 100 sacas por hectare. Tem que estar em torno de 150 sacas para compensar plantar”, afirma o presidente do sindicato, Rodrigo Cassol. Conforme ele, áreas com histórico de baixa produtividade tendem a ficar fora do planejamento. “As áreas boas devem ser mantidas, e a tendência de produção é para ser a mesma”, completa.
Em Sapezal, onde o algodão domina a segunda safra, o milho enfrenta ainda mais restrições. De acordo com o Sindicato Rural do município, o custo elevado limita qualquer avanço significativo da cultura.
“Em se tratando de Sapezal, onde o produtor tem um alto teto produtivo e investe de forma mais pesada, o custo do milho passa de 100 sacas por hectare”, destaca o presidente Diego Dalmaso ao Canal Rural Mato Grosso. Ele avalia que as áreas mais produtivas seguem concentradas no algodão. “Não vejo fôlego para expansão do milho. A tendência é de manutenção das áreas, tanto de algodão quanto de milho, em relação ao ano passado”.
Nas áreas mais arenosas, a decisão exige cautela. “É onde a conta aperta mais. Muitas vezes, não vale colocar uma cultura de alto valor agregado com custo elevado. É hora de fazer um mix, um manejo, com braquiária ou crotalária”, pontua.
Em Campo Novo do Parecis, o cenário é diferente. O município, conhecido pela diversificação na segunda safra, deve ampliar a área de milho, que pode chegar a cerca de 200 mil hectares, aumento estimado em 20% em relação ao ano passado.
O presidente do Sindicato Rural, Antônio César Brolio, frisa que o milho tem ganhado protagonismo. “Na segunda safra o produtor tem investido mais, ele tem conseguido melhorar muito a média do milho, [aplicar] novas técnicas, novas variedades. O produtor tem um ganho melhor do que soja”, afirma.
A desvalorização do algodão também pesa na decisão. Com custos mais elevados e preços menos atrativos, parte dos produtores deve redirecionar investimentos. “O pessoal do algodão tirou um pouquinho do pé porque o preço está ruim, então alguns produtores vão investir mais no milho do que em algodão”, relata Brolio.
Mesmo com o planejamento em andamento, o ritmo de plantio do cereal ainda é lento no estado. Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostram que apenas 0,24% da área de milho foi plantada em Mato Grosso até o momento, índice abaixo da média de 0,65% registrada nos últimos cinco anos para este mesmo período.
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