Os conflitos geopolíticos que envolvem regiões estratégicas para o transporte e a produção de insumos agrícolas têm levado o Brasil a ampliar a busca por fontes alternativas de fertilizantes. A instabilidade no Estreito de Ormuz, principalmente diante das tensões entre Irã e Israel, afeta a disponibilidade de matérias-primas e adiciona pressão aos custos da produção agrícola.
O enxofre elementar está entre os produtos mais impactados. De acordo com Rafael Almeida, diretor de Fertilizantes da AgriConnection, o preço da matéria-prima chegou a subir cerca de seis vezes. O insumo é importante para a produção de ácido sulfúrico e, posteriormente, de ácido fosfórico e rocha, componentes ligados à fabricação de fertilizantes fosfatados.
A elevação dos custos acaba chegando a produtos utilizados nas lavouras brasileiras, como MAP e superfosfato triplo. Além dos conflitos, o enxofre passou a disputar espaço na matriz energética com a produção de baterias para carros elétricos, enquanto algumas plantas produtoras também foram afetadas. “Você soma todos esses fatores e você tem um aumento muito alto na matéria-prima”, pontua Almeida.
O cenário tem sido observado ao longo da comercialização de fertilizantes para a safra de verão e para a segunda safra. A avaliação é de que os preços não devem ceder no curto prazo, diante de um problema considerado estrutural para o mercado.
Para reduzir a exposição aos gargalos de oferta, empresas que atuam na intermediação entre indústrias e produtores passaram a ampliar as origens dos produtos. “O papel da AgriConnection aí nesse caso é se aproximar de outras fontes mundiais de produção de matéria-prima”, explicou Almeida ao Canal Rural Mato Grosso em entrevista durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte (MG). Entre as alternativas estão fornecedores de enxofre do Marrocos, Canadá e Rússia.
A estratégia também alcança os fertilizantes nitrogenados, cuja cadeia é afetada pelas restrições relacionadas ao Estreito de Ormuz. Nesse segmento, o Brasil tem buscado fornecedores de países como Argélia e Nigéria, ampliando as possibilidades de abastecimento.
A China também entrou nesse movimento, mas em um cenário de restrição de oferta. Com a proximidade de uma concorrência internacional de compra de ureia pela Índia, o mercado registrou forte valorização. Segundo Almeida, nas três semanas anteriores à entrevista, a alta chegou a quase US$ 80 por tonelada.
Nesse contexto, outras fontes e produtos passaram a ser considerados. De acordo com ele, a AgriConnection buscou alternativas à ureia, entre elas o sulfato de amônio produzido principalmente na China. O produto é um subproduto da cadeia de produção de nylon e passou a ser utilizado pelos produtores como fonte de nitrogênio e enxofre.
A diversificação também ocorre dentro das propriedades. Diante do custo dos fertilizantes, o produtor tem intensificado as análises de solo para avaliar as reservas de fósforo e definir as doses necessárias para a adubação, principalmente na safra de verão. Na safrinha, a avaliação apresentada por Almeida aponta estabilidade nas doses de nitrogênio e potássio.
O manejo dos nutrientes ganhou importância após uma safra de alta produtividade. A maior retirada de nutrientes pelas lavouras exige atenção ao balanço entre o que é extraído e o que retorna ao sistema. “Nós tivemos recorde de produtividade na última safrinha, se também teve uma alta extração de nutrientes do solo”, observa.
A preocupação não está restrita à disponibilidade física dos fertilizantes. O acesso ao crédito rural também aparece como um dos fatores que pressionam a capacidade de investimento dos produtores, em um momento de margens mais apertadas. Nesse cenário, a empresa trabalha com três fundos como ferramentas financeiras para oferecer crédito e também desenvolve um Fiagro voltado à aquisição de fertilizantes a prazo.
Para as próximas temporadas, o comportamento do mercado mostra que parte dos produtores já está antecipando decisões. Nas últimas quatro semanas, conforme Almeida, já houve movimentação significativa na compra de cloreto de potássio para a soja da safra 2027/28. A estratégia considera a relação de troca entre o preço do grão e o custo do fertilizante.
Ao antecipar a compra quando essa relação é considerada favorável, o produtor busca reduzir a exposição às oscilações futuras. “O fertilizante não é só preço. Ele está muito relacionado ao abastecimento, à disponibilidade e à mitigação de risco no custo de produção”, ressalta Almeida.
A gestão dos nutrientes também passa pela eficiência agronômica. A redução de doses, segundo Almeida, não necessariamente representa economia quando considerada a produtividade do sistema. Em culturas de maior investimento, como o algodão, o equilíbrio da adubação pode influenciar o retorno sobre o capital aplicado.
No algodão, o fertilizante representa entre 30% e 35% do custo de produção mencionado pelo especialista. Por isso, além da produtividade, entram na conta fatores como rendimento e qualidade da pluma. No sistema que envolve soja, algodão e milho, a estratégia passa ainda pelo balanço entre a exportação de nutrientes pelas culturas e o aporte feito por meio da adubação.
Com os custos pressionados, o produtor também tem ajustado a distribuição dos nutrientes entre as culturas. Uma das possibilidades citadas é concentrar a adubação em determinada etapa do sistema e trabalhar posteriormente com aplicações mais específicas, como o uso de nitrogenado no milho. “Então a gente entende que o produtor também vai fazendo esse ajuste para acomodar esse custo de produção no fluxo de caixa dele”, afirma Almeida.
*A reportagem do Canal Rural Mato Grosso viajou para Belo Horizonte a convite da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).
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