Trichoderma amplia tolerância de culturas a estresses abióticos

Pesquisadores reuniram evidências sobre salinidade, seca e metais e aponta limites para uso no campo

Fungos do gênero Trichoderma podem ampliar a tolerância de culturas agrícolas à salinidade, à seca e à contaminação por metais pesados por meio de alterações no sistema radicular, na fotossíntese, no equilíbrio iônico e nas defesas antioxidantes. Pesquisadores chineses reuniram resultados disponíveis até junho de 2026. Apontaram forte dependência da linhagem utilizada, da cultura, do método de aplicação e das condições ambientais. Eles alertam para a falta de validação ampla em campo, principalmente diante de temperaturas extremas e estresses combinados.

O estudo analisou o uso de Trichoderma como agente de controle biológico, biofertilizante e bioestimulante microbiano. A síntese abrange salinidade, déficit hídrico, metais pesados, temperaturas extremas e poluentes emergentes. Os mecanismos descritos incluem mudanças na arquitetura das raízes, regulação antioxidante, ajuste osmótico, aquisição de nutrientes, homeostase de íons, equilíbrio hormonal e expressão de genes ligados à resposta ao estresse.

Fungo, planta e rizosfera

Os efeitos dependem da interação entre fungo, planta e rizosfera. A linhagem precisa apresentar características genéticas e metabólicas adequadas, sobreviver ao armazenamento e à aplicação, alcançar a região das raízes e manter colonização funcional. O processo também sofre influência do solo, da microbiota residente, do genótipo da planta e da intensidade do estresse.

A diversidade genética dentro do gênero ajuda a explicar diferenças entre resultados. Uma análise de 25 linhagens agrícolas e industriais encontrou 4.960 genes compartilhados e um pangenoma aberto. Pesquisadores relacionam genes acessórios e específicos de cada linhagem a funções como metabolismo secundário, interação com plantas, competição microbiana e adaptação ambiental.

Colonização radicular

A colonização radicular ocupa posição central nesse processo. Espécies como Trichoderma harzianum, Trichoderma asperellum, Trichoderma virens e Trichoderma atroviride podem atuar na rizosfera e nos tecidos superficiais das raízes. Compostos liberados pelos fungos influenciam ramificação radicular, formação de pelos absorventes e sinalização hormonal. O aumento da superfície radicular favorece a absorção de água e nutrientes sob condições adversas.

Resultados em salinidade

A salinidade concentra algumas das evidências agronômicas mais consistentes. Em mostarda-da-índia, Brassica juncea, a aplicação de Trichoderma harzianum em solo naturalmente salino elevou clorofila, prolina, teor de óleo e acúmulo de nutrientes. O tratamento também reduziu a absorção de sódio e a relação entre sódio e potássio. A aplicação via composto aumentou a produtividade de sementes em cerca de 23%. O teor de óleo cresceu entre 19% e 23,4%.

Outro experimento mostrou redução da relação entre sódio e potássio de 2,14 para cerca de 0,92 no genótipo Tori-7 sob o tratamento mais intenso com composto. Segundo pesquisadores, esse resultado indica participação do fungo na estabilização iônica, além do estímulo ao crescimento.

Resultados em citros reforçam esse mecanismo. A inoculação com Trichoderma harzianum aumentou crescimento, biomassa, taxa fotossintética, condutância estomática e teor de clorofila sob estresse salino. As plantas acumularam menos sódio e apresentaram maior expressão de genes associados ao transporte de água e à resposta ao excesso de sal.

Dados em seca

Na seca, os resultados envolvem principalmente manutenção do sistema radicular, uso da água, fotossíntese e controle do estresse oxidativo. A inoculação com Trichoderma asperellum melhorou nutrição, concentração de clorofila e carotenoides, taxa fotossintética, condutância estomática e eficiência no uso da água em cana-de-açúcar. O tratamento também elevou a atividade de enzimas antioxidantes e o acúmulo de prolina.

Em milho, uma linhagem de Trichoderma asperellum aplicada às sementes manteve populações do fungo ao longo do desenvolvimento da cultura e reduziu os efeitos do déficit hídrico. Em arroz, o biopriming com Trichoderma harzianum alterou respostas moleculares associadas à tolerância posterior à falta de água.

Tratamentos combinados

Os cientistas alertam para ter cautela na interpretação de tratamentos combinados. Um experimento com pimentão utilizou biochar incorporado ao solo e uma suspensão independente de Trichoderma harzianum. O estudo avaliou coaplicação, mas não comprovou o biochar como veículo do fungo. Sob irrigação correspondente a 50% do regime avaliado, o tratamento combinado elevou em mais de 40% a atividade de três enzimas antioxidantes e reduziu o peróxido de hidrogênio em aproximadamente 25%. Outro marcador de dano oxidativo, no entanto, apresentou resposta divergente.

Metais pesados

Os metais pesados formam outra frente de pesquisa. Em mostarda-da-índia submetida a cádmio, a combinação entre Trichoderma harzianum e ácido poliaspártico aumentou o volume radicular em 30,65% e a biomassa total em 42,38%. O acúmulo total de cádmio subiu 79,11%. A concentração do metal nas folhas cresceu até 71,12%. Os pesquisadores interpretam o resultado como aumento simultâneo da tolerância da planta e da capacidade de remoção do contaminante.

A mesma combinação elevou a eficiência de remoção de cádmio do solo de 21,71% para 38,27% em outro estudo. As análises também detectaram mudanças na comunidade microbiana da rizosfera. A revisão ressalta uma limitação: associações obtidas por análises de coocorrência não comprovam relações causais nem demonstram recuperação funcional da rede microbiana.

Calor e frio

As evidências para calor e frio permanecem mais restritas. Estudos com Trichoderma harzianum após exposição ao calor demonstraram sobrevivência e adaptação do próprio fungo. Esses dados não comprovam proteção térmica das culturas, manutenção da produtividade ou estabilidade em campo.

Para ampliar a aplicação agrícola, os pesquisadores recomendam seleção específica de linhagens para cada cultura, estudos de genes e proteínas envolvidos nas respostas, padronização de formulações, experimentos com múltiplos estresses e ensaios em diferentes locais. A revisão também aponta necessidade de avaliações de biossegurança e análises econômicas em escala de produtor. O avanço dessas etapas poderá definir com maior precisão onde os inoculantes de Trichoderma entregam respostas reproduzíveis sob condições comerciais (doi 10.3390/jof12080578).

agro.mt

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