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Da bolha para as urnas: como as redes sociais impulsionaram candidatos em MT


Votações de José Medeiros, Ulysses Moraes e Samantha Iris reforçam influência das redes sociais sobre o eleitorado

No dia 23 de setembro, a 11 dias da eleição, áudios vazados expuseram comentários do deputado federal José Medeiros (PL) sobre parte de seus próprios eleitores. Nas gravações, o parlamentar afirmou que recebe votos de pessoas que “bebem detergente” e “oram para alienígenas”.

A expectativa era de que a repercussão negativa prejudicasse ainda mais uma candidatura ao Senado que, segundo as pesquisas eleitorais, já não apresentava bom desempenho. O resultado das urnas, porém, apontou na direção oposta.

Medeiros recebeu mais de 977 mil votos e terminou a disputa com o segundo maior número de votos já obtido por um candidato ao Senado em Mato Grosso — não apenas na eleição deste ano, mas em toda a história das disputas para o cargo no Estado.

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O que explica uma votação tão expressiva, apesar das controvérsias e de um desempenho pouco favorável nas pesquisas?

Para o cientista político João Edisom, uma das respostas está no trabalho que Medeiros construiu ao longo dos anos nas redes sociais. O deputado mantém um público numeroso de seguidores e, sobretudo, uma comunicação direta com esse eleitorado, utilizando a linguagem própria das plataformas digitais.

“Medeiros sabia o que estava fazendo quando disse aquilo. Pode ter pegado mal para quem está de fora, mas, para a bolha a que ele se dirige, significou que ele confia no seu público, que eles são ponta firme”, afirma.

O caso de Medeiros não é isolado.

Outro exemplo é o do deputado estadual eleito Ulysses Moraes (PODE), que estava fora da política havia quatro anos. Ele foi eleito pela primeira vez em 2018, na onda bolsonarista, mas não conseguiu dar continuidade à carreira política na tentativa de chegar à Câmara dos Deputados em 2022.

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Neste ano, porém, retornou à disputa e obteve 56.207 votos válidos, superando o desempenho de quatro anos atrás e ultrapassando políticos que já estavam na Assembleia Legislativa antes de sua chegada e permaneceram no Parlamento durante o período em que ele esteve fora.

Nesse intervalo, Ulysses apareceu em algumas notícias, majoritariamente relacionadas a polêmicas nas redes sociais. Apesar de ter deixado o mandato, manteve sua presença digital e continuou se comunicando com um público de centenas de milhares de pessoas. Hoje, possui mais de 970 mil seguidores apenas no Instagram.

Tanto Medeiros quanto Ulysses exploram aquilo que João Edisom define como “motes eleitorais”: temas capazes de gerar repercussão na internet e nos quais determinados grupos de internautas se sentem representados pela abordagem adotada pelos políticos.

Na eleição deste ano, a controvérsia envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) esteve entre os assuntos mais comentados e procurados pelos internautas. Associado ao debate sobre o Supremo, apareceu também o tema da segurança pública e, sobretudo, os problemas relacionados ao avanço do crime organizado.

Questões ideológicas igualmente mobilizaram as redes, como o antipetismo e o antibolsonarismo.

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Para João Edisom, entretanto, o fenômeno precisa ser compreendido para além da quantidade de seguidores. O poder eleitoral das redes não está necessariamente em falar com milhões de pessoas, mas em estabelecer uma comunicação permanente com grupos específicos.

“Diferentemente do que se pensa, na internet não se fala para muitos; fala-se para poucos, para bolhas. Os políticos que se dão bem possuem uma conversa cotidiana com seus seguidores. Eles não precisam simplesmente abrir um perfil e ser impulsionados, entrar no hype. Não é mágica. É uma ferramenta nova que os políticos brasileiros começaram a usar”, afirma.

Segundo o cientista político, essas bolhas não são isoladas. Elas se interconectam por meio de seguidores, compartilhamentos, interações e pautas comuns, formando uma espécie de rede política digital.

É possível, nesse sentido, identificar conexões nas atividades políticas online entre José Medeiros, Ulysses Moraes, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL-MT).

Abilio não disputou a eleição deste ano, mas teve participação indireta no processo ao ajudar a eleger sua esposa, a vereadora Samantha Iris (PL-MT), para a Assembleia Legislativa.

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Samantha possui uma presença digital menor que a dos demais políticos desse grupo, mas está inserida na rede de contatos e influência construída por Abilio, que reúne mais de 1,7 milhão de seguidores apenas no Instagram e é considerado um dos políticos mais influentes do país no ambiente virtual.

Samantha recebeu 57.900 votos válidos.

Na avaliação de João Edisom, o desempenho desses candidatos em 2026 está diretamente relacionado à consolidação de um novo modelo de campanha eleitoral. Abilio, por exemplo, já havia demonstrado em 2024 a capacidade de transformar sua presença na internet em força eleitoral.

A principal mudança, segundo ele, foi o deslocamento do centro da campanha: das ruas para as redes sociais.

“Houve essa sensação de que a campanha foi fraca neste ano. Mas ela foi tão forte quanto as outras. O que houve foi uma mudança de foco no pedido de votos. A abordagem não estava no cara a cara, nas ruas; estava nas redes sociais”, afirma.

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A aparente ausência de campanha, portanto, pode ter sido justamente o resultado de uma campanha que aconteceu em outro lugar.

Enquanto os modelos tradicionais dependiam de carreatas, comícios, santinhos, reuniões e do contato direto entre candidato e eleitor, a nova lógica eleitoral permite que um político passe anos construindo uma comunidade digital antes mesmo de uma eleição começar.

Quando chega o período eleitoral, ele não parte do zero. Já possui seguidores, linguagem, reputação dentro daquela comunidade e, principalmente, uma relação de confiança com uma parcela do eleitorado.

É nesse ambiente que declarações polêmicas podem produzir efeitos diferentes daqueles esperados fora da bolha. O que para um observador externo parece um erro de comunicação pode, para o grupo que acompanha diariamente determinado político, funcionar como demonstração de identidade, pertencimento e lealdade.

A eleição de 2026 em Mato Grosso oferece, assim, um retrato de uma transformação que vai muito além dos números de seguidores: a força eleitoral de um candidato já não depende apenas de quantas pessoas ele consegue alcançar, mas de quão profundamente consegue falar com aquelas que já o escutam.

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A campanha pode até parecer silenciosa nas ruas. Mas, dentro das bolhas digitais, ela nunca parou.

agro.mt

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