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Da crise à soja com IA: como José Bisneto transformou dificuldade em frente de produção


Arquivo José Bisneto

Na história de José Bisneto, a soja entrou muito depois. Antes dela vieram os canaviais de Pernambuco, as usinas da família, as viagens pelas estradas do Nordeste e uma sucessão de crises que, em vez de interromper sua trajetória, acabaram abrindo novas portas.

Hoje, sua produção de cana, açúcar e álcool divide espaço, em proporções semelhantes, com a produção de grãos, como soja e milho. No campo, a experiência acumulada ao longo de décadas se encontra com agricultura de precisão, dados e inteligência artificial.

Mas, antes de chegar à soja, foi preciso aprender a recomeçar. “Eu nasci dentro de uma usina e me criei, cresci dentro de uma usina. Então, conhecia tudo e sempre fui um empolgado com a cana-de-açúcar, o processo industrial. Todo esse setor me encantava”, conta.

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Pernambucano, nasceu em uma família de usineiros e cresceu entre máquinas, canaviais e o movimento das usinas. Nos anos 1980, a usina da família quebrou, em meio a mais uma crise do setor sucroenergético.

Foi nesse período que Bisneto encontrou uma nova oportunidade. Com o avanço do álcool combustível, novas destilarias surgiam no Nordeste, muitas delas comandadas por pecuaristas que tinham terra, mas não tinham experiência na fabricação de álcool. Ele começou a comprar melaço, subproduto da fabricação de açúcar, e revendê-lo às novas destilarias.

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O comércio cresceu e o levou a percorrer o Nordeste. Até que uma das usinas para as quais havia comprado antecipadamente toda a produção de melaço da safra seguinte quebrou. O dinheiro já estava comprometido. A produção, paga. Restava decidir o que fazer.

A resposta foi assumir a usina. “Os donos me chamaram para explicar que tinham quebrado, que não havia solução e que eu estava com toda a safra comprada e paga antecipadamente. Então não restou outra alternativa a não ser assumir a usina.”

O pontapé para a produção de soja

A experiência acumulada dentro das usinas ajudou na recuperação da produção. Em 1989, veio a segunda usina, em Sergipe. Mais tarde, diante das dificuldades de produzir cana no Nordeste, Bisneto levou sua experiência para o Centro-Sul, onde passou a atuar também em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais.

“A partir de 1950, a produção do Sul e Sudeste cresceu de uma maneira muito grande. Para quem tinha o conhecimento das dificuldades que a gente tinha no Nordeste, para mim foi muito entusiasmante começar a produzir no Centro-Sul.”

“Eu resolvi diversificar porque o nosso balanço final estava no vermelho, sempre no vermelho. Aproveitei algumas terras, como nós já tínhamos muitas terras nessas usinas, e comecei a produzir soja. Era um aprendizado. Comecei a produzir soja e me entusiasmei.”

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O que começou como uma alternativa para enfrentar uma crise ganhou outra dimensão. A soja passou a dividir espaço com a cana e, com o tempo, se tornou uma atividade tão importante quanto ela. A entrada nos grãos também trouxe uma nova forma de trabalhar a terra, combinando a experiência acumulada no campo com agricultura de precisão, dados e, mais recentemente, inteligência artificial.

A IA como aliada

Hoje, a agricultura de precisão permite que os insumos sejam aplicados de acordo com aquilo que cada pedaço do solo realmente precisa. Na prática, isso significa tomar decisões diferentes para cada talhão, considerando características específicas da área. A inteligência artificial levou esse processo um passo adiante.

Em uma das experiências, dados de diferentes safras foram cruzados considerando época de plantio, variedades, tipos de solo e produtividade de cada talhão. O resultado foi um mapa de decisões sobre qual variedade plantar, em qual área e em qual momento.

Com o apoio da IA Gemini, do Google, o grupo consegue identificar a variedade ideal de soja para cada área da fazenda, considerando solo, clima e produtividade histórica. A ferramenta funciona como complemento ao trabalho dos agrônomos, reunindo informações que seriam difíceis de analisar de forma conjunta.

“São milhares e milhares de dados que não dá para você calcular. A IA cruzou todos esses dados para, no fim, me dar o seguinte resultado: talhão tal, você precisa plantar na primeira quinzena de outubro com a variedade tal.”

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Para Bisneto, o avanço da inteligência artificial não significa deixar as decisões do campo nas mãos da tecnologia. Ele vê a ferramenta como uma aliada do profissional, capaz de organizar e cruzar uma quantidade de informações que seria difícil analisar de outra forma. A decisão, porém, continua dependendo de quem conhece a terra, entende o negócio e sabe interpretar os resultados.

“Ela faz todos esses cálculos, mas a cabeça do engenheiro agrônomo e de gente estudiosa vai usar a inteligência artificial. Ela será usada a serviço do profissional, e não o profissional a serviço da IA”, aponta.

É nessa parceria que Bisneto vê o futuro da tecnologia no campo. A inteligência artificial pode ajudar a encontrar padrões, comparar informações e apontar possibilidades, mas não substitui a experiência de quem trabalha com a terra. Para ele, a tecnologia deve estar a serviço do profissional, ampliando sua capacidade de análise e ajudando na tomada de decisão.

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agro.mt

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