Em entrevista ao O LIVRE, assistente de acusação contesta tese de incapacidade mental e aponta comportamento registrado por câmeras
As imagens das câmeras de segurança da residência onde Gleice Kelly Oliboni foi assassinada podem se tornar uma das principais peças na disputa judicial sobre a responsabilidade criminal de Daniel Frasson, conhecido como “Alemão”. Em entrevista ao O LIVRE, o advogado Rodrigo Pozo Miranda, que atua como assistente de acusação da família, afirmou que as gravações mostram comportamentos que, em sua avaliação, indicam que o acusado sabia o que estava fazendo.
O advogado contesta a tese de incapacidade mental apresentada pela defesa e sustenta que Daniel teria planejado o ataque. Segundo ele, a análise das gravações também revelou discussões sobre dinheiro nos dias anteriores ao crime, além de um alerta feito por uma familiar para que Gleice escondesse as facas da casa.
“Ele pensou, ele premeditou”, afirmou Rodrigo.
O caso envolve o assassinato de Gleice e a tentativa de homicídio contra a filha mais nova do casal, que sobreviveu ao ataque. Enquanto a discussão sobre a condição psiquiátrica do acusado avança na Justiça, a família também prepara medidas relacionadas ao patrimônio e à reparação financeira das filhas.
Rodrigo Pozo Miranda afirma que teve acesso à gravação integral das câmeras da residência por meio de Carol, irmã de Gleice. Segundo ele, o material foi analisado durante aproximadamente dois meses, com atenção especial aos cinco dias anteriores ao assassinato.
O advogado relata que, na madrugada do crime, Daniel acordou por volta das 3h e passou a circular pela casa. Em determinado momento, teria ido até a cozinha, separado facas e escondido uma delas junto ao corpo.
O comportamento seguinte, segundo Rodrigo, chamou sua atenção.
“Quando ele vira, o primeiro foco que ele dá, o olho é para a câmera. Ele olha para a câmera e vem tentando esconder a faca da filmagem”, contou.
Ainda conforme o advogado, Daniel teria permanecido por algum tempo com a arma escondida, inclusive enquanto interagia com o cachorro da família. Em outros momentos, teria entrado e saído do quarto antes do ataque.
Para Rodrigo, a preocupação em ocultar a faca e evitar que ela aparecesse nas gravações indica que o acusado compreendia a gravidade do que pretendia fazer.
“O cara, quando ele está inimputável, que ele não tem a capacidade de entendimento, não se preocupa com a câmera. Ele não se preocupa em esconder a faca”, argumentou.
A interpretação apresentada pelo advogado é contestável no âmbito processual e não substitui a avaliação pericial sobre a condição mental de Daniel no momento do crime.
Outro ponto levantado por Rodrigo Pozo Miranda envolve a situação financeira do acusado.
Segundo o advogado, as gravações dos dias anteriores mostram Daniel preocupado com perdas financeiras e conversando repetidamente sobre dinheiro. Em uma das situações, Gleice teria mencionado gastos superiores a R$ 1 milhão.
“Ele só fala de dinheiro. Ele só fala que perdeu o dinheiro”, relatou.
Rodrigo afirma que, apesar das discussões, Gleice tentava tranquilizar o marido e demonstrava disposição para ajudá-lo a enfrentar os problemas.
O advogado também descreveu um episódio ocorrido dois dias antes do crime, quando a irmã de Daniel esteve na residência.
Durante a visita, o acusado teria mencionado pensamentos relacionados à morte e feito referências ao diabo. Após deixar o imóvel, a irmã teria enviado uma mensagem a Gleice.
“Ela manda uma mensagem para a Gleice falando: ‘Ó, Gleice, cunhã, guarda as facas da casa’”, afirmou Rodrigo.
Na avaliação do assistente de acusação, o episódio merece atenção porque antecedeu o momento em que Daniel teria separado e escondido facas dentro da residência.
A hipótese de motivação financeira também é defendida por José Martinez França Neto, familiar de Gleice.
Em entrevista ao O LIVRE, ele afirmou acreditar que Daniel tenha cometido o crime por interesse patrimonial, e não em decorrência de um transtorno psiquiátrico.
“Eu acho que ele matou por ganância extremamente financeira”, declarou.
Questionado se acreditava que o acusado tivesse problemas psiquiátricos, José respondeu: “Nenhum problema psiquiátrico”.
As afirmações representam a opinião do familiar. A motivação do crime e a capacidade de entendimento do acusado permanecem questões a serem examinadas pela Justiça.
Além da morte de Gleice, o ataque deixou consequências para a filha mais nova do casal, que também foi esfaqueada.
José Martinez França Neto afirmou que a criança continua em acompanhamento médico e psicológico e apresenta dificuldades para caminhar em razão de uma sequela motora.
“Ela manca porque teve um probleminha de nervo, se eu não me engano, mas ela tem essa sequela”, relatou.
Segundo o familiar, a menina frequenta a escola normalmente, realiza sessões de terapia e participa de atividades de reabilitação, incluindo natação.
José também afirmou que ela ainda demonstra medos e traumas relacionados ao episódio. A criança está sob os cuidados da irmã mais velha, Carol, conforme os relatos dos entrevistados.
Rodrigo Pozo Miranda também revelou que a família pretende discutir judicialmente os direitos patrimoniais de Daniel.
Segundo ele, o acusado já se manifestou no inventário, mas a assistência jurídica buscará o reconhecimento da indignidade sucessória, mecanismo previsto na legislação que pode impedir o recebimento de herança em determinadas circunstâncias.
“Ele matou a esposa. E tentou contra a filha ainda. Então qualquer coisa em relação ao casal ali, ele é indigno”, sustentou o advogado.
Rodrigo também afirmou que pretende buscar indenizações para as duas filhas de Gleice.
Embora ainda não exista valor definido, ele mencionou a possibilidade de pedidos entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões para cada uma.
“Não mensura o valor”, disse, ao comentar os danos causados pela morte da mãe e pela violência sofrida pela criança sobrevivente.
O advogado também informou que pretende discutir o pagamento de pensão às filhas.
A discussão sobre a responsabilidade penal de Daniel está relacionada a um incidente de insanidade mental apresentado pela defesa.
De acordo com Rodrigo, foram juntados documentos médicos relacionados a tratamentos e medicamentos utilizados pelo acusado.
O assistente de acusação, entretanto, sustenta que as gravações são relevantes para avaliar o comportamento de Daniel antes e durante o ataque.
“Todo o tempo ele está lúcido, todo o tempo ele sabe o que está fazendo”, afirmou.
A capacidade de entendimento do acusado no momento do crime deverá ser examinada com base nos elementos médicos, periciais e processuais. A avaliação pessoal do advogado não equivale a uma conclusão judicial.
Segundo Rodrigo Pozo Miranda, o processo voltou a tramitar e já possui audiência de instrução marcada.
O advogado afirmou que a defesa solicitou que Daniel fosse dispensado de comparecer à audiência, mas pretende se manifestar contrariamente ao pedido.
Sobre a possibilidade de julgamento pelo Tribunal do Júri, Rodrigo disse acreditar que isso possa ocorrer em 2027, caso o andamento processual permita.
“Ano que vem. Se tudo der certo, vamos acelerar”, declarou.
Ainda não existe data oficial para o julgamento.
Enquanto a Justiça analisa a responsabilidade do acusado, a família de Gleice continua buscando respostas sobre o que aconteceu dentro da residência. Para Rodrigo, as gravações poderão desempenhar papel decisivo nessa discussão. Já para José Martinez França Neto, as consequências do crime permanecem presentes na vida da filha que sobreviveu.
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