Muito antes da contratação, o comportamento do candidato já começa a contar uma história sobre quem ele é profissionalmente.
Currículos apresentam experiências, cursos, competências e resultados. Mas existem características que dificilmente cabem em uma folha: responsabilidade, comprometimento, respeito e ética. E elas começam a ser percebidas desde os primeiros contatos de um processo seletivo.
Uma situação que tem chamado a atenção no recrutamento é a ausência de candidatos em entrevistas previamente confirmadas, muitas vezes sem qualquer comunicação ou justificativa. Imprevistos acontecem. Uma pessoa pode adoecer, enfrentar uma emergência familiar, ter dificuldades de deslocamento ou até mesmo receber outra proposta e desistir da oportunidade.
Nada disso é, por si só, o problema. O problema está em confirmar um compromisso e simplesmente não comparecer, sem avisar. Uma entrevista envolve o tempo de várias pessoas. Quando uma empresa agenda uma entrevista, existe uma estrutura sendo mobilizada. Recrutadores organizam agendas, gestores reservam horários, currículos são analisados e etapas do processo são planejadas para receber aquele profissional. Por isso, quando alguém confirma sua participação e não aparece, a ausência deixa de ser apenas uma questão de agenda. Ela passa a comunicar comportamento.
No ambiente profissional, cumprir aquilo que foi combinado é uma das manifestações mais básicas de responsabilidade. Quando não for possível cumprir, comunicar com antecedência demonstra respeito. Uma mensagem simples dizendo “não poderei comparecer” ou “não tenho mais interesse na oportunidade” já demonstra maturidade profissional. Seu comportamento também está sendo avaliado. Existe uma percepção equivocada de que a avaliação começa somente quando o candidato entra na sala da entrevista.
Na prática, ela começa antes. A forma como responde às mensagens, a pontualidade, o cuidado com as informações recebidas, o cumprimento dos horários e a maneira como conduz uma eventual desistência também fazem parte da experiência do processo seletivo. O recrutador não avalia apenas aquilo que o profissional diz ser. Ele também observa aquilo que o profissional demonstra ser por meio de suas atitudes.
É possível possuir excelente formação acadêmica e experiência técnica relevante e, ainda assim, perder uma oportunidade por comportamentos incompatíveis com aquilo que a organização considera essencial. Competência técnica abre portas. Comportamento influencia diretamente a decisão de mantê-las abertas.
Comprometimento começa antes do primeiro dia de trabalho e empresas procuram profissionais em quem possam confiar. Querem pessoas capazes de assumir responsabilidades, respeitar acordos e compreender que suas decisões impactam outras pessoas. Por isso, uma entrevista de emprego não deve ser encarada apenas como uma conversa para conhecer determinada vaga. Ela também representa um compromisso profissional assumido entre duas partes.
Quando o candidato confirma presença, existe uma expectativa legítima de que compareça.
Caso mude de ideia, comunicar é o mínimo esperado. Isso também é ética profissional.
É compreender que existe outra pessoa do outro lado, que disponibilizou parte do seu tempo e organizou sua rotina para aquele encontro.
Reputação profissional é construída nos pequenos comportamentos, onde vivemos em um mercado cada vez mais conectado. Empresas possuem bancos de talentos, consultorias acompanham profissionais ao longo da carreira e recrutadores frequentemente reencontram candidatos em diferentes processos seletivos.
Uma vaga que hoje não parece interessante pode, amanhã, dar lugar a uma oportunidade muito mais alinhada ao momento profissional daquele candidato.
Por isso, preservar relações é estratégico. Não se trata de exigir que alguém aceite uma vaga que não deseja. Todo candidato tem o direito de desistir de um processo seletivo. Mas existe uma diferença significativa entre desistir e desaparecer. Avisar demonstra consideração.
Agradecer pela oportunidade demonstra educação. Cumprir aquilo que confirmou demonstra responsabilidade. E reconhecer que o tempo do outro também possui valor demonstra respeito.
Em recrutamento, frequentemente encontramos profissionais tecnicamente excelentes. Porém, empresas não contratam apenas conhecimentos e experiências. Contratam pessoas que precisarão conviver, entregar resultados, cumprir acordos e representar a organização.
É justamente por isso que atitudes aparentemente pequenas possuem tanto significado.
Comparecer a uma entrevista confirmada não deveria ser considerado um diferencial. Deveria ser parte natural da postura profissional.
E, quando realmente não for possível comparecer, comunicar deveria ser igualmente natural.
No mercado de trabalho, responsabilidade, comprometimento, respeito e ética não são palavras para preencher competências comportamentais em um currículo. São valores demonstrados nas atitudes. Talvez a entrevista dure apenas 30 minutos, mas a impressão deixada pela forma como você trata esse compromisso pode permanecer por muito mais tempo.
Porque, antes mesmo de uma empresa avaliar como você trabalha, ela já começou a observar como você se comporta diante daquilo que assumiu.
Danillo Rodrigues da Silva é Headhunter e CEO do Grupo RDanillo. Atua há 20 anos na área de Atração & Seleção, já contratou mais de 21 mil profissionais. Networker no RDanillo Conecta.
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