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Safra forte contrasta com crise financeira e gera incertezas para 2026 em Mato Grosso


Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

O ano-safra 2024/2025 terminou deixando um alerta para o campo em Mato Grosso. Mesmo com clima favorável e lavouras cheias, produtores das principais regiões agrícolas encerram a temporada com dificuldades financeiras.

A combinação de preços abaixo do esperado, crédito mais restrito e juros elevados comprometeu a rentabilidade. O cenário é de boa produção, mas de margens apertadas, o que dificulta o planejamento da próxima safra.

Além da pressão econômica atual, o setor acompanha com apreensão a indefinição da política fiscal e a proximidade da reforma tributária, prevista para começar a valer a partir de janeiro. A avaliação é de que as mudanças podem agravar ainda mais a situação no campo.

O resultado é um agro que colheu bem, mas tenta se manter enquanto espera uma reação do mercado que traga condições mais favoráveis para entrar em 2026.

Foto: Israel Baumann/Canal Rural Mato Grosso

Rentabilidade alta na lavoura, baixa no caixa

Em Jaciara, o clima contribuiu para o bom desempenho da soja, do milho e do algodão na safra 2024/25. Ainda assim, os preços das três culturas ficaram abaixo do esperado. Até o arroz, que entrou por último no sistema de produção, decepcionou. A conta final foi de produtividade elevada, mas retorno financeiro insuficiente.

Na avaliação do agricultor Gilson Provenssi, o que entrou no caixa praticamente se limitou a cobrir os custos financeiros da produção. Ele explica que a alta dos juros, sem reação proporcional das commodities, inviabilizou o fechamento das contas, especialmente para quem trabalha com áreas arrendadas e depende de financiamento.

“O que a cultura rentabilizou foi praticamente para pagar os juros. Os juros subiram muito enquanto as commodities não subiram, fica difícil. Para quem é arrendatário como eu, a conta não fecha”, relata à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.

Para garantir o custeio da próxima safra, após plantar 2,1 mil hectares de soja e prever o cultivo de 1,5 mil hectares de milho na segunda safra, Gilson precisou vender mais de mil cabeças de gado. Ajustes que, segundo ele, foram necessários apenas para manter a operação funcionando.

O atraso no plantio da soja também apertou a janela agrícola, o que pressiona ainda mais a operação. Com colheita prevista apenas para fevereiro, ele afirma que não conseguirá colher nada em janeiro.

“E mesmo assim está apertado, a soja nós plantamos muito tarde. A minha janela aqui ficou muito apertada, vou começar a colher lá pelo dia 5, 10 de fevereiro, não vou conseguir colher nada em janeiro, então já tive que abortar 800 hectares de algodão e voltar pro milho porque não tenho espaço para botar algodão”.

O produtor explica que parte da área que no ano passado recebeu arroz — com baixa produtividade e preços desfavoráveis — será destinada agora ao amendoim, cultura que começa a ser testada em Mato Grosso por se adaptar bem a áreas mistas.

“O ano passado uma parte dessa área eu fiz arroz, eu colhi mal e o preço também não está legal, então vamos experimentar um ano com amendoim.  Tem um pessoal trazendo essa cultura para o Mato Grosso e ele se adapta muito bem nas áreas mistas, então vamos testar uns 400 hectares”, completa.

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Cautela e redução de custos

No médio-norte do estado, em Nova Mutum, a pressão financeira também já interfere nas decisões para a próxima safra. O aumento dos custos, aliado a um início de ciclo marcado por seca e replantios, deve alongar a colheita e reduzir o nível de investimento nas áreas.

O presidente do Sindicato Rural de Nova Mutum, Paulo Zen, explica que muitos produtores já optaram por reduzir aportes e, em alguns casos, deixar áreas de milho sem plantio.

“Começou com seca e muitos replantios, então vamos ter uma colheita o ano que vem bem longa. Teve áreas muito menores de investimento e também tem áreas de milho que vai preferir nem plantar”.

Ele observa ainda um movimento de contenção de despesas dentro das propriedades, inclusive com redução de mão de obra.

“O produtor tem que ter cautela, segurar os custos no que dá, tentar aproveitar o que dá, até eu vejo que muito produtor reduziu a mão de obra, está reduzindo, mantendo ela mais enxuta”, diz.

O cenário amplia o risco para quem já vinha descapitalizado e deixa o produtor ainda mais exposto às oscilações do mercado e às exigências do sistema financeiro.

O presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Costa Beber, relata dificuldades recorrentes na renegociação de dívidas e afirma que muitos bancos não têm cumprido acordos previamente estabelecidos com o setor.

“Situação complicada, muitos agricultores relatando dificuldade na renegociação das dívidas. Nós fizemos, inclusive, um seminário esse ano e a maioria dos bancos não está cumprindo aquilo que foi combinado conosco, ou seja, um risco ainda maior. O produtor de certo modo tem um estoque a céu aberto, um risco muito alto e é ele que, além de arcar com todos esses custos, é penalizado de forma injusta e desproporcional”, diz.

De acordo com o presidente da Aprosoja Mato Grosso, a realidade no campo hoje é de sobrevivência até que o mercado volte a oferecer condições de recuperação.

“A situação do produtor rural hoje é tentar sobreviver até passar essa crise e ele poder se reerguer novamente e que o mercado de fato reflita isso para compensar o produtor. O produtor já está tendo cautela, andando sobre a corda bamba e vai ter que ter mais até passar essa onda que estamos vivendo”, completa.

A indefinição em torno da política fiscal e a proximidade da reforma tributária aumentam a apreensão no agro mato-grossense.

Para o presidente da Famato, Vilmondes Tomain, a falta de sinalização positiva do mercado de commodities, somada à perspectiva de aumento da carga tributária, preocupa um setor já fragilizado financeiramente.

“Nós não sabemos o que é que vai acontecer, o mercado de preços de commodities não sinaliza positivamente e a carga tributária ela vem negativamente também. Tem que fazer bastante cálculo, a gente vê que a agricultura nossa está muito descapitalizada, isso é preocupante”, afirma.


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