Todo 15 de outubro o professor recebe flor, mensagem carinhosa, aquele café caprichado na sala. Eu, que dou aula, agradeço de coração, porque reconhecimento faz bem a qualquer um. Mas seria desonesto da minha parte deixar a data passar só no agrado. Porque enquanto a gente homenageia o professor em um dia, o Brasil está, devagar, ficando sem ele.
Não é força de expressão. Um levantamento do Instituto Semesp projeta que o país pode chegar a 2040 com um déficit de até 235 mil professores na educação básica. O motivo é fácil de entender e difícil de resolver: cada vez menos jovem quer seguir a carreira. E dá para culpar? A pessoa passa anos se formando para exercer uma profissão que todo mundo diz admirar e que, na hora de pagar, é tratada quase como voluntariado.
Vale lembrar de onde vem essa data. O 15 de outubro nasceu de um decreto de 1827, de dom Pedro I, que mandou abrir escola de primeiras letras em cada cidade, vila e povoado do Brasil. Quase dois séculos depois, a gente ainda briga para que essas escolas tenham quem dê aula nelas. O decreto que oficializou o Dia do Professor, lá em 1963, pedia “solenidades para enaltecer a função docente”. Solenidade nós fazemos todo ano. Enaltecer de verdade é outra conversa.
E eu falo disso com alguma autoridade, porque além de professor eu trabalhei anos no setor de recursos humanos da Educação de Várzea Grande. Vi de perto o que emperra a vida do professor da nossa rede, e boa parte não é falta de vontade, é falta de segurança. Todo fim de ano, milhares de profissionais contratados vivem o mesmo aperto. Quando dezembro chega, não é só o aluno que entra de férias. É o professor que entra na incerteza, sem saber se vai ser chamado de novo, se a turma dele ainda vai existir, se vai ter salário em janeiro.
Por isso eu bato nessa tecla na Câmara, mesmo quando não é a pauta mais glamourosa do dia. A homenagem que o professor de Várzea Grande mais precisa não cabe em um cartão. Ela tem nome técnico e nada romântico: plano de carreira e concurso público. O Plano de Cargos, Carreiras e Salários já foi protocolado, e o concurso está no horizonte de 2027. Aprovar isso quer dizer tirar milhares de professores da roda-viva do contrato temporário e dar a eles o que qualquer trabalhador quer, que é estabilidade para planejar a vida e férias sem o medo de não voltar. Esse respeito se mede na carteira assinada, não no discurso bonito.
Eu não esqueci a sensação de chegar com a turma na quadra e ver um aluno que vivia encolhido no canto, de repente, entrar no jogo. Dei aula de educação física, e sei que ensinar acontece em muito mais lugar do que entre quatro paredes. É a profissão que forma todas as outras, e é exatamente por isso que ela não pode virar sinônimo de salário curto e de ano que a gente não sabe se vai ter. Se a gente quer que ainda exista professor daqui a vinte anos, o presente de que eles precisam não se dá hoje. Se dá o ano inteiro, em forma de política pública e de orçamento.
Então, aos professores de Várzea Grande, fica o meu abraço de colega, e a promessa de continuar incomodando por vocês no lugar onde o incômodo resolve: na lei e na conta pública. Feliz Dia do Professor. Que no ano que vem a gente tenha menos flor e mais carteira assinada para comemorar.
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