O agronegócio de Mato Grosso e brasileiro ainda não conseguiu deixar para trás o cenário de turbulência e a projeção para as próximas safras é de manutenção do aperto financeiro. Diante da combinação de juros elevados, endividamento e custos pressionados, a estimativa dos setores produtivo e financeiro é de que o ciclo de readequação nas propriedades rurais avance ao menos até 2027.
O prolongamento da crise exige maior cautela nas decisões de investimento e na contratação de novos financiamentos. Mais do que uma dificuldade passageira de caixa, a sequência de safras desafiadoras reduziu a margem de manobra do produtor e aumentou o nível de exigência por parte das instituições financeiras.
Para o diretor executivo do Sicredi Central Centro Norte, Seneri Paludo, o mercado precisa entender que a recuperação do campo não ocorrerá no curto prazo. “Os sinais da economia do agro começaram em 2023 e 2024. Veio 2024 muito complexo, 2025 complexo, 2026 também. Para mim, 2027 está tão complexo quanto os últimos anos, até com um agravante: a questão do clima”, alerta o executivo, reforçando que o momento exige contenção. “Esta próxima safra ainda vai ser de bastante ajuste. O nome do jogo é prudência”, frisa em entrevista ao programa Direto ao Ponto.
O impacto do cenário adverso transborda para o ambiente de crédito. A inadimplência acima de 90 dias no crédito rural brasileiro bateu recordes e atingiu 7,5%, patamar muito distante da média histórica de 1%. Em Mato Grosso, a taxa de atraso do sistema financeiro supera os 8,5%.
A situação ganha contornos ainda mais graves ao analisar os chamados “ativos problemáticos”, indicador que engloba contratos vencidos, renegociados, repactuados ou prorrogados por medidas governamentais. Em praças com maior estresse financeiro, como o Vale do Araguaia, entre 20% e 25% de toda a carteira de crédito rural encontra-se sob algum tipo de readequação ou atraso.
Esse nível de comprometimento assusta o sistema financeiro e trava a circulação de novos recursos. “É um valor extremamente alto da carteira. E aí assusta todo o sistema”, afirma Paludo ao programa do Canal Rural Mato Grosso.
Outro termômetro do endividamento no campo é a disparada dos processos de recuperação judicial (RJ). Em Mato Grosso, o montante envolvido nas solicitações saltou de R$ 3 bilhões em 2023 para R$ 5 bilhões em 2024, alcançando R$ 7,8 bilhões em 2025.
Mesmo com desaceleração no início deste ano, quando foram registrados R$ 1,7 bilhão, o volume acumulado nas últimas quatro safras chega perto de R$ 20 bilhões dentro do estado. Como resposta a essa escalada, bancos e cooperativas passaram a reter operações e a exigir garantias reais para qualquer concessão, inclusive para linhas de capital de giro.
O arrocho na análise de crédito fez com que a concessão de recursos passasse a ser mais criteriosa e rigorosa. Além da avaliação do balanço patrimonial, as instituições do setor reforçaram a análise sobre aspectos comportamentais, o nível de profissionalização da gestão e a capacidade de pagamento das propriedades rurais.
Para responder às exigências do mercado e manter a solidez frente aos riscos do setor, o próprio sistema cooperativo vem promovendo incorporações e fusões de unidades regionais no estado. Na área de atuação do Sicredi Central Centro Norte, o volume de ativos administrados atinge R$ 75 bilhões.
Se antes a escassez de recursos limitava a atuação dos agentes financeiros, hoje o principal gargalo é o patamar da taxa de juros, de acordo com o diretor executivo. Embora haja disponibilidade de funding e de repasses de linhas oficiais como FCO, BNDES e Finame, o custo elevado do dinheiro inviabiliza novos projetos de expansão ou a compra de máquinas.
Com a rentabilidade das aplicações financeiras em alta e as margens da atividade agrícola comprimidas, o financiamento da produção tornou-se uma conta de risco elevado para o produtor rural. “Há 8 ou 10 anos, o que faltava para a gente era funding. Hoje a gente tem lastro suficiente e o que pega na conta mesmo é a taxa de juros”, pontua o executivo.
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